Torne-se perito Crítica

Bruno Vieira Amaral abre as portas do seu mundo

Bruno Vieira Amaral abre as portas do seu mundo, simultaneamente vanguardista e nostálgico, violento e terno, pessoal e colectivo.

Com o seu olhar insistente e atento ao detalhe, Bruno Vieira Amaral deixa-se levar por divagações de carácter pessoal, imbuídas de curiosidade, espanto, ironia e uma salutar “inocência”
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Com o seu olhar insistente e atento ao detalhe, Bruno Vieira Amaral deixa-se levar por divagações de carácter pessoal, imbuídas de curiosidade, espanto, ironia e uma salutar “inocência” Miguel Manso

Bruno Vieira Amaral é rebelde e obstinado, inconformista e inquieto, características que servem como uma luva a um escritor que, apesar de familiarizado com o cânone, não se deixa enredar nas malhas da tradição literária. Depois de As Primeiras Coisas (2014), espécie de romance factual da vida citadina com traços de humor inigualável e um olhar terno e cúmplice sobre as personagens que habitam um bairro na margem sul, o Bairro Amélia, lugar que se fixou definitivamente no nosso imaginário, seguiu-se Hoje Estarás Comigo no Paraíso (2017), ousada incursão, ao jeito de um Bildungsroman com a intervenção de interposta pessoa — um primo assassinado — no perigoso território da autobiografia cruzada por memórias e contaminada pelos acontecimentos vividos ou imaginados, numa escala alargada, histórica.

Bruno Vieira Amaral retrata sempre, com emocionante desenvoltura, um universo invadido por famílias e gangues, por amores e desamores, por aventuras individuais e colectivas, com uma pungente referência ao passado, à infância, esse território “estrangeiro”, como lhe chamou L.P. Hartley. Depois do admirável Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa (2013) regressa agora à não-ficção com Manobras de Guerrilha, conjunto de 26 textos, publicados anteriormente em jornais, blogues ou apresentados em conferências e encontros de escritores, reunidos aqui de forma aparentemente aleatória, mas estreitamente ligados por um fio condutor que, neste caso, se afirma graças a uma escrita distinta, límpida e realista (pense-se em Hemingway, por exemplo).

As personagens reais ou imaginárias entram e saem, com uma desenvoltura não isenta de angústia, das estruturas que as sustentam, sejam elas a família, a casa, a rua, a comunidade, os clubes desportivos ou simplesmente um quotidiano transformado, magicamente, em cenário de todas as possibilidades. Os textos iniciais demonstram uma paixão intensa pelos confrontos desportivos: no boxe, com Jake LaMotta, o célebre Touro Enraivecido que Scorsese levou ao cinema, com Mike Tysson e Mahammad Ali, esses anjos caídos da virilidade sofrida, objectos de devoção e deslumbramento por parte de autores como Joyce Carol Oates e Norman Mailer que escreveram desenfreadamente sobre estrelas de cinema, suor, golpes na arena e tragédias públicas, à luz dos flashes e do néon; no futebol, os textos dedicados a Chalana e a Messi são um prodígio de lirismo, fazendo lembrar — e bem — o célebre texto que Marguerite Duras dedicou a Platini e arrastando leitores para a febre do desporto, para a sua arte e ousadia, para a sua efémera e dilacerante beleza.

O subtítulo desta obra — Pugilistas, Pokémons e Génios — é elucidativo da extrema maleabilidade com que o autor trata os temas ligados a uma cultura pop profundamente enraizada no imaginário colectivo, cortesia dos fantasmas e paixões americanos, ou mais propriamente anglo-saxónicos, criadores por excelência de um Olimpo onde habitam os deuses da música, do cinema, do desporto, o alargado espectro do entertainment ao qual pertencem, evidentemente, rock stars como os histriónicos Fred Mercury e David Bowie, aqui referidos. Há ainda espaço para relatos de viagens e de bem-humorados apontamentos dedicados aos aborrecidos, mas sempre surpreendentes e por vezes bizarros, encontros literários, tanto em Portugal como lá fora. Nas viagens que o levaram à Hungria e à Índia, o autor, com o seu olhar insistente e atento ao detalhe, deixa-se levar por divagações de carácter pessoal, imbuídas de curiosidade, espanto, ironia e uma salutar “inocência”.

Na segunda parte do livro, Campo Aberto, reúnem-se textos mais reflexivos, mais focados nas questões relacionadas com o labor literário, com o pensamento e com as dúvidas e incertezas de quem se dedica à escrita.

Embora seja difícil compreender o critério de organização em Manobras de Guerrilha — sempre difícil quando se trata de textos já publicados — nada se perde, uma vez que o estilo peculiar do autor se revela na exuberância irónica das suas descrições, na franqueza das suas emoções, nessa curiosidade estimulante que transmite aos leitores, abrindo as portas do seu mundo, simultaneamente vanguardista e nostálgico, violento e terno, pessoal e colectivo.

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