Crítica

Grandioso álbum conceptual

Luís Figueiredo afirma-se como versátil compositor e arranjador, partindo do jazz para ir mais além. Grandioso álbum conceptual à volta da ideia do tempo.

23 canções à volta da ideia de tempo que pedem ao espectador que se deixe conquistar
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23 canções à volta da ideia de tempo que pedem ao espectador que se deixe conquistar Vera Marmelo

Já contava com dois discos no currículo, mas o nome do pianista Luís Figueiredo terá ficado mais conhecido do público por ter sido o responsável pelos arranjos de cordas da canção Amar pelos Dois. Figueiredo ajudou Salvador Sobral a vencer a Eurovisão e tem colaborado com outros músicos nacionais (trabalhou no recente disco de Ana Bacalhau, por exemplo).

Agora o pianista reclama para si toda a atenção ao apresentar um grandioso álbum conceptual, na forma de disco duplo. Reúne um total de vinte e três (!) composições à volta da ideia do tempo — e a maioria dos temas são mesmo originais. Se os seus primeiros discos (Manhã e Lado B) revelavam uma exclusiva afiliação jazzística, neste novo trabalho Figueiredo não abdica dessa raiz, mas ousa ir mais além. Os temas atravessam diversos universos sonoros, desde elementos de clássica de câmara, passando pela improvisação pura, momentos de spoken word, baladas ternas e até pop-rock.

O líder e compositor reuniu um conjunto de músicos para o acompanhar, mas não há uma formação base: há uma lista extensa de configurações diferentes, solo, trio, quarteto, até octeto — ou seja, os músicos entram e saem consoante cada tema pede (e os arranjos do líder definem).

Luís Figueiredo, que já tinha exibido anteriormente a sua competência técnica pianística, trata agora de mostrar as suas qualidades como compositor e arranjador. E essa qualidade é confirmada em momentos tão diversos como Kronos Suite (a suite que abre o disco e explana a amplitude estética do disco, em três movimentos), Tempus Fugit (emulação de hardbop enérgico), Motu Perpetuo (classicismo sedutor num tema que parece não ter fim), For Old Time’s Sake (espécie de pop-rock/western, a fazer brilhar a guitarra de Mário Delgado), Retrograde Amnesia (três momentos de improvisação pura) ou Love Songs Don’t Grow Old (balada memorável, a lembrar o trabalho no duo Songbird com João Hasselberg, onde se inclui uma deliciosa citação de I Loves You, Porgy).

Num tempo em que se consome a música rapidamente, em plataformas digitais e streaming, um disco duplo como este poderá assustar, poderá ser visto como objecto estranho, demasiado ambicioso. Não se pede muito ao ouvinte, apenas disponibilidade e — lá está — tempo. Esta música, sendo rica, não é particularmente exigente, conquista facilmente pela diversidade de cores e atmosferas.