Larissa Ribeiro
Foto
Larissa Ribeiro

Megafone

Uma história sobre mulheres no Dia da Mulher

“Porque comemoras o Dia da Mulher?”, perguntava o homem. “Para responder a todos os homens que me perguntam por que razão comemoro o Dia da Mulher”

Hoje é 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Comecei o dia consultando o diário de imprensa, onde, no meio de imensa informação, sobressaiu um cartoon de um jornal italiano sobre o dia de hoje: “Porque comemoras o Dia da Mulher?”, perguntava o homem. “Para responder a todos os homens que me perguntam por que razão comemoro o Dia da Mulher.”

Ainda que quisesse, no dia de hoje, desdobrar-me e dedicar todo o meu tempo ao tema da (des)Igualdade de Género, o trabalho parlamentar não o permite. Estive, então, numa audição na Comissão de Educação e Ciência a ouvir um peticionário que nos relatava a sua situação. Reivindicava o direito a estudar, tão humilde quanto difícil tem sido esta luta. Tomava conta da sua mãe, a sua situação familiar complicou-se com a perda de familiares muito próximos e, como viu o seu pedido de bolsa de acção social negado e não tinha dinheiro para pagar as propinas, foi obrigado a desistir do Ensino Superior. Trabalhou 12 anos para lá chegar e, agora, como se de uma bola de sabão de tratasse, todo o seu sonho se dissipava no ar.

— Ó Luís, o que é que isto tem a ver com o Dia da Mulher? — Calma, já vão perceber.

Após a audição, sou interpelado nos corredores do Parlamento por uma trabalhadora da casa. Dirigiu-se a mim e sussurrou:

— Pago os estudos da minha filha e faço-o sozinha. Sou eu e ela. O meu esforço é grande, faço-o a pensar no seu futuro e na sua felicidade. Tive de procurar um segundo emprego para suportar os custos do mestrado que escolheu fazer. Só o emprego na Assembleia da República não chega. No ano passado, como a vida também lhe dificultou o caminho, não conseguiu finalizar o relatório da tese na data combinada. Mais 700 euros, era o que a faculdade exigia para alargar o prazo de entrega. Não tinha dinheiro. Reclamamos e sentimo-nos automaticamente embrulhadas num novelo burocrático. Não tínhamos ajuda, nem financeira nem coisa nenhuma. Se eu soubesse o que sei hoje… Por isso é que fiz questão de lhe dizer que ouvi o que respondeu àquele cidadão, durante a sua audição. Obrigado.

Isto é um texto sobre desigualdades sociais? Sim. As propinas são um entrave para muita gente? Sem dúvida. E o que é que isso tem a ver com as mulheres? Tudo.

2018 e a desigualdade salarial entre homens e mulheres no nosso país atinge os 17,5%. Trabalham mais 1h13 por dia, em média, o que corresponde a 61 dias por ano sem remuneração. E se ainda não compreendeste porque se comemora o Dia da Mulher, volta a ler o primeiro parágrafo.