"O CDS precisa de um projecto que não esteja centrado na imagem de Cristas"

Filipe Lobo d´Ávila, 43 anos. O deputado e número um do grupo que se tem assumido como crítico de Assunção Cristas tem dúvidas sobre se é melhor ou pior para o centro-direita PSD e CDS concorrerem separados às legislativas.

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Rui Gaudêncio
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O antigo porta-voz do CDS que liderou uma lista alternativa ao conselho nacional espera que o congresso do próximo fim-de-semana acrescente "futuro" à moção de Assunção Cristas, a qual considera  um "relatório de actividades e contas". 

Em Maio do ano passado criticou Assunção Cristas por considerar que o CDS não se conseguia diferenciar dos outros partidos, sobretudo do PSD. Mantém essa crítica?
Não. Ao longo deste tempo há que dividir estes dois anos em dois momentos: na primeira parte do mandato houve uma dificuldade de afirmação, não só da liderança mas das propostas que pretendia apresentar; numa segunda fase, por força dos resultados, o CDS tem vindo a afirmar-se, não só distinguindo-se em relação ao PSD, a este novo PSD, mas também em relação ao PS.

Essa viragem deu-se com os resultados de Lisboa?
O resultado de Lisboa contribuiu para essa viragem. Muito à conta de uma aposta na imagem autocentrada da presidente do partido. O facto de ter reforçado o penta [cinco câmaras lideradas pelo CDS] de Paulo Portas acabou por contribuir para o excelente resultado. Na verdade, coincidiu também com o momento em que o PS ganhou em toda a linha. Para todos aqueles que consideram que foi um resultado excelente do CDS – e foi – a verdade é que não o foi para o centro-direita, para quem quer fazer oposição ao PS. O que deve ser central é a construção de um projecto político alternativo ao Governo do dr. Costa e, evidentemente, o CDS tem um papel decisivo, e não único.

Acha que a líder do CDS está trabalhar para isso? Tem um discurso adequado a esse objectivo?
Acho que o CDS, ao longo dos últimos tempos, tem procurado marcar a agenda política em diferentes áreas. Há vários exemplos em que, de facto, as coisas correram bem. O CDS precisa de construir um projecto político sólido que não esteja única e exclusivamente centrado na imagem da presidente. Há muito caminho e trabalho a fazer no sentido da construção de uma proposta política para o país. Muitas vezes tenho dúvidas sobre a posição do CDS em relação a um conjunto de aspectos-chave. Julgo que o pragmatismo é uma desculpa esfarrapada, uma discussão que não faz qualquer sentido.

Tem dúvidas sobre a posição do CDS em que matérias?
Por exemplo, em matérias fundamentais como questões do direito à vida, relacionadas com o instituto da adopção, do casamento. Questões que têm a ver com valores de sempre do CDS. Além disso, há matérias em que eu gostava de ver uma posição clarificadora por parte do CDS, como a do acordo ortográfico, que não é cumprido por quase nenhum dos países de língua portuguesa e que Portugal continua a cumprir estoicamente. Na economia, foi com grande surpresa que vi o CDS e muitos dirigentes do CDS a votarem favoravelmente a imposição de quotas em empresas privadas. O CDS sempre foi pela não intervenção em empresas privadas. Há nos partidos, em geral, uma certa ideia de funcionalismo político que faz com que a liberdade de escolha e de opinião interna acabe por estar muito limitada. Infelizmente sinto que o CDS hoje, pelo menos a experiência que tive nestes dois anos, não convive muito bem com essa diversidade de opiniões.

Fechou-se, é isso? A direcção não entende bem a crítica?
Critiquei a direcção do CDS em três momentos ao longo destes dois anos. Em duas dessas ocasiões fi-lo em conselho nacional. As críticas foram feitas nos locais próprios, a reacção não foi a melhor. Fomos vistos como oposição interna, quando o objectivo era dar um contributo que foi um pouco desvalorizado pelo partido. A moção que apresentámos tinha mais de 200 propostas - algumas o partido aproveitou, outras nem por isso.

Foi um dos motivos que o levou a não apresentar uma moção desta vez.
Seria um exercício de hipocrisia sem qualquer efeito útil, porque o partido vive hoje satisfeito com os resultados que teve. A líder do CDS, que há dois anos chegou a presidente, ganhou o congresso porque Paulo Portas quis. Agora, continuará porque quer e em função dos resultados que teve.

Que outras propostas o CDS podia aproveitar?
Uma das propostas essenciais tinha a ver com a escolha dos representantes do CDS. Gostaríamos que a presidente do partido se comprometesse com critérios claros, que permitam devolver uma representatividade local saudável nas próximas listas.

Como é que está a ver esta aproximação do PSD ao PS? O que é que pode significar para o CDS?
Pode significar uma grande oportunidade. Ao longo da minha vida sempre achei que as diferenças entre o PSD e o PS não eram significativas. Exactamente por isso é que a afirmação de um partido de direita como o CDS, com uma identidade tão forte e com valores tão fortes, podia fazer um caminho alternativo e ser uma verdadeira alternativa ao centrão político. A essa aproximação do PSD ao PS não dou grande importância. Sei onde o CDS deve estar: deve estar na oposição ao dr. António Costa. O CDS, ao fechar a porta a coligações, afirmando-se como partido que vai sozinho a votos independentemente das circunstâncias, também está a dar pouca margem para um entendimento e para conversas com o PSD.

