Opinião

O requiem de Cristas

Assunção Cristas pode ser uma líder popular e empática, pode até ser reeleita neste fim de semana, mas está longe de reunir consensos no partido.

Assunção Cristas afirmou recentemente que a democracia-cristã não é uma ideologia. Ao fim de 43 anos, o CDS-PP foi informado pela sua presidente que o partido não tem ideologia e que a carta de princípios do CDS-PP subscrita por Adelino Amaro da Costa perdeu atualidade. Posição que não surpreende porque a ausência de Assunção Cristas na votação da lei da gestação de substituição e a proposta de referendo à eutanásia demonstram a falta de coragem da líder relativamente à defesa indeclinável dos valores da vida, atitude inaceitável para uma líder democrata-cristã que está mais preocupada com objetivos eleitoralistas do que com os valores identitários do seu partido.

É este o CDS-PP de hoje, um partido gerido à vista sem o reconhecimento da sua matriz que se não mudar de liderança e de estratégia, vai enfraquecer e deixar que o seu espaço seja invadido pelo PSD. Nada de mais errado na estratégia de Assunção Cristas, até porque o que sempre distinguiu o CDS-PP do PSD é a ideologia.

O PSD sempre foi mais pragmático e o CDS-PP mais ideológico. Para a direção do CDS-PP, por razões de oportunismo político e para chegar ao poder a qualquer custo, votar no CDS-PP ou no PSD é indiferente, a lógica é a dos 116 deputados para se obter a maioria de direita na Assembleia da República capaz de fazer cair as “esquerdas unidas”.

Na política os meios não justificam os fins e fazer agora crer que a solução ilegítima do atual Governo pode ser um exemplo a seguir numa próxima legislatura, deixa antever a ausência de ética e de verticalidade da presidente do CDS-PP. Não é esta, aliás, a posição de Rui Rio que já assumiu viabilizar um Governo do PS caso este partido ganhe as eleições com maioria relativa.

Qual é, então, neste caso o plano B de Assunção Cristas? Não tem. Por isso, a estratégia nunca deverá ser contar com a maioria parlamentar de direita. Deve contar-se com aquilo que o CDS-PP é capaz de fazer sozinho sem o PSD. Partir do pressuposto de que mais uma vez o CDS se vai pendurar nos resultados alcançados pelo PSD não motiva os militantes nem cria uma vocação de Governo essencial para a afirmação e crescimento do partido no espetro.

Assunção Cristas pode ser uma líder popular e empática, pode até ser reeleita neste fim de semana, mas está longe de reunir consensos no partido. Nos próximos dois anos, as fraturas irão aumentar no interior das hostes centristas e Assunção Cristas, que praticamente não lidou com uma oposição organizada nos últimos dois anos, terá que contar a partir do próximo congresso com a resistência daqueles que não aceitam que a ideologia seja substituída pelo pragmatismo e a ambição pelo oportunismo. Na política não vale tudo e cada vez são mais os dispostos a alertá-la para isso.  

O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico