Crítica

A "miguelgomização" de Manuel Mozos

Os argumentistas Mariana Ricardo e Telmo Churro, cúmplices do cineasta Miguel Gomes, raptaram, com Ramiro, o alvo do seu afecto, Manuel Mozos.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Da última vez que experimentámos uma ficção de Manuel Mozos, Quatro Copas (2009), o filme parecia “apenas” um meio de servir as personagens. A coisa bonita nessa história de um homem, da filha dele, da mulher dele e do amante dela é que o cinema parecia “desaparecer” para garantir que as personagens, certamente também com desejos rivais, não se largassem, não se separassem, não se excluíssem. Cada uma delas poderia ser capaz de se colocar no lugar da outra. Era mesmo ali ao lado — os planos de Quatro Copas são territórios tão adjacentes que as divisões tornam-se invisíveis, o filme concretiza-se como encantamento solidário em movimento.

Dez anos depois, o culto a Mozos, discreto, bairrista mas intenso, tem expressão numa longa-metragem: Ramiro. É como se esse culto falasse “sobre” o filme - no sentido em que se sobrepõe ao filme.

Ao contrário da anterior longa-metragem do realizador, os planos agora são ilhas como os homens, autonomizados, afastados uns dos outros. É um filme ocupado pela performance do solipsismo — e pela performance das esquinas lisboetas e do fraseado desconstruído. A figura é um alfarrabista, poeta — e conservador, e resistente passivo... É a personagem que os argumentistas Mariana Ricardo e Telmo Churro ofereceram ao realizador. É uma versão felpuda de uma pantomima humana e emocional que tem feito o espectáculo das produções O Som e a Fúria e de que eles, Mariana e Telmo, em filmes diferentes e em condições diferentes, são também responsáveis. É uma versão disso e é até um “momento poster” disso — ou assim resulta, num universo habitualmente tolhido, esta coreografia que tende a pendurar os planos com António Mortágua (Ramiro), os seus silêncios, o seu preguiçoso cepticismo, numa parede de iconografia.

Ramiro, o filme, acaba por ser então a forma como dois fãs, Mariana e Telmo, cúmplices também do cineasta Miguel Gomes (escreveram a trilogia As Mil e uma Noites, Aquele Querido Mês de Agosto...), se chegaram perto do “objecto” do seu afecto para lhe propor a versão que têm dele. Para ocuparem o território dele — que tem sido, até agora, de uma discrição endémica e de ausência de solenidade. Ramiro é então território intervencionado pelas produções O Som e a Fúria — labor of love e admiração, evidentemente — mas não quer dizer que o território saia melhorado: é feito de gestos desenhados, participa até de um certo narcisismo, algo com o qual o cinema de Miguel Gomes até dança à vontade (Gomes, para quem Mozos também escreveu A Cara que Mereces, é pólo que aglutina e distribui o afecto pelo cinema do realizador) mas com que Ramiro se imobiliza.

Não se podem menosprezar, é claro, as delícias que por aqui se encontram. E não se deve menosprezar o prazer do realizador em deixar-se raptar pelos fãs - se calhar para ver no que dava.