Análise

O centro vai aguentar? Não há melhor alternativa

1.Não vale a pena tentar aplicar as regras de análise política que nos servem de referência e que vêm de um passado que provavelmente não voltará. Na lógica anterior, é fácil chegar à conclusão de que uma coligação ao centro, entre os dois partidos que governaram a Alemanha desde a fundação da República Federal, vai alimentar os extremos e provocar mais danos do que benefícios. Hoje a realidade política é muito mais complexa.

Não foi por acaso que uma das perguntas mais repetidas durante os anos mais dramáticos da grande crise europeia fosse “o centro vai aguentar?” Era disso que se tratava, as suas duas grandes famílias políticas europeias de centro direita e de centro esquerda começaram a ser postas em causa por partidos de natureza populista ou nacionalista que vieram para ficar, em boa medida graças à crise que a União Europeia atravessou.

Havia vários caminhos que poderiam ter sido seguidos para salvar a Europa, quando rebentou a crise das dívidas soberanas. A Alemanha acabou por impor o seu. Deixou muitas feridas abertas, obrigando vários países a pagar um preço social enorme para se manterem no euro. Não sabemos se outro caminho teria sido possível ou teria sido melhor.

Hoje, a economia europeia está a recuperar. Podia ser um bom sinal, se não fosse outra crise, que hoje se tornou dominante, e que é a crise das próprias democracias europeias. Com os milhões de refugiados da Síria, do Iraque ou das guerras escondidas e devastadoras em África, os imigrantes são hoje o factor mais importante para a escolha dos eleitores, mesmo em países em que a economia corre bem. Foi o que aconteceu na Alemanha nas últimas eleições, com a fragmentação do sistema político e a instabilidade que gerou.

2.Depois de quase seis meses de espera, os militantes do SPD deram um sim inequívoco à participação na “grande coligação” que deverá governar a Alemanha, mais uma vez liderada por Angela Merkel. Se aplicássemos as velhas regras dos regimes democráticos europeus, a conclusão só podia ser uma: ao desguarnecer os extremos, a nova coligação ao centro vai abrir espaço aos partidos extremistas.

Em Berlim, o perigo maior vem da “Alternativa para a Alemanha”, que não quer nem imigrantes nem o euro, o que quer dizer que não quer a integração europeia. O problema é que nem a Alemanha nem, consequentemente, a Europa têm tempo para jogar no longo prazo. Precisam de saber conjugar os interesses da política interna com a necessidade de garantir que a Europa conseguirá preservar a sua unidade e contará para alguma coisa, num mundo em turbulência que lhe é cada vez mais desfavorável.

Este também é um interesse vital para os alemães, como para o mais minúsculo dos países da União Europeia. Emmanuel Macron conseguiu derrotar os extremos, colocando-se exactamente ao centro, redefinindo as linhas divisórias entre esquerda e direita e transformando-as numa escolha entre abertura e fechamento.

As circunstâncias políticas da França e da Alemanha são muito diferentes. Mas a Europa vale bem um combate e é isso que a nova “grande coligação” alemã tem de tentar fazer. Havia alguma alternativa? Muitos analistas, sobretudo na Alemanha, dizem que sim: um governo minoritário de Merkel, quebrando a tradição de governos de coligação maioritários que prevalece desde a fundação da República Federal, ou mesmo novas eleições.

3.É fácil de defender estas soluções, se excluirmos a questão europeia. E é este, porventura, o maior drama que a Europa enfrenta: compatibilizar as escolhas dos eleitores nacionais, cada vez mais voláteis, com a negociação de compromissos que preservem uma Europa mais forte e mais unida, capaz de defender os interesses europeus no meio do caos internacional onde passaram a pontificar grandes potências que desafiam directamente a ordem liberal criada pelos americanos depois da guerra.

É um desafio muito difícil, quando olhamos para alguns países europeus, mesmo entre os fundadores, onde a rejeição da Europa, de forma aberta ou dissimulada, se tornou a moda dominante. É o caso da Itália, que vota num verdadeiro caos político. É o caso da Holanda, que, como a Itália, sempre se deu bem com a integração europeia. Já não é assim. O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte (liberal), rejeita mais integração, defende um corte substancial no orçamento comunitário, diz que detesta a linguagem do “ever closer Union” e acrescenta que a França e a Alemanha não podem decidir tudo sozinhas.

Antonio Tajani, que foi directamente da presidência do Parlamento Europeu para candidato a primeiro-ministro de Berlusconi, propõe uma aliança com a Espanha para enfrentar o domínio franco-alemão. As forças populistas já se insinuaram nos governos de vários países europeus ou integram as maiorias parlamentares que os sustentam.

E não é só nos países da Europa de Leste, como a Polónia e a Hungria, que põem directamente em causa os alicerces da democracia liberal, do Estado de Direito e do respeito pelas minorias sobre os quais a Europa foi construída. É o que acontece também na Áustria, na Finlândia ou na Dinamarca. Se esta tendência continuar a crescer, então sim, a Europa terá o mais sério de todos os seus problemas.

Conclusão: não estamos em tempo de experimentações. Porque já não há tempo. A Europa ainda precisa de um governo alemão em mãos seguras, capaz de fazer a ponte entre as duas grandes famílias políticas que ergueram a Europa dos escombros da II Guerra, mesmo que o tempo as tenha posto à prova, mudando parte da sua razão de ser, mas não a sua fidelidade à ideia de integração europeia como o melhor remédio contra o nacionalismo.

Portanto, boa sorte à “grande coligação”. Mesmo numa situação de fraqueza que nunca se verificou antes, precisa de provar que o centro consegue aguentar.

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