A era Ronaldo

Cristiano Ronaldo é a figura marcante do desporto português das últimas três décadas.

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Cristiano Ronaldo em campo Phil Noble/REUTERS

George Best, John Wayne, Bill Clinton, Madre Teresa de Calcutá, John Lennon, Cristiano Ronaldo. O que têm em comum? Nem todos tinham jeito para jogar à bola, nem todos foram presidentes dos EUA, nem todos fizeram parte da banda mais popular de sempre, mas todos deram o nome a um aeroporto. Para quase todos uma homenagem (para alguns ainda em vida) por feitos passados, menos para um. Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, português, madeirense, pai de quatro, já está naquela fase em que pode bater um recorde a qualquer jogo que faça. É um homem? É um monstro? É uma marca? É a auto-estima de Portugal corporizada?

Onde estava Cristiano Ronaldo há 28 anos (quando o PÚBLICO nasceu), num tempo em que não havia redes sociais (e a Internet era uma coisa para poucos), quando o futebol estava longe de ser o monstro comercial que é hoje? Era um miúdo com nome inspirado num Presidente norte-americano (Ronald Reagan). Era um miúdo que crescia no meio da pobreza no bairro Quinta Falcão, um dos mais pobres da Madeira, filho de um jardineiro e de uma cozinheira e que partilhava um quarto com o irmão e as duas irmãs, todos mais velhos. Ronaldo não é o primeiro futebolista a chegar ao topo vindo da pobreza — Maradona, por exemplo, também veio de baixo —, mas já chegou ao alto há muito tempo e por lá estacionou. A longevidade no topo marca a diferença.

Ronaldo, o monstro

A forma mais fácil de avaliar a importância de Cristiano Ronaldo são os números, e este texto corre o risco de ficar desactualizado rapidamente. O Real Madrid jogou anteontem, dois dias antes do 28.º aniversário do PÚBLICO, no Santiago Bernabéu com o Getafe, e vai jogar amanhã em Paris, com o PSG, para a Liga dos Campeões. Ora, os números de Ronaldo à hora do fecho desta edição (dia 3) são estes: entre clubes e selecção, Ronaldo disputou 914 jogos e marcou 647 golos entre 2002 e 2018. Mesmo numa época considerada "fraca" pelos seus padrões, Ronaldo já leva quase tantos golos (28) como jogos (31).

Quase tão longa como a lista de golos é a lista de títulos, distinções e recordes que tem coleccionado ao longo de 16 épocas como profissional, entre Sporting, Manchester United, Real Madrid e selecção portuguesa. Seremos selectivos, não exaustivos. Primeiro, os títulos, que começam em 2002, com uma Supertaça portuguesa pelo Sporting em que foi suplente não utilizado, o único troféu com os "leões". Depois, três títulos de campeão inglês pelo United, dois de campeão espanhol pelo Real, três Ligas dos Campeões, quatro Mundiais de clubes, duas Supertaças europeias. E, claro, um título europeu em 2016 com a selecção portuguesa, ele que é o mais internacional e o melhor marcador de sempre.

Agora, os recordes e as distinções. Por cinco vezes foi considerado o melhor jogador do mundo nos prémios Ballon d’Or, da France Football (três deles atribuídos em parceria com a FIFA). Nos prémios atribuídos apenas pela FIFA, foi considerado o melhor por mais três vezes. Foi quatro vezes o melhor marcador da Europa, seis vezes o melhor marcador da Liga dos Campeões, da qual é o melhor marcador de sempre. Esta é a ponta do icebergue. Acrescentamos mais um recorde e fechamos este parágrafo: é um dos poucos na história do futebol mundial a conseguir marcar em todos os 90 minutos de jogo. Também é impressionante ter conseguido tudo isto sendo contemporâneo de Lionel Messi, com quem vai dividindo, há mais de uma década, as discussões sobre quem é o melhor.

Ronaldo tem 33 anos, feitos a 5 de Fevereiro, e já disse que queria jogar até aos 41. Não seria o primeiro a fazê-lo e não seria um recorde de longevidade — o britânico Stanley Matthews jogou até aos 50 e o japonês Kazu Miura continua em actividade aos 51 na segunda divisão japonesa —, mas o que o português quer é manter-se activo num patamar alto. Tudo o que sabemos sobre Ronaldo sugere isso mesmo, que ainda é cedo para o declararmos desportivamente acabado. Nesta época, mais do que em qualquer outra, falou-se de abrandamento, de passagem de testemunho. Qual foi a sua resposta? Ainda não é a hora.

