Editorial

Domingo de nervos

A estabilidade não é um bem em si mesmo, e de certeza que não é um bem superior ao da democracia.

Mais um dia com contornos dramáticos para o continente. De cada vez que se tomam decisões sobre votos e governos, os edifícios do quarteirão europeu de Bruxelas tremem um bocadinho — e hoje não será excepção.

A Itália é um membro fundador da União e vai a votos envolta em incertezas, como aliás já é tradição. É quase certo que não vai sair deste domingo uma solução estável de governação, que só poderá ocorrer com coligações inesperadas e com mudanças de prioridades dos actores políticos, como aliás é habitual.

Neste momento o risco maior não é que a solução seja pouco duradoura. O risco maior é que seja uma solução de poder marcadamente anti-Europa, que vai ao sabor dos tempos e dos populistas que inundam a política italiana. Entre eles está, claro, o velho Berlusconi — se há democracia que merece ter este homem como decano é precisamente a italiana, onde as coisas nunca são o que parecem e onde um dia sem escândalos nem incompetências governativas é uma raridade. A alternativa à aliança entre populistas e proto-fascistas será um grande encontro dos moderados à esquerda e à direita, mas a multiplicidade de partidos e a facilidade com que se fazem e desfazem alianças não auguram nada de particularmente estável para o sistema. 

Na Alemanha, a situação é diferente e muito mais pacífica, mas com potencial para ser muito mais grave a médio prazo. A confirmação da grande coligação (Groko) entre a CDU de Angela Merkel e o SPD de Schultz deve ficar garantida hoje, com a vitória dos seus defensores no referendo dos sociais-democratas. A gravidade virá a seguir. A grande união entre o centro esquerda e o centro direita abre caminho ao extremismo e vai reforçar dramaticamente a importância da AfD na sociedade alemã, porque será ela a oposição oficial ao governo do centrão. 

Claro que para a Europa será simpático ter a senhora Merkel confortavelmente instalada com uma maioria no Bundestag, de forma a prosseguir a linha de reformas traçada por ela e por Macron. Mas isso poderá ser inútil se daqui a quatro anos as eleições seguintes forem vencidas pelos extremistas da AfD. 

É verdade que a República Federal não aprendeu ainda a viver com um governo de minoria, mas esse até poderia ser uma boa aprendizagem que ajudasse a desmontar os riscos do crescimento dos extremos. Seria mais difícil para a volução europeia, mas provavelmente melhor a médio prazo. A estabilidade não é um bem em si mesmo, e de certeza que não é um bem superior ao da democracia.