Em nome de uma cantina escolar, o deputado Paulo Estêvão não come há 12 dias

Parlamentar açoriano do PPM está em greve de fome em protesto contra a inexistência de um refeitório na única escola do Corvo. Não é a primeira vez que adopta esta forma de luta.

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Eduardo Costa/Lusa

Doze dias. 288 horas. Dezassete mil, duzentos e oitenta minutos. Salvo imponderáveis, quando for meio-dia neste sábado, Paulo Estêvão, o deputado do Partido Popular Monárquico (PPM) no parlamento açoriano, completa o 12.º dia de greve de fome, em protesto pela ausência de uma cantina na Escola Básica e Secundária Mouzinho da Silveira, a única na ilha do Corvo, que é frequentada por 42 alunos.

“Estou a lutar contra uma discriminação. Contra uma brutal discriminação”, justifica ao PÚBLICO, numa voz cansada, o parlamentar que não é raro optar por abordagens pouco convencionais na defesa do que considera serem os interesses da pequena ilha que o elege deputado desde as regionais de 2008.

Logo um ano depois de chegar ao parlamento, Estêvão esteve quase três dias em greve de fome, para exigir a instalação de uma delegação da assembleia regional no Corvo, que era, à data, a única ilha do arquipélago sem essa extensão do parlamento.

Só terminou o protesto, depois de ter uma garantia “por escrito” de que o problema seria resolvido. E foi. Também agora, garante, não vai desistir. “Enquanto tiver condições físicas, vou aguentar”, diz ao telefone, a partir da cama, onde tem permanecido nos últimos dias. As excepções são as conferências de imprensa que tem dado e as saídas para exames médicos.

“Sei que isto que estou a fazer é uma aflição para a minha família e para os meus amigos. Mas não posso desistir, enquanto o governo [regional] continuar a tratar o Corvo de forma diferente das outras ilhas.”

Paulo Estêvão não compreende que o Corvo tenha a única escola do arquipélago sem cantina, quando o executivo açoriano construiu refeitórios e cozinhas escolares em todos os restantes estabelecimentos de ensino. Também não aceita a argumentação de que a dimensão da ilha não justifica uma cantina escolar. “Existem freguesias ainda mais pequenas do que o Corvo, onde a proximidade da escola com a casa dos alunos é maior, e têm cantina escolar”, contrapõe.

O executivo do socialista Vasco Cordeiro rejeita qualquer discriminação. Numa nota emitida durante a semana, o secretário regional da Educação e Cultura, Avelino Meneses, explica que a falta de refeitório é compensada por uma comparticipação diária, variável consoante o escalão de acção social. O valor, que varia entre os 2,39 euros e os 48 cêntimos por dia, para os alunos do 2.º e 3.º ciclos e secundário, e entre 7,50 e 30 euros por mês, para os do 1.º ciclo, não convence o deputado do PPM. Nem os pais dos alunos da escola Mouzinho da Silveira.

O subsídio, que entrou em vigor este ano lectivo, foi rejeitado por 32 dos 37 encarregados de educação que, desde o início do protesto, têm estado ao lado de Paulo Estêvão, que diz ter esgotado todas as outras formas de reivindicação.

“Apresentei propostas de alteração ao orçamento. Projectos de resolução. Até boicotei o jantar oficial com o Presidente da República, e nada…”, reclama, dizendo que, enquanto nas outras ilhas o governo regional introduziu a opção de refeições vegetarianas e chega a manter as cantinas abertas durantas as interrupções lectivas, o Corvo, a ilha mais pequena do arquipélago, continua a ser esquecido.

O deputado, alentejano de nascimento, aterrou nos Açores em 1995 e por lá ficou, ensinando História. Primeiro na Terceira, depois no Faial e no Pico, até se “apaixonar” pelo Corvo. Foi pela mão do CDS que entrou na política activa. Chegou a ser vice-presidente do CDS-Açores, antes de se filiar no PPM, em 2000.

Em 2011, protagonizou outro episódio pouco ortodoxo. Face às reticências do governo açoriano em instalar um museu no Corvo – “era a única ilha do arquipélago que não tinha um” –, Paulo Estêvão comprou e depois doou à região um edifício do século XVII para aí ser instalado o espaço museológico. “Abre as portas dentro de dois ou três meses”, diz o deputado, que tem recebido a solidariedade dos restantes partidos da oposição e “nem uma palavra” do governo regional.