Critica o timing?
Não é só o timing, é também um sinal, porque se se diz a um parceiro habitual que se vai sozinho, está a dar-se um sinal a esse partido de que o encaminhamento para uma coligação é difícil. O centro-direita – como a presidente do partido disse, e bem, –, para voltar a governar, tem de ter uma maioria de deputados. Não tenho a certeza de que o resultado em termos eleitorais seja melhor se os dois partidos forem separados do que se houver uma coligação pré-eleitoral. Aliás, há estudos que comprovam que a aplicação do método de Hondt  favorece coligações. Ao fecharmos a porta a um entendimento possível, estamos a caminhar para que não exista mesmo. E eu acho que o país vai precisar desse entendimento.

A líder do CDS defende que é necessário replicar no país, em 2019, o trabalho e o resultado obtido em Lisboa. Acha que é possível?
Pode haver a ambição de replicar o resultado. Se faz sentido no país? Tenho de lhe dar uma resposta pragmática: acho que é muito difícil. Por variadas razões. Porque o PS teve um candidato à Câmara de Lisboa que não é o primeiro-ministro actual e porque o PSD teve uma candidata que também não é o presidente do PSD actual. Seja como for, a ideia de replicar o resultado de Lisboa no país deve merecer cautelas, porque o resultado final dessa replicação é o PS governar em toda a linha. O nosso objectivo político deve ser o contrário.

Há quem se queixe que a matriz ideológica do CDS está a ser apagada – nomeadamente na moção da líder – para dar lugar a um predomínio do pragmatismo. Concorda com esta visão?
Concordo. A moção de Assunção Cristas é muito pragmática, não fala de valores, não fala da identidade do CDS, é uma moção que, em 17 páginas, acaba por ser um relatório de actividades e contas, e não uma moção de estratégia global. Vejo com alguma apreensão, mas também com expectativa em relação ao congresso - porque os discursos também são relevantes –, que possa haver mais futuro e menos passado. A moção é um bom balanço dos dois anos, da actividade do grupo parlamentar, mas não é uma moção que fale de futuro e, sobretudo, que apresente um projecto político para o país que seja mobilizador. Provavelmente, o objectivo não era esse. Ao longo de 43 anos de história, o CDS foi muito sólido no plano pragmático sem nunca ter sido dogmático. Nem sei porque é que se coloca a palavra pragmatismo, neste momento, como linha de acção. Porque o pragmatismo por si só não é rigorosamente nada e pode levar-nos a um partido catavento que vai para onde o vento nos diz para ir.

Nas eleições europeias, o CDS concorrerá sozinho. Concorda com a opção?
Concordo. O CDS não deve ter grande preocupação nas eleições para o Parlamento Europeu, seja com Nuno Melo, Luís Queiró, Nuno Magalhães ou outra pessoa que eu pudesse aqui enumerar, o CDS estará em excelentes condições para enfrentar essas eleições.

Nas presidenciais, o CDS deve também ter um candidato?
As eleições presidenciais dependerão sempre de uma escolha individual. Temos um Presidente da República que representa muito bem o espaço do centro-direita e, por isso, se for vontade do presidente recandidatar-se, acho que não deverá haver a mínima dúvida de que o CDS deve estar com a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.

Há quem veja aqui uma colagem da líder da presidente ao Presidente da República nos temas e na forma de fazer política. Isso beneficia o CDS?
Não sei se essa colagem existe. Aprecio, e muito, a forma de fazer política do senhor Presidente da República. 

Sente-se confortável no grupo parlamentar, depois de ter encabeçado uma lista ao conselho nacional e das críticas que faz?
Apesar de tudo, as críticas não são tantas assim. Tenho a sorte de ter um líder parlamentar que é uma pessoa única e que me faz sentir bem.

Vai integrar uma lista no congresso?
O congresso tem uma dinâmica muito própria. Quando decidi não apresentar uma moção, ponderei estar ou não no congresso. Tendo decidido estar, falarei aos congressistas. Se me pergunta se faço parte de uma lista, não faço ideia.

Temos assistido a processos disciplinares a militantes por causa das autárquicas. O CDS tem sido correcto nesses processos?
Vejo com alguma incompreensão e surpresa o número inédito de processos na jurisdição. Tivemos notícias de antigos dirigentes – nomeadamente de um ex-secretário-geral – que têm processos por não terem participado em acções de campanha. É algo bizarro e extraordinário. Como tenho pena de [ver] algumas expulsões no último ano. No caso de Ponte de Lima, Vítor Mendes e Abel Baptista são pessoas civilizadas. Se a presidente tivesse patrocinado aqui uma conciliação entre os dois... essa era a sua obrigação. A perda de um quadro do CDS como Abel Baptista deixa-me um profundo desconforto e alguma tristeza.

Como é que viu Adolfo Mesquita Nunes assumir publicamente a sua homossexualidade?
Vi essas afirmações com grande normalidade. São razões do foro pessoal do Adolfo, uma pessoa que admiro e de quem sou amigo há muitos anos. Vejo isso com grande naturalidade. Agora, não tiro é qualquer consequência política.