Cultura

Onde estão os intelectuais na era da técnica?

No mundo digital das redes sociais e do acesso generalizado ao conhecimento há ainda espaço para o intelectual clássico? O pensador global e politicamente empenhado, ao estilo de Sartre, estará definitivamente extinto ou metamorfoseou-se em novas criaturas? O PÚBLICO não tem respostas, mas abre a conversa.

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Yannis Varoufakis em Bruxelas (16/2/2015): “Um equivalente actual para o plano de actuação em que Sartre se situou no seu tempo” FRANÇOIS LENOIR/REUTERS

Se o leitor entrar por estes dias numa qualquer livraria generalista, é quase certo que encontrará, entre os títulos em destaque, obras como A Arte da Vida, do sociólogo polaco Zygmunt Bauman (1925-2017), criador do conceito de modernidade líquida – e que já em 1987 publica um célebre ensaio sobre a decadência dos intelectuais –, ou A Sociedade do Cansaço, em que o influente filósofo alemão de origem coreana Byung-Chul Han sugere que vivemos já hoje numa versão refinada da distopia que Orwell concebeu em 1984, ou ainda Homo Deus, a sequela de Sapiens, do historiador israelita Yuval Noah Harari, com o seu aviso de que podemos estar às portas de uma era "dataísta" que tornará a humanidade irrelevante.

E se passarmos os olhos pelas listas de pensadores influentes que revistas de referência, como a inglesa Prospect ou a americana Foreign Policy, vão regularmente divulgando, também tenderemos a persuadir-nos de que o intelectual é hoje uma espécie mais viçosa do que ameaçada, ainda que o eclectismo destes inventários possa ser desconcertante, misturando escolhas previsíveis, como o sociólogo Jürgen Habermas ou o linguista e activista Noam Chomsky, com figuras como o artista chinês Ai WeiWei, o romancista Mario Vargas Llosa ou o humorista Stephen Colbert, para referir apenas alguns exemplos.

De onde vem, então, a sensação de que não apenas se teria quebrado o molde em que foram feitos os grandes intelectuais da segunda metade do século XX, como Jean-Paul Sartre (1905-1980), como estaríamos agora a assistir ao desaparecimento da própria figura do intelectual? Um dos mais recentes indícios de que a questão está mesmo na ordem do dia foi o facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros português ter sentido a necessidade de escrever um extenso artigo significativamente intitulado "Será que as redes sociais estão substituindo os intelectuais?". Publicado há duas semanas no diário brasileiro Folha de S. Paulo, o texto de Augusto Santos Silva constitui uma verdadeira chamada às armas, apelando aos intelectuais para que não caiam no erro de ignorar as redes sociais, mas também não deitem a toalha ao chão, abdicando de exercer a sua função crítica e permitindo que o populismo e a desinformação vençam sem luta.

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Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polaco, em 2010 Eloy Alonso/Reuters

Ouvindo intelectuais (ainda não desapareceram todos…) de diversas áreas, da sociologia à literatura e das ciências da comunicação às tecnologias digitais, o PÚBLICO procurou testar essa hipótese de que os intelectuais estariam a perder condições de sobrevivência num mundo de acesso virtualmente instantâneo à informação e onde todos dispõem de arenas onde podem exprimir publicamente as suas opiniões. Há respostas (e novas perguntas) para todos os gostos, dos que enterram sem a menor nostalgia o intelectual clássico aos que julgam reconhecer em alguns economistas actuais a mesma vocação multidisciplinar e pulsão interventiva que animou esses maîtres à penser dos anos 60 e 70, geralmente oriundos da Filosofia.

Para o sociólogo Bruno Monteiro, co-autor do livro Intelectuais Europeus no Século XX, a própria questão pressupõe que "existe uma coisa, o intelectual, que todos sabemos o que é", quando, na verdade, "sempre houve visões diferentes do intelectual e do relacionamento que este deveria manter com o mundo social". Se "alguns eram a favor da implicação em causas políticas", outros defendiam "uma distância higiénica do mundo", nota, lembrando que a discussão data do próprio caso Dreyfus, quando surgiu a noção de intelectual.

Não só o intelectual "é uma figura eminentemente histórica", sublinha, como também a sua definição foi sendo, em cada momento, objecto de disputa. Uma discussão que persiste e não é desinteressada. "Se se perguntar a várias pessoas pelo fim dos intelectuais, os diagnósticos serão sensíveis ao lugar que cada uma delas ocupa", profetiza Bruno Monteiro. "Para quem está mais próximo do intelectual tradicional, confirmar esse fim seria aceitar a iminência da sua própria morte social", e por isso terá interesse em propor definições mais restritivas, ao passo que "os que não se identificam com essa figura, ou não podem sequer ter essa pretensão, tenderão a defender fronteiras mais porosas".