Não tem sido a sua melhor época (nem para o Real Madrid), mas ele reencontrou-se com os golos e, mesmo que mais um título da Liga espanhola seja praticamente impossível, mais uma Liga dos Campeões continua a ser uma forte hipótese. Disso e do que fizer com a selecção portuguesa no Mundial 2018 dependerá mais um reconhecimento como melhor do mundo. "Tenho ambição e sinto-me com capacidades suficientes para lutar por ser o melhor do mundo. Alguns dizem o contrário, mas acredito que ainda tenho potencial para disputar a Bola de Ouro", dizia Ronaldo há poucos dias.

Claro que Cristiano Ronaldo não é o mesmo jogador que era, por exemplo, há dez anos. Menos móvel e mais posicional, o que não quer dizer que tenha perdido a capacidade de explosão. Simplesmente explode menos vezes, como dizia ao PÚBLICO em 2016 António Veloso, especialista em biomecânica da Faculdade de Motricidade Humana. "A resistência no futebol não é uma resistência contínua. Há períodos curtos de sprints intervalados por velocidades mais baixas, e é cada vez mais isto que se treina. Cristiano Ronaldo tem características para manter esse tipo de intervenção e a experiência fará com que seleccione melhor os momentos dessas intervenções", explicava o académico. Basicamente, deixou de ser um extremo explosivo com golo, para ser um avançado goleador (Ronaldo não gosta que lhe chamem ponta-de-lança) com capacidade selectiva de explosão.

Ronaldo, a marca

Cristiano Ronaldo não é a primeira superestrela do desporto com impacto global, mas ninguém é tão transversal como ele nos dias de hoje. Uma medida deste impacto é a sua presença nas redes sociais, maior do que qualquer outro desportista (em todos os desportos), maior do que quase toda a gente do mundo da música e do cinema. No Facebook é o mais seguido (122 milhões), no Instagram está em segundo (121,5 milhões), e até tem mais gente a ler os seus tweets do que o próprio Donald Trump — @realDonaldTrump tem apenas 48,4 milhões de seguidores, @Cristiano tem 69,9 milhões, a nona conta mais seguida do Twitter, com cinco cantores, Barack Obama, Ellen DeGeneres e o YouTube à sua frente.

A abrangência de Ronaldo nas redes sociais serve como veículo para a sua filantropia e uma janela para alguns momentos da sua vida pessoal, mas é de valor inestimável para as marcas. E o que vale Ronaldo para uma marca, nestes tempos em que o patrocínio vai bem para lá de um anúncio ou de uma sessão fotográfica de vez em quando? Em Junho do ano passado, a Forbes divulgou um estudo de uma empresa que avalia o valor comercial das redes sociais e colocou Ronaldo como o desportista que mais rendeu aos seus patrocinadores entre Junho de 2016 e Junho de 2017, colocando esse rendimento perto dos mil milhões de dólares. Segundo esse estudo, nesses 12 meses, que foram de muitas conquistas (Liga dos Campeões, Euro 2016), Ronaldo fez 580 partilhas com referências a patrocinadores ou com um logótipo para um total de 927 milhões de interacções com os seus seguidores (likes, comentários, partilhas).

É isto que Ronaldo tem para oferecer aos seus parceiros comerciais, desde a Nike, a Herbalife, a Tag Heuer, ou até a inesperada Egyptian Steel, e é o que ele significa para a sua própria marca, CR7, entre roupa, calçado, perfume e hotéis. Com a Nike, por exemplo, Ronaldo tem uma relação especial que só outros dois atletas tiveram antes dele, Michael Jordan e LeBron James. O fabricante de equipamento desportivo tem com Ronaldo um contrato vitalício que renderá ao português um valor próximo dos mil milhões de dólares. E não se pode dizer que tenha sido dinheiro mal gasto por parte da Nike. Só em 2016, Ronaldo terá gerado um valor a rondar os 500 milhões de dólares, ele que, em 2017, fez uma digressão individual pela China para promover a Nike no maior mercado do mundo.

Ronaldo, o português

Ronaldo tem uma estátua na Madeira, um busto (de méritos artísticos discutíveis) no aeroporto com o seu nome, tem um museu onde estão expostos todos os seus troféus. E tem a distinção não oficial de ser o primeiro nome disparado em qualquer parte do mundo quando alguém se identifica como cidadão português a um taxista local — no desporto português, só Eusébio e Luís Figo atingiram este estatuto de celebridade global. Se Ronaldo é o melhor jogador português de sempre, os números e as conquistas dirão que sim, embora esta talvez não seja uma resposta unânime, seja por uma questão geracional, por questões de afinidades clubísticas, ou por qualquer outra razão emocional.

