Livros

Já perdemos o medo de editar livros feministas?

A oferta de livros sobre questões de género e feminismo vai crescendo em Portugal, mas as vendas não atingem os níveis "exuberantes" de outros países. Mas o que dizer da “mania de chamar a tudo feminista”?
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Algo está a mudar no mercado editorial português. Nesta semana, chega às livrarias o ensaio Querida Ijeawele — Como educar para o feminismo, de Chimamanda Ngozi Adichie (ed. Dom Quixote). E as expectativas são altas. No último Verão, o pequeno ensaio Todos devemos ser feministas, da autora nigeriana, conseguiu chegar à sua segunda edição. Nas montras das livrarias era possível ver, acabadas de sair das gráficas, versões portuguesas de obras como Uma Vindicação dos Direitos da Mulher, texto basilar na história do feminismo escrito em 1792 por Mary Wollstonecraft (ed. Antígona), e Problemas de Género, de Judith Butler (ed. Orfeu Negro), que na década de 1990 ajudou a mudar a forma como hoje definimos o género. Em Setembro, Inês Pedrosa lançava a Sibila, uma editora que abria o seu catálogo lançando uma colecção apenas de livros de mulheres. Sinais de que os feminismos na literatura são uma tendência?

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A popularidade do pequeno ensaio feminista de Chimamanda Ngozi Adichie, lançado em 2015 com uma tiragem de 3000 exemplares, “mostra que já há um público suficientemente atento e suficientemente maduro para se interessar pelo tema”, mas Carmen Serrano, editora do grupo Leya responsável pelas publicações de Adichie em Portugal, não vê um sinal tão claro de que estamos perante “uma modificação de hábitos”. Joana Neves, do grupo Bertrand, aponta que “existe uma certa hesitação das editoras portuguesas, em geral, em publicar textos mais marcadamente feministas”. Está a organizar um livro com a plataforma Capazes, uma introdução ao feminismo, que será lançado no final do ano. Relembra que quase todas as editoras a nível internacional têm publicado livros sobre questões de género que se têm tornado best-sellers, mas não sabe até que ponto o mercado português já estará pronto para este tipo de livros. Mas a resistência das editoras, pelo menos, começa a quebrar-se. “Tenho notado uma proliferação, qualquer editora hoje em dia tem que ter no catálogo algum livro sobre questões de mulheres.”

A nível internacional, as questões de género e temas feministas são claramente uma tendência. Carmen Serrano, da Leya, tem notado o aumento na oferta de títulos estrangeiros que recebe. Também Clara Capitão, da Penguin Random House Portugal (PRH), conta que lhe têm chegado muitos livros sobre “ser-se mulher”. E, contudo, a adesão do mercado português tem sido mais lenta, “muito menos exuberante do que em outros países”. Alguns títulos que foram best-sellers internacionais ainda são analisados com cautela por cá. “É revelador que ainda não se tenha publicado livros como Viva a vagina [de Nina Brochmann e Ellen Støkken Dahl, estudantes de medicina na Noruega], que estão a fazer furor em outros países”. Talvez por um certo conservadorismo, pondera Clara Capitão, “uma tendência para não entrar em temas muito melindrosos”.

E até que ponto o hype internacional — no sector livreiro como no debate sobre igualdade de género a nível internacional — influencia as escolhas dos editores? Clara Capitão está a preparar a publicação de Her body and other parties, um livro de contos da norte-americana Carmen Maria Machado aclamado pela crítica internacional e que foi finalista do National Book Award. Clara Capitão conta, com um sorriso, que não deixou de se questionar se estaria a escolher o livro por abordar um tema em voga ou pelo seu valor intrínseco. Convenceu-se da segunda opção. E essa é uma regra na qual insistem todos os editores ouvidos pelo PÚBLICO, num mercado reduzido como o português.

Patrícia Nunes, responsável pela série de ensaios da Orfeu Negro, onde se insere Problemas de Género de Judith Butler, lembra que a editora lançou esta série antes do hype à volta das questões de género, “porque não havia nada publicado em Portugal”. “O público português ainda começa a despertar para estas questões”. Uma colecção que pretende trazer uma perspectiva interseccional: para este ano, está previsto o lançamento de Ain't I a Woman?, da célebre feminista negra norte-americana bell hooks, seguindo-se obras da belga Luce Irigaray, do filósofo espanhol Paul Preciado, da académica norte-americana Donna Haraway e da investigadora indiana Gayatri Spivak nos próximos anos. Antes da académica Judith Butler, a Orfeu Negro tinha publicado também o polémico Teoria King Kong, texto da escritora francesa Virginie Despentes de 2006 em que esta aborda de forma feroz temas como violação ou prostituição, precisamente “para iniciar o debate”.

