Portugal é dos países em que mais cresce a presença das mulheres na tecnologia

Portugal está abaixo da média europeia, mas percentagem passou de 11,9% em 2012 para 16,1% em 2016

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Em média, as mulheres ganham menos bruno lisita/arquivo

Não quererão as mulheres ter uma profissão que lhes abra as portas para um horário flexível e para um bom salário? Oito em cada dez empregos no sector das novas tecnologias da informação e da comunicação são ocupados por homens, revela um estudo do Instituto Europeu da Igualdade de Género divulgado nesta terça-feira.

O avanço tecnológico está a transformar o mundo em geral e o mercado laboral em particular. Os especialistas em tecnologias da informação e da comunicação são muito desejados pelos empregadores. De acordo com o Eurostat, nesse sector o emprego tem estado a crescer oito vezes mais do que a média.

Não é caso para dizer que menina não entra, mas não anda muito longe disso. Só 17% dos oito milhões de trabalhadores de tecnologias da informação e comunicação que existem na União Europeia são do sexo feminino. Portugal mantém-se abaixo da média europeia, mas está a subir. Em 2012, 11,9 % dos trabalhadores eram do sexo feminino. Em 2016, as mulheres ocupavam 16,1% desses postos de trabalho. Foi uma das maiores subidas verificadas naquele período dentro do espaço comunitário. Comparável só o que aconteceu noutros dois países, a Finlândia (quatro pontos percentuais) e a Roménia (cinco pontos).

“Estereótipos com raízes profundas são um dos maiores obstáculos às carreiras das mulheres no sector das tecnologias da informação e da comunicação”, comenta Virginija Langbakk, directora daquela agência da União Europeia, numa nota de imprensa emitida esta terça-feira. “Muito cedo, as raparigas aprendem a considerar que os rapazes são melhores a adquirir competências digitais.”

De acordo com o relatório, muitíssimo poucas raparigas com menos de 15 anos sonham trabalhar nesta área. A percentagem oscila entre um e três. E é em Portugal, na Polónia e na Dinamarca que se encontram as menores taxas: 1%.

As ideias feitas podem ser determinantes nas opções de estudo. “Mais tarde, procuram carreiras noutro lado, negligenciam as vantagens de ter um emprego nas tecnologias”, lamenta Virginija Langbakk. “Se não quebramos esta barreira, a União Europeia continuará a desperdiçar talento.”

Não é um assunto de somenos. Neste momento, os países da União Europeia já estão a ter dificuldades em responder ao aumento de procura de especialistas em tecnologias da informação e da comunicação. Assume-se que manter as mulheres afastadas destas carreiras ameaça o potencial de inovação, mina a decisão europeia de apostar numa economia inteligente, sustentável e inclusiva.

Por trás desta atitude poderá estar também aquilo a que os especialistas chamam “armadilha circular”: a escassez de mão-de-obra qualificada aumenta a necessidade de trabalhar longas horas; a necessidade de trabalhar longas horas aumenta a pressão para equilibrar a vida laboral com a vida familiar; e pressão para gerir esse equilíbrio é muito mais sentida pelas mulheres, que continuam a assegurar o grosso dos cuidados com a casa e com os filhos.

O relatório tenta desmontar essa armadilha, alegando que tirar umas horas durante o dia para tratar de qualquer assunto pode não ser um problema, uma vez que os horários são flexíveis. Os estudos desenvolvidos pelo instituto indicam que 90% dos trabalhadores deste sector apreciam os seus horários.

Não é tudo positivo. Para aceder a este tipo de empregos, as mulheres têm de ter mais qualificações do que os homens. Nos vários Estados-membros, a porção de mulheres (73%) altamente qualificadas é superior à de homens (66%). Nalguns deles, como é o caso de Portugal, o fosso é mesmo superior a 30%. Pior do que Portugal só mesmo a Letónia (31%) e o Luxemburgo (35%).

Apesar de terem mais qualificações, as mulheres ganham menos do que os homens. Ainda assim, a desigualdade salarial (13%) é inferior àquela que tem sido encontrada noutros sectores de actividade. 

 “Há claramente trabalho a fazer no sector das novas tecnologias da informação e da comunicação e a maneira de começar é com boas práticas e boas políticas”, considera Virginija Langbakk. “Encontrámos alguns bons exemplos de introdução de equilíbrio trabalho-vida para ensinar às empresas e atrair mulheres”, prossegue. “É o nosso contributo para ajudar os fazedores de políticas a direccionar acções em linha com a directiva europeia sobre equilíbrio trabalho-vida."