"Um cidadão português conhecido no mundo inteiro como nenhum outro", foi como o então Presidente português Aníbal Cavaco Silva descreveu Cristiano Ronaldo em 2014, quando lhe concedeu o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique por "serviços relevantes". Não eram só taxistas, garantia Cavaco Silva (que não é o maior adepto de futebol do mundo), que lhe perguntavam por Ronaldo. Eram "chefes de Estado, primeiros-ministros, ministros", dizia. Ronaldo desempenha o papel que qualquer outro desportista português (ou de qualquer outra área) com sucesso internacional. Eleva a auto-estima do país, como fazia a selecção de hóquei em patins que Portugal ouvia na rádio, como o fizeram Eusébio, Carlos Lopes, Rosa Mota, o Benfica e o FC Porto europeus, entre vários exemplos para diferentes gerações.

"A excelência [de Ronaldo] alimenta o orgulho nacional, o nosso orgulho, e convida-nos a olhar para o que somos com outros olhos", dizia o actual Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa. Isto nunca terá sido tão verdade como na final do Euro 2016, no Stade de France, em Paris, uma casa longe de casa para muitos portugueses. Ronaldo ficou cedo fora de combate, mas não ficou fora do jogo. Assumiu o papel de adjunto de Fernando Santos e, por vezes, até gritou mais do que o seleccionador nacional naqueles minutos finais depois do golo de Éder e antes do apito final. Depois, festejou como talvez nunca tenha festejado outro título antes conquistado, com a mesma intensidade (mas na direcção oposta) das lágrimas 12 anos antes, na final perdida na Luz com a Grécia.

Ah, e, como muitos portugueses, tem problemas com o fisco.

Ronaldo, o homem

Origens humildes na Madeira, sozinho em Lisboa, um jovem adulto em Manchester, uma celebridade global em Madrid. Assistimos ao crescimento de Ronaldo, à sua transformação de lingrinhas com os dentes tortos e madeixas em máquina musculada, tratamos a mãe por Dona Dolores, o filho mais velho é o Cristianinho, vamos sabendo por onde passa férias e com quem. Entre o material promocional, Ronaldo vai abrindo algumas janelas para o que quer mostrar da sua vida, e tudo o que mostra só confirma aquilo que já sabíamos: numa versão de desportista de alta competição/celebridade global/milionário, é um homem dedicado ao trabalho e à família.

Há uma componente exibicionista na vida de Cristiano Ronaldo, mas essa é uma vida que mostra sem constrangimentos. Sim, é rico, sim tem casas e carros, mas também aparece no topo da lista dos desportistas que mais contribuem para causas humanitárias. Uma coisa é certa: Ronaldo levou a família e quem mais está no círculo íntimo para a sua vida de "estrela". Dolores, a mãe, também tem apelo publicitário — apareceu numa campanha da Meo ao lado do filho e noutra para promover as bananas da Madeira — e tem presença própria nas redes sociais (1,3 milhões de seguidores no Instagram). Katia, uma das irmãs, tem uma carreira na música e já participou em reality shows.

Há muita coisa que fica na sombra enorme que Ronaldo projecta. Não sabemos, por exemplo, quem é a mãe de Cristianinho e dos gémeos Eva e Mateo, se é a mesma, se são mães diferentes, e, até hoje, muito se especulou sobre isto, mas ninguém quebrou a confidencialidade. No que ao mundo diz respeito, os três filhos são de Cristiano Ronaldo e de mais ninguém — "guarda exclusiva" para o português e "anonimato" da mãe biológica, dizia o comunicado de CR7 após o nascimento do filho mais velho —, e têm em Dolores Aveiro uma mãe-avó sempre presente, e uma segunda referência materna com Georgina Rodríguez, a nova companheira de Ronaldo, e mãe de Alana Martina, a quarta filha do craque português.

Desde que era um miúdo a viver longe da família, Ronaldo começou a trabalhar mais do que os outros — no ginásio e nos treinos. Alex Ferguson, que assistiu de perto à metamorfose, dizia isto de Ronaldo nos tempos em que estava em Manchester. "Foi o melhor jogador que já treinei", escrevia na sua autobiografia. "Tinha tudo: performance nos treinos, força, coragem, velocidade, habilidade com os dois pés e com a cabeça." Foi assim em Old Trafford, continua a ser assim em Madrid, onde talvez acabe (ou não) a sua carreira. Que não sabemos quando vai ser. n