Sem uma visão maniqueísta dos novos meios digitais, o sociólogo acredita que estes têm gerado genuínos "produtores de ideias", que "estão, isso sim, fora das incubadoras tradicionais de intelectuais". Mas também não aceita acriticamente que "o espaço virtual das redes sociais seja necessariamente mais livre e democrático", apontando, por exemplo, o risco agravado de se ter apenas "um simulacro de discussão aberta", porque o debate passa muitas vezes a "dispensar os mecanismos de escrutínio das opiniões ou de cotejamento com a realidade" e a promover "bolhas" nas quais "ideias idênticas se vão confirmando reciprocamente". E se "é verdade que existe maior circulação de ideias, o hiato entre especialistas e leigos nem sempre parece ter diminuído", sugere. "Sabemos realmente o que implica o algoritmo das aplicações que usamos diariamente?"

Dylan: um Nobel sintomático

E não será possível que esse réquiem pelo intelectual seja, no essencial, uma melancolia de esquerda? O colunista e crítico literário Pedro Mexia acredita que sim, porque "a direita teve sempre uma certa resistência à figura do intelectual e nunca lhe reconheceu a centralidade de que este usufruiu à esquerda". Uma reserva que "tem que ver com uma certa desconfiança pelo teórico e abstracto", mas também com a hegemonia da esquerda entre os intelectuais clássicos. "O nome que vem logo à cabeça é Sartre, de quem a direita não se sente seguramente órfã."

José Bragança de Miranda, sociólogo com vasta obra publicada nos domínios da comunicação e da cibercultura, acha que o "intelectual como uma espécie de consciência crítica da humanidade, alguém que paira sobre o real e o abrange na sua totalidade, entrou em crise". O "exemplo máximo" dessa estirpe teria sido Marx, que, "ali mesmo no Museu Britânico [em cuja biblioteca o autor de O Capital escreveu boa parte da sua obra], conseguiu ver o passado, o presente e o futuro da humanidade". Este tipo de intelectual, diz, "dispersou-se numa infinidade de analistas e especialistas que, todos juntos, não chegam a fazer um intelectual dos antigos".

Quando depois aponta Sarte como "o último grande modelo do intelectual europeu" e afirma que "o que sobrou foi uma infinidade de pequenos funcionários televisivos", poderia começar a presumir-se que não só confirma como lamenta a morte desse intelectual clássico. Mas não lamenta de todo. "Já desapareceu tanta coisa, porque é que o mundo fica pior se desaparecer o intelectual?", pergunta. "O que importa é o pensamento, e esse está hoje cada vez mais potente e excedeu as formas históricas da economia, da filosofia, da sociologia, que o tornaram uma manta de retalhos que se esperava que o intelectual pudesse recoser."

A esses "pensadores do total", Bragança de Miranda censura-lhes "a tentativa de substituir por fantasmagorias a complexidade da vida e do real". E acrescenta que "a desgraça começa quando sabem escrever". Se Sartre foi o último dos grandes intelectuais, diz, "foi também porque escrevia muito bem, como hoje o Sloterdijk é fundamentalmente um bom escritor". Assumindo que tem uma "visão muito positiva" das possibilidades criadas pelas novas tecnologias, defende que "quando deixamos de entregar a responsabilidade de pensar a outros, temos a responsabilidade de pensar por nós próprios."

Tanto Bragança de Miranda como Bruno Monteiro citam curiosamente o mesmo facto como um dos indícios de que a percepção do intelectual está a mudar: a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan, na qual o primeiro vê "o sintoma de um pensamento novo, que escapa tanto aos intelectuais como aos funcionários dos media".

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Bob Dylan em 2012: surpresa como Nobel da Literatura 2017 KI PRICE/REUTERS

Num mundo em que o pensamento economicista tem vindo a tornar-se particularmente influente, a ensaísta Rosa Maria Martelo, da Faculdade de Letras do Porto, interroga-se se "o que temos hoje de mais semelhante ao perfil interventivo do intelectual clássico" não será aquilo a que chama o "economista crítico". Thomas Piketty ou Jacques Sapir, em França, seriam possíveis exemplos, como o seria Yanis Varoufakis, que "teve a audácia de quebrar o protocolo de silêncio do Eurogrupo para nos mostrar o lado oculto das instituições europeias" e "está agora a desenvolver um partido transnacional". Se tivéssemos de encontrar "um equivalente actual para o plano de actuação em que Sartre se situou no seu tempo", o efémero ministro das Finanças grego seria um candidato mais pertinente, sugere, do que outros aparentemente mais plausíveis.

