Crítica

A mente de Rejjie Snow (não) é um lugar estranho

Álbum longo, intenso, apaixonado (quem disse que a chanson não casava com o hip-hop?), para a consagração de um dos mais interessantes rappers do momento (e não é americano).

O álbum da afirmação definitiva de um dos mais interessantes músicos britânicos da actualidade
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O álbum da afirmação definitiva de um dos mais interessantes músicos britânicos da actualidade

Há um ano atrás, destacávamos aqui o magnífico LP de estreia de Loyle Carner como um marco no hip-hop britânico recente (historicamente dominado pelo sub-género do grime), muito apagado na última década. O nome de Rejjie Snow, rapper irlandês, vem — a par de outros (poucos), como o de IAMDBB (com raízes portuguesas) — logo a seguir, e, depois de alguns EP (o primeiro em 2013, Rejovich) e uma mixtape (The Moon & You, 2017), ei-lo com este longuíssimo LP de 20 canções. 

Num tempo em que frequentemente se lamentam os lançamentos com 9 ou 10 faixas pelo facto de surgirem, muitas vezes, apenas para preencher espaço mediático, a observação seguinte acaba por ser um pouco ingrata: a extensão do disco, se tem a virtude de demonstrar um entusiasmo descomplexado na criação (sem estar refém de “estratégias” e “timings”), não deixa de plantar no ouvinte a dúvida sobre se, atenta a alternância entre as sonoridades rap-soul e o disco-pop que vai crescendo nas últimas canções, não teria sido preferível concentrar o melhor das duas num só disco, ou, então, separá-las em edições distintas (não por razões, novamente, de “estratégia”, mas porque constituiria motivo de interesse extra escutar um álbum fora do cânone do hip-hop de alguém tão distintamente rapper).

Love and Death é o título de um dos mais aclamados filmes de Woody Allen, e um que igualmente assentaria bem ao disco do dublinense, cujo timbre, para quem não o conhecer, causará desde logo estranheza pela sua extraordinária semelhança com o de Tyler, The Creator. E a verdade é que as coincidências não se ficam por aí: o permanente (des)equilíbrio entre amor e morte, jubilo e angústia, celebração e auto-depreciação, alimentado a doses de sarcasmo e niilismo (num dos vários interlúdios, ouve-se-lhe: “This next song is called ‘LMFAO’/And it’s about fucking nothing, I guess / But I guess it also means “Laughing My Fucking Ass Off” / ‘Cause that’s what I’m always doing), é algo que aproxima o irlandês do americano (mais amaciado no último disco), se bem que esse registo não deixe sempre de levantar a dúvida sobre até que ponto tudo aquilo não é, também (ou sobretudo), pose (esse “meta-deprê” muito millenial, muito rede social).

Apesar de uma certa redundância que se vai sentindo no texto, quando a sonoridade começa, por volta da nona faixa, a descolar dos beats tradicionalmente mais rap (e há alguns deles verdadeiramente sublimes: 23, Oh No!) e a aventurar-se por paragens dançantes, já estamos perfeitamente instalados na inquieta mente de Rejjie, sempre nesse vaivém entre luz e escuridão: “Living out dreams ain’t what it seems (…) / Suicide depression heavy on my conscious / But I’m only human (…)” (Greatness, dedicada à mãe e onde fala de uma infância dura “salva” por Sisqó e Stevie Wonder). O efeito paroxístico, de “choque”, é um dos pontos mais interessantes da sua música, algo audível na primeira dezena de canções, na qual, por debaixo de instrumentais dulcíssimos, coloridos (assobios, chilreares, enfim, o Rainbows de um dos títulos), se escondem narrativas negras e angustiadas (Room 27 é citação do famoso “clube dos 27”). Annie, personagem que dá título ao disco, é apresentada à terceira faixa, miúda por quem Rejjie se diz ter apaixonado em L.A. mas que, depois de uma noite de amor essencialmente platónico (“We didn’t make love straight away / We went straight to the beach and I got nervous / Then we took a trip to the garden / Found love”), lhe disse “mean things” — para, na canção seguinte, o encontrarmos a ele, Rejjie, e a uma voz feminina (a de Annie, então) a cantarem, em coro, “Why you gotta say mean things about me?”, subtil modo de falar dos mal-entendidos amorosos, de como, tantas vezes, os amantes (não) se interpretam mutuamente.

De L.A. voamos para a Paris de Mon Amour, inusitadíssimo — para não dizer o único de que nos lembramos — cruzamento entre hip-hop e a chanson française, com o lindíssimo refrão a meias entre Rejjie e a “françoisahardyana” Milena LeBlanc (“Mon amour / Approche toi de moi / Je suis ton secret / Dans mon hôtel glacé”) a ocultar uma letra de um venenoso amour fou — e o que podia ser visto como uma mera curiosidade repete-se, com igual sucesso, em Desolé (em nova graciosa aparição de LeBlanc). Num álbum com várias e refinadas participações, destaque para a de Krondon na fabulosa The Rain, rapper dos Strong Arm Steady que deixa aqui alguns dos melhores versos de todo o álbum. Afirmando Rejjie como um rapper de excelência que não pede licença para se atravessar pelo pós-punk (embora o break de bateria também evoque o hip-hop festivo dos anos 80) de LMFAO (estamos no UK, afinal de contas), pelo disco de Egyptian Luvr (produzida por Kaytranada e homenagem ao lendário produtor Egyptian Lover), o electro-minimal de Bye Polar, ou, ainda, pela pop muito eighties da galhofeira Charlie Brown, aqui mora o álbum da afirmação definitiva de um dos mais interessantes músicos britânicos da actualidade.