Opinião

Uma cerimónia líquida

A Forma da Água embrulha-se na “fábula” mil vezes repetida – “a bela e o monstro” – e sobretudo num academismo que não inquieta ninguém, não perturba ninguém, e se faz “política” fá-la sentimental e maniqueísta, quer dizer, inócua e inofensiva.

Esperava-se que esta fosse a cerimónia de entrega de Óscares mais política em muitos anos, talvez desde aqueles épicos anos 70 em que Marlon Brando se fez representar por uma americana nativa ou o produtor Bert Schneider leu em palco um telegrama de agradecimento do embaixador Viet Cong. Quem esperava que isso desse em happening, contudo, saiu decepcionado. O mais próximo que se esteve disso foi quando Frances McDormand, no final do seu discurso de agradecimento, pediu a todas as mulheres nomeadas (salvo erro, apenas a essas) que se levantassem, instando-as a usar o seu poder negocial para garantir que futuros filmes em que trabalhem privilegiem a inclusão e a diversidade, de género e de etnia, à frente e atrás da câmara. Resumiu bem o espírito da noite, mas essa conclusão “legalista”, a implicar “contratos”, “quotas” e outras burocracias, pareceu um bocadinho anti-climática.

Não se chegou ao happening, não se saiu dos conformes, não se quis assustar ninguém – pelo menos demasiado: lá pelo meio sempre houve um sketch a caricaturar o medo que os “homens brancos” têm de estar a ser “substituídos” por mulheres e homens de outras cores. Houve actrizes a evocarem o #MeToo e o Time’s Up, e um manifesto de solidariedade para com os “Dreamers”, os jovens imigrantes merecedores de um estatuto especial com que a Administração Trump quer acabar para os poder deportar. Esse nome – Trump – foi um dos dois maiores não-ditos de toda a cerimónia (o outro foi, obviamente, Weinstein). Mas como não pensar nele, no Presidente que usou expedientes para se furtar ao serviço militar no Vietname, como justificação e alvo último daquele estranho momento em que, sem nenhum pretexto extraordinário e com apresentação por um ex-soldado americano nativo, se homenagearam os veteranos das muita guerras americanas das últimas décadas?

A mensagem, ou as mensagens, que se esperava ver passou, portanto, com um pouco menos de fragor – de “espectáculo” – do que seria expectável. Mas o mesmo se pode dizer da maneira como essa dimensão política se reflectiu na lista de premiados. A relevância política estava praticamente garantida à partida, com um rol de filmes que pelo menos tematicamente tinham, neste contexto, pouco ou nada de inócuo. Quase se podia atirar um dardo de olhos fechados na certeza de que, acertasse ele onde acertasse, iria cair em cima de um objecto politicamente “performativo”, e a distribuição dos prémios por vários filmes, sem nenhum deles açambarcar uma maioria significativa de estatuetas, dá impressão de que os membros da Academia estiveram de facto a atirar dardos que foram aterrando em alvos diferentes.

Não espanta que Linha Fantasma de Paul Thomas Anderson – certamente o mais “abstracto” dos filmes a concurso, mesmo com tudo o que ele diz das relações de poder masculino/feminino – tenha ficado só com o prémio de consolação que era quase ofensivo não ganhar (o Melhor Guarda-Roupa); também não espanta que o Dunkirk de Nolan tenha vencido em categorias habitualmente (e erradamente) apelidadas de “técnicas” (os dois prémios do Som e a Montagem, ainda assim suficientes para ser o segundo maior “acumulador” da noite). Não espanta, sequer, que Gary Oldman tenha finalmente vencido o Óscar de melhor Actor, porque a Academia não resiste à “transfiguração” e porque através dele se premeia uma personagem, Churchill, que é um exemplo de liderança inspiradora e unificadora (um reverso de Trump, por assim dizer). Mas espanta, isso sim, que numa cerimónia tão #MeToo o único filme realizado por uma mulher (Lady Bird, de Greta Gerwig) tenha ficado de mãos a abanar, ou que o Foge de Jordan Peele se tenha ficado por um único prémio (melhor argumento original). Mesmo os Três Cartazes… de McDonagh, exame das convulsões raciais (e não só) da América profunda, se ficou por prémios de interpretação (Sam Rockwell e Frances McDormand).

O que queremos dizer é: melhores ou piores, havia filmes realmente aguerridos na forma como traduziam as suas questões temáticas em questões de cinema. Acaba por ser desapontante, tendo em isso em conta, que o vencedor da noite seja um filme nos antípodas disso. A Forma da Água, para além de programado ao milímetro e de forma quase cínica para satisfazer a agenda da “urgência” contemporânea (está nas personagens, está nas situações, está na época descrita), embrulha-se na “fábula” mil vezes repetida – “a bela e o monstro” – e sobretudo num academismo que não inquieta ninguém, não perturba ninguém, e se faz “política” fá-la sentimental e maniqueísta, quer dizer, inócua e inofensiva. Mas também aqui se terá preferido não assustar ninguém, e ficar com a liquidez informe da água.