Arlindo Oliveira, director do Instituto Superior Técnico e autor do recente livro Mentes Digitais, concorda que "as redes sociais e os mecanismos de personalização de notícias fazem com que as pessoas leiam mais as notícias e opiniões que estão próximas das suas", criando as tais "bolhas " de que fala Bruno Monteiro. E reconhecendo que as novas tecnologias reforçam o imediatismo – "a coisa que se lê num minuto, o vídeo que se vê em cinco minutos" –, defende que "o ideal é haver um equilíbrio entre os mecanismos mais profundos de aprendizagem", como ler livros ou frequentar cursos, e estes novos meios, "que trazem muito maior volume de informação, mais rica e mais rapidamente".

Se ainda há intelectuais? Arlindo Oliveira acha que sim, mas que "são como sempre uma pequena fracção da população, e talvez sejam hoje menos visíveis". Já "esse intelectual clássico de que as pessoas sentem falta, talvez tenha passado um pouco o tempo dele", até porque, observa, "a tecnologia é hoje tão mais importante na vida das pessoas, tem tanto mais impacto na economia e nas questões sociais, que um intelectual que não a entenda, pelo menos nas suas consequências, dificilmente poderá ser influente".

O intelectual como moscardo

Um dos aspectos que explicam a "enorme diferença entre a posição do intelectual público nos anos 60 e no presente" é desde logo, sublinha o professor e ensaísta António Feijó, vice-reitor da Universidade de Lisboa, "o acesso ao saber". E ilustra o argumento com uma anedota que pode bem ser factual: "Há 50 anos, o Eduardo Prado Coelho recebia na Livraria 111 o único exemplar que chegava a Portugal do último livro do Deleuze; agora qualquer pessoa manda vir um Deleuze e recebe-o em 48 horas."

Sem esse contexto de "acesso limitado ao conhecimento", é difícil que o intelectual possa hoje ter no espaço público o tipo de prestígio de que outrora gozou, defende. Mas se admite que "alguma coisa se perde no desaparecimento de intelectuais que falavam com alguma autoridade", e que "a conversa, sendo hoje mais ampla, é também mais barulhenta e desigual", saúda, todavia, o fim dessa "apropriação do monopólio da fala pública por um grupo restrito".

Apesar das mudanças que todos reconhecem, há configurações do intelectual que a Bruno Monteiro "parecem manter pertinência, como a figura socrática do intelectual como moscardo, aquele que incomoda a tranquilidade do mundo das aparências". Isto é, "alguém que cultiva a dúvida em si e nos outros, que questiona o que é assumido como a ordem natural das coisas".

Uma espécie ameaçada num meio que parece estar sujeito a pressões uniformizadoras pouco assumidas, mas nem por isso menos eficazes. António Feijó chama a atenção para o aparente paradoxo de a mediatização nas grandes universidades estar a levar a que "as pessoas tenham de distinguir-se pelo inédito e procurem a next big thing", ao mesmo tempo que "o novo que propõem é quase sempre convencional, porque tem de se adaptar a uma ortodoxia difusa".

O crítico de cultura António Guerreiro não andará muito longe destas preocupações quando constata, num depoimento escrito, que "triunfou em toda a linha" uma "estetização difusa e generalizada em todos os domínios da sociedade", à qual atribui "um efeito anestésico", e que coincide com "a ascensão dos divulgadores e comissários, que são figuras do enfraquecimento da crítica". A outros factores mais frequentemente invocados para explicar o desaparecimento dos intelectuais Guerreiro soma-lhes "o papel que os media hoje desempenham na socialização e legitimação da cultura" e "a transformação da universidade, hoje muito mais voltada para a tecnicização do saber e para a funcionalidade pragmática".

É talvez ainda do mesmo fenómeno que Rosa Maria Martelo fala ao observar: "Quando o artista age logo à partida como um fazedor de cultura e os intelectuais dependem profissionalmente da legitimação das instituições", cria-se "um clima propício à conformidade", contexto em que, receia, "pode haver pouco espaço para a voz dissonante do intelectual clássico". n