Local Porto

O Porto “a seguir os tempos” de Campanhã ao centro histórico

Muita coisa mudou no Porto em 28 anos, mas uns locais mudaram mais do que outros. O Bairro de S. João de Deus, em Campanhã, e o centro histórico, assistiram a algumas das maiores transformações. Para o bem e para o mal.

Foto
Nos terrenos de S. João de Deus erguem-se blocos de casas NELSON GARRIDO

Maria Luciana Correia, 74 anos, repousa as mãos na mesa da sala da casa nova que lhe foi atribuída no Bairro de S. João de Deus, no Porto. Não está particularmente satisfeita, embora encolha os ombros e diga que “já se habituou”. Mas a mudança custou-lhe, confessa. “Chorei muito, só para aqui vim no próprio dia em que já ia ficar cá a dormir”, conta. O trajecto não foi longo. Luciana já era moradora do bairro em Campanhã, onde chegou há mais de 60 anos. E se a freguesia parece demorar a mudar, mesmo com a Câmara do Porto a elegê-la como uma das suas áreas privilegiadas de intervenção, o bairro mudou e muito.

Mudou tanto que quem lá chega hoje não faz ideia do que aqueles terrenos vazios foram. Só a memória de quem lá viveu e andou pode ajudar a explicar o que era aquele território abandonado da cidade, conhecido como “Tarrafal”. Luciana, curiosamente, ainda se lembra do S. João de Deus quase assim, semi-deserto, como está hoje. “Havia as casas mais antigas e o resto era só montes e a escola”, conta, repescando a lembrança do local onde chegou ainda criança. Também hoje, as encostas onde se erguiam os blocos de habitação construídos em três fases distintas, são apenas montes maltratados e abandonados, à espera de futuro. A parte mais antiga do bairro, a das casas unifamiliares, está, aos poucos, a ser transformada, com as habitações velhas a darem lugar às novas. Maria Luciana e a família mudaram-se em Julho, outros, como Madalena Pinto, 65 anos, nascida no S. João de Deus, ainda aguardam por uma casa nova nos contentores instalados nos terrenos do bairro para albergarem, temporariamente, os moradores.

O S. João de Deus parece suspenso no tempo, numa espécie de limbo em que ainda não é claro o que irá acontecer nos terrenos vazios dos blocos habitacionais que o então presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, mandou arrasar. O bairro foi o cenário da primeira visita oficial que o recém-eleito autarca fez, em 2002. Rio foi recebido em festa, antes de se saber que o plano para ali era arrasar todos os prédios. Até mesmo os edifícios da última fase, construídos no âmbito do Comissariado da Luta Contra a Pobreza e que tinham ficado prontos apenas em finais dos anos 1990. Ernesto Santos, presidente da Junta de Freguesia de Campanhã e também ele nascido no Bairro de S. João de Deus, ainda hoje classifica essa intervenção autárquica como “um crime de lesa pátria”. Mesmo que o bairro onde nascera estivesse, então, transformado num local abandonado e dominado pelo tráfico de droga. "O que Rui Rio conseguiu foi espalhar o tráfico por outros bairros da cidade", argumenta.

PÚBLICO -
Foto
Bairro S. João de Deus NELSON GARRIDO

Em 1990, o ano em que o PÚBLICO nasceu, o S. João de Deus já estava longe de ser o bairro pacífico e em que todos eram “como uma família”, de que Madalena se recorda. Uma reportagem publicada a 5 de Junho chamava-lhe “um gueto na cidade” e mostrava as barracas que, como cogumelos, tinham nascido nos espaços vazios, albergando gente que chegava de fora, mas sobretudo pessoas dali, que escapavam às casas sobrelotadas montando uma barraca nas imediações. Lado a lado viviam brancos, ciganos e uma pequena comunidade africana. Anunciava-se, então, o avanço da 3.ª fase de construção do bairro e lembrava-se que o nome “Tarrafal” surgira por ser para ali que, antes de 1974, eram enviados “os que se portavam mal” nos outros bairros camarários.

PÚBLICO -
Foto
O bairro da Sé cruza hoje o abandono e a pobreza com o florescimento de negócios ligados ao turismo NELSON GARRIDO

Havia uma lixeira a céu aberto, carcaças de carros ao abandono, ligações pirata de água e electricidade, e o alcoolismo, a violência e o desemprego eram apontados como realidades comuns no bairro. A droga já por lá andava, pelo menos desde meados dos anos 80, mas ainda não era apontada como um problema maior do bairro – era a Sé, no centro histórico, que, então, concentrava as atenções nesse campo. “O bairro começou a degradar-se fortemente, primeiro com os barracos – construiu lá muita gente boa, muito séria e trabalhadora, mas também pessoas que viviam de esquemas. Quando estas pessoas se mudaram para as casas novas, em finais dos anos 90, sentiram mais segurança para os esquemas, e tudo piorou ainda mais”, conta Ernesto Santos.

