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Megafone

Um médico doente no hospital

O calor e a amizade de um enfermeiro sentem-se à distância, os enfermeiros são pessoas, e olham para nós como pessoas, e estas duas múmias de expressão rígida, de expressão frígida, jamais poderiam ser enfermeiras, nem no Carnaval

A médica entra na sala mas não entra na sala. Vem acompanhada por outra médica, um pouco mais alta, as duas de farda branca. Podiam ser irmãs, e talvez sejam mas, e antes de mais nada, são médicas, repare-se no estetoscópio ao pescoço de cada uma. Isso, ou são duas enfermeiras disfarçadas.

Mas não, porque o calor e a amizade de um enfermeiro sentem-se à distância, os enfermeiros são pessoas, e olham para nós como pessoas, e estas duas múmias de expressão rígida, de expressão frígida, jamais poderiam ser enfermeiras, nem no Carnaval.

As médicas, portanto, entram na sala, mas não entram na sala, ficando-se pela ombreira da porta, sem querer entrar e, ao mesmo tempo, à procura de sair. O incómodo é mal disfarçado e por demais óbvio, inversamente proporcional à idade, podiam ser as minhas irmãs mais novas, mas não são, são umas miúdas, o doente sou eu e não consigo disfarçar uma certa ternura e um misto de preocupação com estas duas personagens acabadas de cair do céu.

Mas o seu olhar fixo e as bocas mudas a querer falar remetem-me ao sentido de quem está acamado. Ao mesmo tempo, cruzam os braços à frente do peito e, sou capaz de jurar, por dentro da bata cruzam as pernas, em jeito de defesa, como quem espera a agressão impossível de quem não consegue sair da cama contam mais de duas semanas.

Estão a três metros de mim mas podiam estar a seis. Mal as ouço, mas pelo tom de voz o assunto é sério e eu a começar a ver a praia no Verão por um canudo, e se assim fosse nem seria muito mau, até porque para o ano há sempre mais.

“Você tem um cancro incurável que já metastizou nos pulmões, no cérebro e nos ossos e tem apenas alguns dias de vida.” E eu... e ela, a médica mais baixa, acrescenta “Tem alguma pergunta?” E eu... “Então, se não se importa, pode assinar aqui?”, E eu com a caneta na mão às voltas no papel. “Obrigado e bom dia”, e eu “Bom dia”, mas já vou tarde e as duas corredor fora aos risinhos como se fossem duas miúdas, são duas miúdas, mas nem por isso diferentes de tantos médicos e demais olhares clínicos, incapazes de comunicar, de falar ou sentir, chamando-nos pelos órgãos em vez do nome, o fígado da cama 18, o pâncreas da cama quatro, a flebotomia da três, pelo menos até lhes tocar na pele, e aí, estou certo, a conversa é outra. Vocês já viram alguma vez um médico doente num hospital? Eu não.

Que eu não me sinto bem não é mentira nenhuma e já dura há uns meses, mas daí até estar com os pés para a cova ainda vai uma grande distância. Indignado, maldigo as perguntas por fazer, quanto tempo mais ou menos, como, a minha mulher sabe, há alguma alternativa, como é que vocês sabem, quanto tempo me resta, podem dar-me alguma coisa para as dores, gostava de carregar o telemóvel e fazer umas chamadas, por favor, devo pedir desculpa ao meu pai, devo pedir desculpa à minha mãe, mas têm mesmo a certeza, tenho de fazer algum testamento, posso ver o mar outra vez, gostava de voltar para casa, já me estão a chatear, já perdi a conta às noites sem dormir com as luzes todas acesas, uma pessoa aqui não dorme, adormece e, lá está, quem me diz que não morro desta cura, desta morte lenta num hospital.

Um bom médico preocupa-se com os seus doentes. Procura saber, procura conhecer, falar, partilhar, dar tempo, dar uma mão, dar as duas, dar um abraço, chorar, sentir, acompanhar do princípio ao fim a fantástica aventura da vida, dando à vida e à morte, completando ciclos como uma aranha tecedeira, tecendo vidas, escrevendo histórias, as nossas, as dele. Um bom médico será sempre um bom enfermeiro, e talvez seja essa a sorte dos enfermeiros e a razão maior da sua existência, ou não contasse eu pelos dedos os bons médicos, os bons amigos tidos numa vida.

Daqui por dois dias já cá não estarei, mas ainda não sei disso. Por causa das dores que me assaltarão esta noite, as duas médicas que me atenderam vão colocar-me a dormir um sono do qual já não acordarei. Quando o coração parar de bater, a coisa vai correr mal porque, pelos vistos, é sexta-feira e as duas moçoilas da bata branca e do estetoscópio só voltam na segunda de manhã. Conclusão, tecnicamente faleci na segunda e ainda tive mais uns dias de “vida”, mas isso ninguém sabe, ou não me desaparecesse o ficheiro quando a minha mulher irrompeu pelo hospital aos gritos, aos berros, à procura de uma resposta que o tribunal não vai conseguir encontrar ou esclarecer.

Estou-me nas tintas para mim, o meu tempo estava contado e a hora chegara. Mas, e se querem mesmo saber, gostava ao menos de poder ter dito o meu nome às duas médicas. Talvez passassem a olhar para mim como uma pessoa, e talvez se vissem ao espelho e passassem a perguntar o nome aos doentes, um passo de cada vez até ao tal abraço, até ao sorriso e às lágrimas que fazem de nós, ao fim de cada dia, pessoas, e não apenas médicos. Sem bata branca, pois claro, nem estetoscópio.