Artes

O Presépio dos Marqueses de Belas, que nunca foi dos marqueses de Belas, vai ser restaurado

Obra de Barros Laborão foi encomendada por um “burguês, capitalista”, que terá ganho muito dinheiro graças à patente de um “antepassado” da água tónica. Para que lhe seja devolvido todo o brilho original, o Museu de Arte Antiga volta a precisar da ajuda de todos os portugueses. Campanha deverá ser lançada até ao fim deste mês.
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A profusão de figuras é tal que se torna difícil decidir para onde nos virarmos depois de desviado o olhar do óbvio — o nascimento do Menino Jesus. Há uma mulher a vender galinhas no meio de um cortejo com cavalos e soldados, um grupo que se dedica à matança do porco, uma fonte com um Neptuno dourado, um rei negro com um toucado de penas que espreita entre cortinas, um pastor que parece evocar as esculturas gregas que representavam rios, uma caçada ao javali que mal se vê e muito mais. Afinal, trata-se de um presépio português do barroco, e “profusão” é palavra-chave.

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Maria João Vilhena, conservadora de escultura do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), e Conceição Ribeiro, uma das técnicas de restauro da casa, estão a preparar esta peça de grande aparato — o presépio, integrado num armário, tem três metros de altura por quatro de largura — para que seja sujeita a uma requalificação. Vai ser consolidada, limpa e iluminada para que recupere o seu brilho original.

Esta intervenção será objecto de uma das campanhas de crowdfunding do MNAA, a lançar até ao final deste mês, garante o director do museu, António Filipe Pimentel, fixando em “cerca de 40 mil euros” o seu objectivo (os orçamentos estão ainda a ser fechados e, por isso, o valor não é exacto). Se tudo correr bem, os técnicos começarão a trabalhar em Maio para que este presépio de Joaquim José de Barros, escultor conhecido como Barros Laborão (1762-1820), esteja pronto em Outubro. “A ideia é tê-lo a brilhar no Natal, como convém. E nessa altura ter também a capela aberta e com os restantes trabalhos de restauro já a decorrer para que o visitante se possa aproximar e ver o que está a ser feito”, acrescenta Pimentel.

Um nome que é um equívoco

Desde 2015, ano em que inaugurou a Sala dos Presépios, espaço que nos conta como esta arte evoluiu ao longo dos séculos, que a equipa de Arte Antiga pensa seriamente no restauro desta obra que entrou para as colecções do museu em 1937, depois de ter sido comprado à marquesa de Pombal, descendente do seu encomendador, José Joaquim de Castro, um empresário cuja fortuna assentava, explica a conservadora de escultura de Arte Antiga, na comercialização da chamada “Água de Inglaterra”, “um antepassado da água tónica”, brinca.

Castro era descendente de Jacob de Castro Sarmento (1691-1762), um português filho de cristãos-novos, que se formou em Medicina, foi perseguido pela Inquisição e fugiu para Londres, em 1721, onde voltou a casar-se com aquela que era já sua mulher segundo o ritual judaico. Foi por volta de 1730 que Castro Sarmento começou a comercializar, e com grande sucesso, este produto com quinina, uma substância natural com propriedades antitérmicas, antimaláricas e analgésicas, que fora introduzido em Portugal por outro médico, Fernando Mendes (?-1724), e mais tarde José Joaquim de Castro herdou a patente.

“A fortuna dele vinha dessa água, que era sobretudo usada para tratar a malária”, diz Maria João Vilhena, falando de um “remédio” que podia ser indicado, à época, para o tratamento de dezenas de outras doenças, como o sarampo ou a epilepsia.

“Estamos a falar de um capitalista que é descendente de judeus, de um burguês que é um grande coleccionador, à escala de Portugal, é claro, e que faz uma encomenda própria da nobreza ou até da casa real, chamando alguns dos mais importantes artistas do momento. O Barros Laborão é um escultor notável.” A este artista, que foi discípulo do escultor João Grossi, juntam-se numa primeira fase Joaquim António de Macedo (escultura) e António Pinto (pintura).

Mas se o presépio foi encomendado pelo empresário e nunca passou pelas mãos dos marqueses de Belas, a que se deve o seu nome? “A um equívoco”, responde de imediato Vilhena, “a uma daquelas histórias que se vão repetindo” e que dificultam a vida dos historiadores. Explica esta especialista em escultura que durante muito tempo se disse que num dos grupos de figuras Barros Laborão tinha representado os marqueses de Belas, um dos casais mais bonitos da época. “E é verdade que ele o faz noutro presépio [o de S. Vicente de Fora, hoje também na colecção do MNAA], o que é natural, porque eles eram seus mecenas, mas não neste. Não encontrámos qualquer documento nesse sentido.”

O escultor que quis cobrar a mais

José Joaquim de Castro, que também se interessava muitíssimo por autómatos, até reservou para este presépio uma sala na sua casa da Rua de S. Mamede, em Lisboa, um palácio onde funciona hoje a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna.

Esta peça, que terá sido executada entre 1796 e 1812, é produto “de um tempo de grande mudança em termos históricos, com a chegada das ideias liberais”, mas é também uma obra de transição no que diz respeito à arte, sublinha a conservadora: “Condensa toda a tradição do presépio português, que se torna muito clara a partir do século XVII, mas não é exclusivamente barroca, há nela elementos que apontam já para a cultura neoclássica.” E isto num presépio que, sem abdicar da sua função religiosa, pode ser lido como uma espécie de crónica de época. Há grupos que podemos identificar com diferentes tipos sociais e figuras cuja indumentária evoca a do Portugal das invasões francesas do começo do século XIX, exemplifica Vilhena.

“Este presépio foi muito mexido e recebe, depois, figuras avulsas, algumas delas do [pintor] Pedro Alexandrino [de Carvalho], facto que terá levado até a desentendimentos entre o José Joaquim de Castro e o Barros Laborão.” Encomendador e artista ter-se-ão confrontado, dizem algumas fontes, por causa de interferências do primeiro na montagem do presépio. Maria João Vilhena lembra ainda que, a dada altura, o próprio Barros Laborão terá decidido “sobrefacturar” esta encomenda, o que lhe terá valido uma repreensão do empresário da "Água de Inglaterra".

A intervenção que o MNAA está agora a preparar, e que será acompanhada de um estudo completo da obra, poderá levar a algumas alterações na disposição das figuras, mas para já nada é certo. “A senhora que vende galinhas no meio da cavalgada não faz à partida muito sentido, mas logo se verá. Já percebemos, pelos encaixes na base das figuras, que é possível emparelhá-las de outra maneira. Só saberemos quando conhecermos melhor a peça e estamos preparados para as surpresas que, tenho a certeza, tudo isto nos há-de trazer. Se encontrarmos razões e dados materiais que apontem para uma montagem diferente, faremos alterações.”

O importante, diz o director de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, é que seja requalificada e que o seu estudo possa acrescentar novos dados ao que já se sabe sobre o presépio português, fechando na perfeição o percurso que o visitante começa na sala que lhe é dedicado e servindo, ao mesmo tempo, de janela para a Capela das Albertas, único vestígio de um convento das Carmelitas Descalças que existiu no século XVI no local onde é hoje o museu (ver texto ao lado).

“O Presépio dos Marqueses de Belas, que afinal foi do tal senhor da Água de Inglaterra, servirá de ponto de fuga e convidará o visitante a entrar nas Albertas. É uma obra do fim do barroco a abrir um espaço em que ele se revela em todo o seu esplendor.”