Foram os anos em que o bairro, à noite, não tinha luz exterior, em que as ruas perderam parte do asfalto e eram caminhos de terra, traçadas por água choca; os anos das rusgas da polícia e do descampado conhecido como “vale dos leprosos” onde os toxicodependentes morriam à vista de todos; aqueles em que a cidade se esqueceu do S. João de Deus e em que ninguém lá entrava a não ser que lá morasse, trabalhasse (a escola, por exemplo, continua a funcionar) ou estivesse ligado ao tráfico ou consumo de droga; os anos em que dar como morada o S. João de Deus era, quase inevitavelmente, recebido com um franzir de testa e portas fechadas a quem procurava um emprego.

Quem não estava ligado à criminalidade fechava-se em casa. Maria Luciana diz que nunca pensou sair dali, mesmo que se recorde de passar “muitas vezes pelo meio da polícia” a caminho do trabalho, ou do medo que sentia quando havia uma rusga ou voavam tiros pelo ar. “Vivíamos metidos em casa”, diz. Madalena, costureira, diz que se dava com toda a gente. Mas o filho “que andava sempre lá para cima [nos blocos habitacionais]” acabou por começar a consumir, ainda adolescente, e levou anos até deixar a droga, diz.

Hoje, tudo isto não passa de memórias. O que sobrou de bairro é um sossego. “Estamos no céu”, diz Maria Lucinda – não fossem as queixas da casa nova, onde cai água na cozinha e onde ninguém se parece ter lembrado que dava jeito colocar uma gaveta nos móveis desta divisão ou a renda que passou dos 27 euros para os 316, enquanto as cadeiras pesadas de uma mobília de sala, que já não couberam na casa nova, vão apanhando a chuva forte que cai no pátio da habitação. Para o futuro, agora, queria um espaço para os bisnetos brincarem. Já Ernesto Santos gostava mesmo que os terrenos vazios do S. João de Deus voltassem a encher-se de gente. “Se a câmara os cedesse a cooperativas capazes de levar para ali casais jovens era excelente. Mas se calhar sou um utópico”, diz.

Ele vai continuar à espera. E os terrenos vazios do bairro também. O S. João do Deus já andava pelas páginas do PÚBLICO há 28 anos, mas está longe de ser caso único entre os temas que ainda hoje aguardam por resolução. No ano de nascimento do jornal anunciava-se ( imagine-se) o grande projecto da CP – Caminhos de Portugal, para a Estação de S. Bento. Prometiam-se “dois milhões de contos” (dez milhões de euros) para operar uma “revolução” no edifício, a que não faltavam passarelas envidraçadas, a ligar o edifício principal a um novo, que seria construído nas traseiras, e que se articularia com uma intervenção na escarpa da Batalha, destinada a usos tão diversos como cinema, um restaurante panorâmico ou auditórios.

O Palácio de Cristal procurava um rumo, voltado para o desporto, no ano em que a feira popular abandonava definitivamente os seus jardins, a Via de Cintura Interna ainda estava a ser construída, os empresários queixavam-se das vistas curtas do Governo que deixava a ampliação do Aeroporto de Pedras Rubras (o nome mudou, nesse ano, para Francisco de Sá Carneiro por decisão do Governo) aquém do necessário e o presidente da Câmara do Porto, Fernando Gomes, tentava cativar fundos europeus para a construção do metro.

Já no Mercado do Bolhão sentiam-se os primeiros sinais de crise, com a abertura de um talho na Rua de Fernandes Tomás, que levou os vendedores de carnes do mercado a manifestarem-se em frente aos Paços do Concelho. Os turistas estavam longe de ser uma constante na cidade e, com excepção dos espanhóis na Páscoa, os que apareciam vinham à procura do que era “aquele simples nome apanhado à sorte nalgum almanaque carcomido”, aquela “segunda cidade ainda ofuscada por rotas mais ensolaradas”, descrevia o PÚBLICO. E o centro histórico aparecia nas páginas do jornal como um local de pobreza imensa, com os moradores a pedirem – tal como hoje – para não serem expulsos, por causa da reabilitação em curso, e onde a droga corria livre pelas ruas da Sé. Foi nesse ano que Rui Losa assumiu a presidência do CRUARB (Comissariado para a Recuperação Urbana da Área da Ribeira-Barredo).