Também para o editor Francisco José Viegas, da Quetzal, a ousadia em trazer livros diferentes para o mercado faz parte do negócio. “O trabalho dos editores é o de lutar pelos públicos, o de fabricá-los, inventá-los”.

Em Maio, chega às livrarias portuguesas Mulheres Livres, Homens Livres, de Camille Paglia, também com a chancela da Quetzal, uma antologia que reúne ensaios da autora, dos mais marcantes aos mais polémicos. Francisco José Viegas rejeita o rótulo muitas vezes dado à autora de uma “feminista anti-feministas”, apontando o contributo da autora como importante precisamente por ser pouco alinhada com a opinião maioritária. “Apostamos nestes ensaios da Camille porque queremos que o debate seja plural”, refere.

Foi também pela Quetzal que chegou a Portugal As coisas que os homens me explicam, da norte-americana Rebecca Solnit, que cunhou o termo mansplaining, muito popular entre as feministas online aplicado quando um homem explica alguma coisa a uma mulher de forma condescendente. "Um livro claramente político", explica a também editora da Quetzal Lúcia Pinho e Melo, que traz a público alguém que "opina de maneira construtiva". A obra, contudo, não foi um fenómeno de vendas — um paradoxo, tendo em conta tratar-se de um livro feminista "fundamental" dos últimos anos, como a ele se refere Joana Neves. "Acho que isso tem que ver com o facto de os leitores portugueses, de maneira geral, não estarem muito habituados a ler ensaios, em particular se forem mais ligados à crítica cultural", explica esta editora do grupo Bertrand.

Os clássicos feministas, por seu lado, parecem ser uma aposta segura. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, foi reeditado pela Quetzal em 2015 e “tem vindo sempre a vender”, aponta Lúcia Pinho e Melo. Também o livro Novas Cartas Portuguesasde Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa não viu um salto particular nos últimos anos, conta-nos Cecília Andrade, editora no grupo Leya. “Desde que nós lançámos esta nova edição revista e anotada por uma equipa dirigida por Ana Luísa Amaral, o livro tem tido sempre leitores e leitoras regulares.”

Tudo é feminista?

A existência de uma segunda edição do primeiro ensaio feminista de Chimamanda Ngozi Adichie pode ser considerado um sucesso em Portugal, mas Carmen Serrano chama a atenção para o facto de se tratar de uma autora consagrada, com vendas expressivas desde os seus primeiros contos e romances. “Acima de tudo, a Chimamanda é uma exímia contadora de histórias”, sublinha a editora do grupo Leya. As protagonistas são mulheres, mas os problemas são universais. E podemos chamar também a estes livros feministas? “Às vezes parece que todos os livros em que a mulher é a personagem central são feministas”, ironiza Aida Suárez, fundadora da Confraria Vermelha - Livraria de Mulheres. No seu espaço na Rua dos Bragas, no Porto, a livreira oferece um catálogo de livros escritos por mulheres ou sobre mulheres.

Para a livreira, classificar um livro como feminista é uma tarefa complexa, em particular quando essa categoria lhe é atribuída pelo mercado e não pela autora ou autor. “Hoje em dia temos a mania de chamar a tudo feminista”. No caso de Chimamanda Ngozi Adichie, os romances poderiam ser catalogados como ficção feminista — “porque ela própria também aí os coloca”. Mas a livreira alerta que “catalogar um livro como algo que ele, no seu todo, não o é, é empobrecer a cultura”.

A escritora Inês Pedrosa criou no final do ano passado a Sibila Publicações, cujo nome homenageia Agustina Bessa-Luís e evoca ainda outras personagens femininas desde a mitologia greco-romana. A estreia fez-se com a colecção Mulheres de Palavra, dedicada a autoras do sexo feminino, com o lançamento de Eu Matei Xerazade – Confissões de uma Mulher Árabe em Fúria, de Joumana Haddad, e Só acontece aos outros, com reportagens da jornalista Maria Antónia Palla.

Apesar de as primeiras publicações da Sibila serem sobre questões de mulheres, a editora rejeita o rótulo de "escrita feminina", ainda mais com um sentido pejorativo. “A nossa ideia principal foi não tanto a de publicar livros feministas, mas de dar voz às mulheres”, conta Inês Pedrosa. “Parece a mesma coisa, mas não é, porque uma das consequências do machismo é entender que as mulheres só são chamadas quando é para se falar de mulheres, nunca são ouvidas como artistas", diz. "De menstruação fala também Herberto Helder [na sua poesia]. Mas quando o Herberto Helder fala de menstruação, não o diminuem por causa disso. A diferença é essa."