Entrevista

“A função do CDS não é casar-se com o PS”

Adolfo Mesquita Nunes, 40 anos, vereador do CDS na Covilhã. O partido não tem "inveja de alguém que negoceie com o PS”, garante o vice-presidente do CDS, que admite discutir ideias com o PSD. Mas “é cedo” para fazer uma apreciação sobre Rui Rio, diz.

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Nuno Ferreira Santos

O CDS vai para o congresso do fim-de-semana apontando para um resultado "histórico", garante Adolfo Mesquita Nunes, em entrevista ao PÚBLICO e à Renascença.

O que é que distingue hoje o CDS do PSD de Rui Rio?
As palavras são importantes, mas neste momento sabemos mais sobre a nova liderança do PSD tendo em conta o que os analistas dizem do que propriamente com o dia-a-dia da nova liderança, que acabou de começar. E portanto é cedo para fazer essa apreciação. Mas nós sabemos o lugar do CDS: é preencher o espaço do centro e da direita. Nós queremos ser a alternativa ao socialismo. E não temos ilusões relativamente ao PS: o PS aliou-se a comunistas e a trotskistas por vontade própria. Ninguém o obrigou. 

Acha que foi uma escolha conjuntural ou estrutural?
É um pouco indiferente quando temos dirigentes de relevo que dizem sistematicamente "não vamos mais precisar da direita para governar", "não apoiaremos governos minoritários da direita", "estamos mais perto da extrema-esquerda do que da direita".

A pergunta é se sente, na prática do Governo, que isso é real. Ou se é conjuntural, porque o PS precisa de BE e PCP para se manter no Governo.
Quando o PS entende que o posicionamento do PCP - que defende ditaduras totalitárias, sanguinárias e assassinas - é um pequeno pormenor; quando o PS entende que o posicionamento do BE relativamente à Europa, ao euro, à dívida é um mero pormenor e que pode governar com o seu apoio... Eu nunca estaria numa posição destas! Não estou nos bastidores das reuniões entre Governo, PCP e BE para saber o que é que não está a ser feito porque PCP e BE não deixam. O que sei é que vivemos num tempo em que grande parte dos empregos vai desaparecer, temos mudanças na forma como as pessoas vão trabalhar e viver as suas vidas, e não vejo nenhuma reforma (na educação, no mercado laboral, na previdência social) destinada a preparar as pessoas para estes novos desafios. Preparar e proteger. Pelos vistos, de facto, é uma escolha voluntária e programática.

A questão colocar-se-à de novo nas legislativas de 2019. A estratégia de Rui Rio - de apoiar um Governo do PS, se vencer em minoria - retira voto útil ao PS ou reforça-o?
Não tenho opinião. Hoje é para mim evidente que o eleitorado europeu e o português é mais livre, menos encapsulável no voto tradicional. Isso traz oportunidades a todos os partidos, nomeadamente ao CDS que tem sido sempre vítima do voto útil. 

Não receia que o voto útil reforce o PS?
Para impedirmos que o país seja governado por uma maioria que não reforma, não prepara, nem protege o país para o que vem aí, é preciso garantir uma alternativa ao socialismo. E para isso precisamos de 116 deputados.

Se o CDS conseguisse fazer 116 deputados com o PS, "resgatando" o PS da esquerda mais à esquerda, o CDS devia ter essa missão patriótica de fazê-lo?
Quero ser claro, clarinho, claríssimo nessa resposta: a função do CDS é ser a alternativa ao socialismo. Foi por isso que o CDS nasceu, é essa a sua base identitária, o seu espaço ideológico. E é contra naturam pensar numa coligação entre o CDS e o PS. Neste momento, esta ambição do CDS é mais válida do que nunca. Do meu ponto de vista, a função do CDS é ser alternativa ao PS, não é casar-se com o PS. 

E é ser essa alternativa com o PSD, ou apesar do PSD?
As experiências de governo com o PSD, cada uma com as suas circunstâncias, nunca nos fizeram dizer "apesar" do PSD. A relação com o PSD é próxima, de amizade, histórica. E não serei eu a colocar qualquer pedra ou empecilho.

Mas a própria moção de Assunção Cristas diz que o CDS quer assumir-se como maior partido da oposição. Não há aqui um risco?
Conhece algum partido que diga "eu quero ficar a depender do partido do lado"? Não há nenhum. Aquilo de que estou convicto, e disse-o há dois anos, é que a Assunção Cristas tem condições para tornar o CDS na primeira, natural e descomplexada escolha dos portugueses, na hora de votar no centro e na direita. E digo desta forma porque estou consciente de que votar no CDS é ainda, para muitos eleitores, um fenómeno complexo, que tem que ser explicado duas ou três vezes.

Há preconceitos contra o CDS?
Há, de facto. Eu fiz uma campanha na Covilhã, em que um dos jornais locais noticiou a minha candidatura dizendo: "Bisneto de industriais candidata-se à câmara". A ideia de que o CDS é o partido dos ricos, de quadros, e não é um partido com a capacidade de ser interclassista, não corresponde à verdade. Mas se há uma barreira de comunicação, então vamos superá-la. 

Rui Rio foi à sede do CDS e, à saída do encontro com Assunção Cristas, disse que a relação do PSD com o CDS é igual à que o PSD tem com o PS. Gostou de ouvir?
Não tenho que gostar, nem de deixar de gostar. Para mim é claro que o CDS não está mais próximo do PS do que do PSD. E que o partido com que faz sentido termos uma conversa mais profunda é com o PSD. 

Mas coloca completamente de parte a hipótese de irem juntos a eleições? Há quem ache que daria mais hipóteses de chegarem a uma maioria, devido às regras eleitorais.
Há pessoas no CDS que têm essa opinião. Mas no momento em que nos encontramos, em que há uma mudança na forma de se entender o sistema partidário e político - motivado pela formação deste Governo -, acho que o CDS tem tudo a ganhar [em ir sozinho]. E também acho preferível que cada um dos dois partidos trabalhe por si, para podermos atingir os 116 deputados. Mas é uma matéria de opinião. Só podemos saber mais tarde - eu, à segunda-feira, também adivinhava os números do Euromilhões. 

Como é que vê as negociações que estão a decorrer entre PSD e Governo?
Penso que já decorriam antes desta nova liderança, portanto encaro-as com naturalidade. A minha preocupação em matéria de descentralização é que não seja tratada como um Tratado de Tordesilhas entre os dois principais partidos. Também me assustaria - até mais - se fosse um tratado entre os partidos à esquerda. Acho é que o interior e o nosso território precisam de bem mais do que mera descentralização de competências ou de dispersão de entidades públicas. Precisamos de uma terapia de choque para o interior. E isso passaria por um estatuto próprio para o interior e pela criação de uma zona franca regulatória, que lhe permitisse ser o sítio da Europa onde é mais fácil lançar um negócio. Sem economia não há descentralização que nos valha.

E não gostaria de ver o CDS a participar em reuniões dessas?
O CDS, ao longo desta legislatura, trouxe a debate várias propostas sensatas e que o PS rejeitou. Dou-lhe dois exemplos: que todos os cidadãos fossem informados sobre a expectativa da sua pensão; que se estabilizasse o plano curricular no ensino, para dar estabilidade às reformas que foram feitas por seis anos - e até dando de barato que ficariam por seis anos políticas deste Governo de que discordamos. Duas propostas que qualquer pessoa sensata percebe e que o PS recusa. Como é que quer que eu fique com inveja de alguém que negoceie com o PS? O PS já por várias vezes deu sinais de que não quer que o CDS seja outra coisa que não alternativa e oposição - estatuto que agradeço. 

Programaticamente, não fazia sentido CDS e PSD começarem a conversar sobre que proposta comum podem ter?
A história demonstra que PSD e CDS têm sabido sempre, nos momentos certos, encontrar as oportunidades ideais e adequadas para tratar dessa aproximação. Se for esse o caso, assim sucederá nos próximos dois anos. 

Acha que vai ser tão simples fazê-lo com este PSD?
É preciso dar tempo para saber de que 'este PSD' é que estamos a falar. Acho que ainda é muito prematuro fazer considerações. 

O Adolfo já teve posições contrárias às do seu partido, no aborto e na adopção por casais do mesmo sexo. Em relação à eutanásia, qual é a sua posição? 
Não considero que a eutanásia seja um exercício de liberdade, tenho muitas dúvidas nas propostas que têm sido apresentadas e discutidas. Estou, grosso modo, se não totalmente, alinhado com a posição do CDS nessa matéria. 

Assumiu ao Expresso a sua homossexualidade, numa entrevista que foi muito falada. O CDS era um partido conservador, católico. Como é que o partido reagiu?
Vai ter que perguntar ao partido, eu sinto-me bem. Eu sou a mesma pessoa que era antes de dar a entrevista, não mudou nada.

E o CDS, está diferente? O CDS está, também em matérias sociais, a procurar outro espaço na direita?
A base ideológica do CDS está há muito definida. E tem na democracia-cristã o seu eixo da roda, coligindo conservadores e liberais. Esta direcção, esta presidente, assume e não questiona a base ideológica do CDS, o que queremos é alargar a base eleitoral. Para que, por uma vez, possamos ser nós a liderar um Governo. 

Quanto tempo é preciso na sociedade para o CDS chegar lá?
Eu, durante 40 anos, achei que nunca iria ver Portugal ganhar o Festival da Eurovisão. Depois de ter visto Portugal ganhar a Eurovisão, estou preparado para tudo.