No Twitter, a informação falsa viaja mais depressa do que a verdadeira

Cientistas do Instituto de Tecnologia do Massachusetts analisaram informações partilhadas no Twitter. Perceberam que as informações falsas sobre política são as mais virulentas e que somos nós (e não os robôs da Internet) que temos um papel fulcral na propagação de rumores.

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Donald Trump propaga informação falsa no Twitter, assim como considera notícias falsas (as famosas fake news) Reuters

Já sabemos que a informação falsa mascarada de notícia se tem espalhado pelas redes sociais. Mas qual é exactamente a sua dimensão? Uma equipa de cientistas do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, fez uma análise a 126 mil informações falsas, verdadeiras ou mistas twittadas (partilhadas) mais de 4,5 milhões de vezes por três milhões de pessoas entre 2006 e 2017. Concluiu-se que a informação falsa (fake news) se espalha mais e mais depressa e de forma mais intensa do que a verdadeira. Os autores deste artigo científico publicado esta sexta-feira na revista Science dizem que é o maior estudo longitudinal sobre propagação de rumores nas redes sociais.

Tudo começa quando alguém faz um simples tweet com uma afirmação que pode incluir um texto escrito, uma fotografia ou um link para um artigo online. Essa informação é depois retwittada por outros utilizadores. Forma-se assim um efeito de cascata que teve uma única origem. Como esta, há muitas cascatas pelo Twitter.

Para analisar esse efeito, a equipa de cientistas do MIT, coordenada por Sinan Aral, usou então 126 mil cascatas espalhadas por três milhões de pessoas mais de 4,5 milhões de vezes. Essas cascatas foram depois analisadas por seis sites de desconstrução de mitos e boatos como o Snopes e o PolitiFact, que as classificaram como informação falsa, verdadeira ou mista (parcialmente verdadeira ou parcialmente falsa). No final, a concordância dessa classificação foi entre 95% e 98%. Depois, estudaram-se ainda as cascatas quanto à sua intensidade (número de retweets relativamente à fonte original) ou a sua dimensão (número de utilizadores envolvidos nelas ao longo do tempo).  

Foram analisados conteúdos como os do sismo no Haiti em 2010, o anúncio da descoberta do bosão de Higgs em 2012 e o atentado na maratona de Boston em 2013. Aliás, num comunicado do MIT, Soroush Vosoughi, principal autor do estudo, explica mesmo que o último acontecimento e as suas repercussões no Twitter estiveram na origem deste trabalho. “O Twitter tornou-se a nossa principal fonte de notícias.” Mas acrescenta: “Percebi que uma grande parte do que tinha lido nesta rede social era rumores; eram informações falsas.” Por isso, com mais dois colegas do MIT, decidiu testar a veracidade das informações partilhadas no Twitter. 

O que descobriram? Perceberam que a informação falsa viaja mais e mais depressa e de forma mais intensa do que a verdadeira. Mesmo assim, os efeitos são mais significativos nas “novidades” de política do que nos rumores sobre terrorismo, desastres naturais, ciência, mitos urbanos ou finanças.

Quantificando a análise: a informação falsa é cerca de 70% mais susceptível de ser retwittada do que a verdadeira. Aliás, a informação verdadeira demora seis vezes mais a alcançar 1500 pessoas do que a falsa. E, enquanto a informação verdadeira raramente se espalha por mais de 1000 pessoas, as cascatas da informação falsa mais populares normalmente atingem entre 1000 e 100 mil pessoas. 

Observou-se ainda que a quantidade de “novidades” falsas aumenta claramente durante acontecimentos-chave como as eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2012 e em 2016. E quem são as pessoas que espalham essas informações? Ao contrário do que se poderia pensar, os utilizadores que as disseminaram tinham poucos seguidores, seguiam poucas pessoas, eram significativamente menos activos no Twitter ou ficavam nesta rede social pouco tempo. “A mentira difunde-se mais e mais depressa apesar destas características, não por causa delas”, assinala-se no comunicado.

“Pense antes de retwittar”

Também se estudaram as emoções provocadas pelas informações falsas. Enquanto a mentira provoca grande surpresa, medo e repulsa, a verdade causa grande tristeza, ansiedade, alegria e confiança. “Estas emoções em resposta à mentira podem esclarecer o que inspira as pessoas a partilhar notícias falsas”, refere o comunicado.

Os cientistas justificam ainda os resultados deste estudo com a “hipótese da novidade”. “As ‘notícias’ falsas são mais recentes e as pessoas são mais propensas a partilhar informação nova”, explica Sinan Aral. Por fim, os cientistas concluíram que são os humanos – e não os robôs da Internet, ou bots, programas de computador que espalham informação de forma automática a um ritmo impossível para um ser humano – que têm um grande papel na disseminação da informação falsa. “Quando removemos todos os bots da nossa base de dados, as diferenças entre a propagação de ‘notícias’ falsas e verdadeiras permaneceram”, indica Soroush Vosoughi. Ou seja, propagavam-se na mesma mais informações falsas do que verdadeiras.

PÚBLICO -
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Os autores do trabalho. Em cima estão Sinan Aral e Deb Roy; e sentado está Soroush Vosoughi Melanie Gonick/MIT

“Pode causar a atribuição errada de recursos durante ataques terroristas e desastres naturais, e pode interferir com as eleições e com o funcionamento da democracia”, diz ao PÚBLICO Sinan Aral sobre os efeitos da informação falsa.

Por isso, os cientistas dizem que é necessário limitar a disseminação da desinformação e que é possível que os resultados deste estudo sejam semelhantes noutras plataformas como o Facebook. “Podemos tentar intervenções como rotular ou sinalizar as ‘notícias’ que são falsas; podemos reduzir os incentivos económicos usados para espalhar as ‘notícias’ falsas reduzindo o seu alcance; ou poderíamos também ajustar o feed de notícias e os algoritmos de tendências para atenuar a difusão das ‘notícias’ falsas. Precisamos definitivamente de mais investigação, de mais transparência e educação para o público”, considera Sinan Aral. Afinal, se há pessoas que espalham informação falsa deliberadamente, há outras que o fazem inconscientemente. Por isso, Sinan Aral aconselha: “Pense antes de retwittar.”

Na mesma edição da Science, há um artigo que apela a mais investigações interdisciplinares a nível social, psicológico ou tecnológico sobre os poderes por trás das informações falsas, para que assim se possa reduzir a desinformação. Propõe-se, por exemplo, que se ensinem os estudantes do secundário a reconhecer fontes “ilegítimas” de notícias ou que se tomem medidas a nível dos algoritmos que controlam o acesso à informação online.