“O panorama era inimaginavelmente diferente do que vemos hoje”, diz ao PÚBLICO o homem que agora representa a Câmara do Porto na Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU). “Era um quotidiano muito marcado pela necessidade de habitação, da degradação das casas, com escadas arruinadas, telhados que não vedavam, clarabóias partidas. Havia problemas fundos, extensos, alguns muito antigos. E até aos anos 90 havia uma decadência do ponto de vista social, aquela era uma área de prostituição, que tinha uma imagem muito visível. O número de embriagados nas esquinas era significativo, era inevitável cruzarmo-nos com eles todos os dias. A droga foi crescendo, era frequente termos casos de overdose nas leiras da Lada ou até dentro dos edifícios que aguardavam reabilitação. Qualquer prédio desocupado, se não tivesse obras imediatamente, era ocupado por consumidores de droga”, diz.

Naquele ano de 1990, os locais mais falados de tráfico de droga da Sé eram a Rua Escura, o Largo do Souto, a Viela do Anjo. Pergunte-se hoje por onde anda o tráfico na Sé e os nomes ouvidos serão os mesmos. Cruzar a Rua Escura ainda é dar de caras com o abandono e pobreza do centro histórico do ano em que nasceu o PÚBLICO, mesmo que a toda a volta floresçam negócios ligados ao turismo.

Ali, em pleno centro histórico classificado como Património da Humanidade em 1996, não há que enganar – muita coisa mudou e muito. Na oficina onde constrói e repara instrumentos musicais, na Rua da Bainharia, António Luciano – Tony das Violas, para quem o conhece – não mostra entusiasmo com as mudanças dos últimos anos. De positivo diz que só vê “o lado estético” das ruas entretanto reabilitadas. A Sé cheia de gente, com crianças a brincar e pessoas que se entreajudavam, apesar da pobreza, é só uma memória. “O que vejo é turismo, não vejo pessoas a viverem”, diz, apontando, logo em seguida, para o prédio quase em frente, a aguardar obras, para denunciar o que diz ser “uma coisa escabrosa”. “A senhora que morava ali, nascida aqui, foi corrida por quem comprou o prédio”. “Só se vê especulação imobiliária”, diz.

PÚBLICO -
Foto
António Luciano, ou Tony das Violas, na oficina onde constrói e repara instrumentos musicais NELSON GARRIDO

Ele diz que também teve que comprar a casa onde vivia, na Rua dos Mercadores, “para não ser expulso” e, na Adega da Gandarela, também na Bainharia, Maria de Lurdes Oliveira, de 86 anos, diz que não tem medo do que aí possa vir porque o prédio é dela. “Se eu tivesse senhorio já estava na rua há muito”, afirma. Mora por cima da adega que continua a abrir, todos os dias, porque gosta de estar ocupada. Quanto ao panorama, sintetiza: “Já foi muito bom, agora é um bocado mau. Embora isto esteja a ficar bonito, mais limpo”. Faltam é as pessoas. O mercado de flores a estender-se para a rua no Ferreira Borges, o riso das crianças – coisas de que sente falta.

Do outro lado da Rua de Mouzinho da Silveira, na Rua Afonso Martins Alho, a Adega Floresta tem as paredes velhas cobertas de antigos posters do FC Porto e homens de pé, junto ao balcão, a beber copos de vinho. “Nos últimos três, quatro anos isto mudou 99,9%. Antigamente era tudo comércio de roupa, balanças, linhas, chaves… Agora é tudo hotéis e restaurantes, não há onde comprar uma agulha, uma tesoura. Mas, também, se não fosse o Património Mundial isto era uma vergonha. Estava tudo velho, tudo degradado”, diz Alfredina Mouta, 58 anos.

Ela já morou ali, por cima da antiga Adega do Olho – mais um espaço comercial fechado e cujo prédio está a ser reabilitado – e tem saudades das vizinhas, da camaradagem de partilharem as chaves de casa, para o que fosse preciso, dos clientes habituais, do comércio que enchia a rua e que, um a um, foi sendo substituído. A ela, à sua adega, podia ter acontecido o mesmo.

O senhorio vendeu o prédio, apresentou-lhe o novo dono e disse-lhe que, ainda assim, ela poderia exercer o direito de preferência. Um filho comprou-lhe o edifício. E o que vão fazer Alfredina e o marido com o edifício de rés-do-chão mais três pisos? “Montar um restaurante aqui em baixo e fazer quartos e apartamentos para alugar a turistas em cima”. Então e a vizinhança e a clientela habitual que partiu, de que ainda agora se lamentava? “Temos que seguir os tempos, não é? Ia ficar para trás?”, atira Alfredina.