Direcção-Geral da Saúde alerta para notícias sobre “pseudo-surtos” oncológicos

As populações das aldeias de Toutosa e Árvore, nos concelhos de Marco de Canaveses e Vila do Conde, respectivamente, não têm especial risco de ter cancro, dizem as autoridades da saúde. Num relatório sobre os “pseudo-surtos de doenças oncológicas” são desconstruídos ambos os casos noticiados pela imprensa.

Foto
Fernando Veludo/PÚBLICO

“Na aldeia de Toutosa o cancro bateu à porta de 20% da população”, lia-se no Jornal de Notícias de 22 de Novembro. “Cancro arrasa aldeia com 600 habitantes”, titulava no dia seguinte a edição online do Correio da Manhã. “Se o cancro fosse um verbo, dir-se-ia que se conjugava vezes de mais em Toutosa” era o título da reportagem publicada no site da Visão a 18 de Fevereiro. Foram vários os órgãos de comunicação que noticiaram no ano passado e já este ano o aumento extraordinário dos casos de doença oncológica em duas aldeias do Norte do país, uma no Marco de Canaveses, outra em Vila do Conde. As autoridades da saúde investigaram e concluíram: em nenhum dos casos houve um surto de neoplasias (tumores) malignas.

Num relatório intitulado “Pseudo-surtos de doenças oncológicas”, divulgado nesta segunda-feira, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) e a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte explicam como, perante estas notícias, decidiram fazer um levantamento das situações, “para o melhor esclarecimento cabal dos factos.”

Comece-se pela freguesia de Santo Isidoro e Livração, no Marco de Canaveses. Os artigos apontavam a água dos poços – que a população consome e onde existiriam eventuais tóxicos – como uma das causas possíveis de uma série de novos casos de cancro, e mortes associadas. O Jornal de Notícias falava, citando a antiga presidente da extinta junta de Toutosa, em 37 casos de doentes oncológicos em apenas sete ruas. “E nos últimos 20 anos, 26 dessas pessoas morreram”, lê-se. No entanto, as autoridades da saúde, ao olhar para os casos de cancro registados entre 2008 e 2012, os últimos anos analisados pelo Registo Oncológico Regional do Norte, não vêem nem um aumento do número de casos, nem da mortalidade.

O relatório não incide apenas na aldeia de Toutosa, mas em toda a união de freguesias, onde moravam, segundo os últimos censos, pouco mais de duas mil pessoas. Aí, entre 2008 e 2012, houve 42 novos casos de cancro, sem que houvesse um tipo predominante. “Atendendo à dimensão da população eram esperados 45-50 casos no mesmo período, de acordo com as médias nacionais”, detalha o relatório. No triénio 2014-2016, 15 pessoas morreram de tumores malignos. “Seriam de esperar” 16 óbitos.

“Analisados os dados do concelho de Marco de Canaveses, também não é observado nenhum aumento de mortalidade por cancro ao longo dos últimos anos, tendo dados semelhantes à população nacional”, conclui o relatório.

Nada aponta para “maior registo de tumores malignos"

Em Vila do Conde, eram os moradores do lugar do Outeiro, na freguesia de Árvore, que falavam da incidência "anormal" da doença. E detalhava o Jornal de Notícias, a 3 de Dezembro: “Em duas ruas, Roda da Fonte e n.º 1, existem 24 casas, 13 têm casos de cancro. São 19 pessoas em 400 metros." Noticiava a TVI quatro dias depois: “Nesta aldeia, há 20 casos de cancro em apenas duas ruas."

As autoridades dizem que em Árvore, que tinha cerca de 5100 habitantes em 2011, nada aponta para um “maior registo de casos de tumor maligno, quando comparados com as restantes freguesias” do concelho. Não há um tipo de tumor predominante. Salientam apenas que, ao comparar com o resto do país, aumentou a mortalidade associada aos tumores do estômago. O que é “já conhecido em toda a região Norte e atribuído a hábitos alimentares”.

Os tumores malignos mataram 23 pessoas naquela freguesia, quando “seriam de esperar 41 óbitos”.

Como se detecta um surto?

A DGS e a ARS do Norte fazem um exercício de contexto. Dizem-nos que os factores ambientais podem levar a um aumento de doenças oncológicas e há evidência científica que relaciona a exposição a agentes químicos com o aumento de determinados tipos de cancro. Afirmam ainda que a incidência desta doença aumenta em Portugal a uma taxa de aproximadamente 3% ao ano – são detectados cerca de 50 mil novos casos e 27 mil mortes anuais.

Esta tendência tornou a doença mais visível. E, estimando que “a médio prazo” atinja metade da população, é de esperar que o “problema dos pseudo-surtos” se coloque com mais frequência.

Por isso, pedem aos vários intervenientes, entre os quais jornalistas: tratem estas suspeitas “com profissionalismo e com metodologia adequada”.

Num primeiro momento de análise deve-se perguntar: “São estes tumores iguais ou semelhantes?” Pois é critério essencial para que se suspeite de um surto oncológico que os tumores detectados sejam semelhantes ou tenham a mesma distância temporal ao evento de exposição. “Os exemplos são múltiplos, levando à maior prudência na emissão de opiniões”, alertam.