Weinstein, Trump e o envelope maldito: o monólogo de Kimmel foi a todas

Abrir os Óscares em que tudo é suposto ser discutido não era tarefa fácil. Jimmy Kimmel não foi incisivo nem soçobrou sob o peso da expectativa — cobriu todas as frentes.

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Reuters/LUCAS JACKSON

Aos cinco minutos da cerimónia dos 90.ºs Óscares, estava feito. O elefante na sala foi encarado de frente e, porque esta noite é “história a acontecer”, era preciso tocar em vários temas, abrir a arena aos leões e equilibrar o humor expectável de um dos maiores momentos de entretenimento planetário comum com comentários sobre Harvey Weinstein — e não só. O anfitrião Jimmy Kimmel não foi incisivo nem soçobrou sob o peso da expectativa, só cobriu todas as frentes.

Os primeiros comentários foram introspectivos, da indústria para a indústria e para o mundo que a está a ver uma noite por ano. “Esta noite, se ouvirem o vosso nome... não se levantem logo. Dêem-nos um minuto”, pediu o apresentador. Porque “não queremos outra... coisa” como aquela que é a derradeira memória dos Óscares de 2017, com a troca de envelopes que entregou primeiro o prémio de Melhor Filme a La La Land para depois emendar a mão e o dar finalmente a Moonlight. “Os contabilistas fizeram comédia por si”, disse Kimmel sobre as consequências de ter recusado fazer um sketch com a equipa de consultores encarregue de entregar os envelopes.

Mas porque os 90 anos são redondos e a indústria está de olhos postos nos Óscares não só porque A Forma da Água tem 13 nomeações mas porque #MeToo e assédio se tornaram sinónimos de Hollywood, Kimmel tinha de falar do tema. Elogiando os 90 anos da estatueta do Óscar que “mantém as mãos à vista, não diz uma palavra feia e, mais importante, não tem pénis”, Jimmy Kimmel exemplificou como Hollywood não percebe nada de mulheres. “Quando fizemos o filme O Que as Mulheres Querem, tinha Mel Gibson” como estrela, disse, para gáudio da sala. “O mundo está a ver”, lembrou desnecessariamente, pelo que os actos de Harvey Weinstein e outro “mau comportamento” não pode “passar”. “Temos de dar o exemplo.”

Nome pária ultrapassado, Kimmel brincou cautelosamente — o tom de todo o monólogo inicial, tido como um momento-chave de passagem de mensagem nos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, foi precisamente esse. “Se conseguirmos trabalhar juntos para acabar com o assédio sexual no local de trabalho, as mulheres só terão de lidar com o assédio o tempo todo e em todos os lugares aonde vão.” O tema voltaria a surgir mais à frente a propósito do romance fantástico entre a personagem de Sally Hawkins e a criatura anfíbia de A Forma da Água: “Este foi o ano em que os homens fizeram tanta porcaria que as mulheres começaram a sair com peixes”, brincou.

Mas o curto monólogo, em que foi feito o aviso à navegação de que ninguém terá o seu discurso encurtado pela orquestra, passaria a outros temas. Black Panther, o filme de super-heróis que continua a bater recordes de bilheteiras e a acolher elogios da crítica, foi uma das paragens obrigatórias, como foi o lembrete de que os tempos em que se pensava que um elenco negro não convenceria os públicos. “O motivo pelo qual me lembro desses tempos é porque foi em Março do ano passado”, fez rir Kimmel.

Apelos à igualdade salarial, referências ao tiroteio de Parkland e à actual discussão em torno do controlo de acesso às armas foram outras rápidas linhas da frente de um monólogo sem grande ondulação. Só faltava a referência a Trump. Lupita Nyong’o, visada nas imagens a preto e branco que encetaram a cerimónia em jeito de velha Hollywood, foi apontada como a responsável por uma potencial tempestade de tweets saída da casa de banho de Donald Trump — nascida no México e educada no Quénia, tem tudo para irritar o temperamental inquilino da Casa Branca.