Opinião

Viva o vinho português, que é o melhor do mundo!

É muito mais saudável irmos trocando elogios uns com os outros. O que importa é haver muito vinho para bebermos e irmos levando a nossa vidinha da melhor forma que pudermos. Viva Portugal!

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Fernando Veludo/NFactos

O meu querido amigo e colega Edgardo Pacheco disse há dias de mim que parece que eu escrevo mais com uma malagueta do que com um teclado. Agradeço o elogio/crítica, mas isso só prova que há algo de errado no mundo do vinho.

Na política ou no futebol, a crítica, em jeito de crónica ou texto de opinião, pode ser contundente e mordaz. O Estado falha com alguma coisinha (e o Estado somos todos nós) e caímos logo sobre o governante da tutela como leão faminto. Nos vinhos, as “especificidades” do negócio só nos deixam um caminho: o da paz e amor (que, honra lhe seja feita, não é o que Edgardo Pacheco segue). 

Se falamos mal ou muito mal de um vinho, é certo e sabido que o produtor não voltará a enviar-nos amostras; se um certo produtor é conhecido por partilhar grandes vinhos com os jornalistas e nos atrevermos a criticá-lo publicamente, só por sorte nos sentaremos de novo à sua mesa; se tivermos a ousadia de criticar uma grande empresa pelo seu comportamento no mercado, é sagradinho que não voltaremos a ser convidados para viagens ou grandes eventos; se fugirmos à hipocrisia das palminhas nas costas e criticarmos o presidente da comissão de vitivinicultura X, por erros de estratégia ou por olhar mais para os interesses das grandes empresas e esquecer os produtores mais pequenos, somos remetidos para a categoria dos inimigos e poderemos dizer adeus a qualquer tipo de patrocínio futuro; se desvalorizarmos os milhares de prémios banais que todos os anos são atribuídos aos vinhos portugueses, é porque temos inveja e somos pouco patriotas; se denunciarmos os métodos menos correctos de algum colega, aqui- d’el-rei!, que isso é sinal de mau carácter, porque é feio criticar os nossos pares.

Mais outro exemplo: as revistas da especialidade organizam eventos abertos a todos os jornalistas, mas, se o organizador for a Revista de Vinhos, nenhum jornalista da Grandes Escolhas vai aparecer. Se for a Grandes Escolhas a promover um prova ou uma feira, não aparece ninguém da Revista de Vinhos. Os produtores, que são os que pagam as favas, só têm duas soluções: ou dizem ámen com todas as revistas e vão a tudo o que elas organizarem, investindo em dobro, ou “adoptam” uma revista e já sabem que vão ter menos atenção da revista concorrente.

Não parece, mas o mundo do vinho em Portugal é um bocadinho pantanoso (não é só o sector do vinho, claro). E é-o porque dependemos todos uns dos outros. Se as revistas não organizarem feiras, um dos meios mais eficazes de divulgação e promoção do vinho, não sobrevivem; se os produtores não nos enviarem garrafas para provar ou não nos convidarem para apresentações ou viagens, deixamos de ter razão de existir. O ideal seria os jornalistas pagarem tudo, para deixarem de ficar condicionados, e as revistas da especialidade se dedicarem apenas a trabalhos editoriais. Mas já se sabe que isso não é possível, em Portugal e em qualquer país do mundo.

As coisas são como são e não há inocentes. Porém, não podendo ser as ideais, podem ser sempre melhores se aceitarmos a crítica e a denúncia como algo normal e até saudável. Denunciar o que está mal, em nome de uma sociedade melhor, foi sempre o primeiro dever do jornalismo. E esse é um dever que se estende a todas as áreas da nossa vida colectiva. Denunciar, criticar, mas também aceitar a devolução da denúncia e da crítica, porque ninguém está isento de julgamento. Os direitos de resposta e de defesa existem para ser utilizados e são tão importantes como o direito de expressão.

Sem querer personalizar em demasia o assunto, acreditem que não me move qualquer questão pessoal contra a presidência do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), mas como podemos calar-nos quando sabemos que o IVDP está a investir cerca de um milhão de euros numa nova sede na Régua e se deixa a imponente sede da antiga Casa do Douro a cair aos bocados? Então, em nome da boa gestão e do interesse público, não era mais justificado dar uma segunda vida a esse edifício histórico e instalar lá todos os serviços relacionados com a vitivinicultura do Douro, poupando assim muito dinheiro e poupando também os lavradores de andarem a peregrinar de serviço em serviço?

E faz alguma sentido que a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro vá gastar centenas de milhares de euros na construção de uma adega no seu campus, quando o Ministério da Agricultura dispõe de uma adega e de várias edifícios de apoio na Quinta de Santa Bárbara (junto ao Pinhão) que pouco ou nada usa? Não fazia sentido entregar a quinta e a adega à UTAD para esta fazer ali, no centro do Douro, o seu campo de experimentação e investigação?

Também é normal que a Viniportugal, a associação interprofissional que, com uma parte das taxas pagas pelos produtores de vinho, promove o vinho português no mundo, traga jornalistas estrangeiros e personalidades com influência juntos dos consumidores e coloque como condição que só os produtores com um paço, uma casa brasonada ou uma quinta com relevância histórica ou paisagística os podem receber? Então os jovens enólogos e produtores que estão fazer belos vinhos em Trás-os-Montes, no Dão, na Bairrada, em Lisboa, no Alentejo, no Douro, na Beira Interior ou nos Açores são párias, só porquem não têm paços e as suas quintas são pequenas vinhas velhas? O mercado global está ávido de vinhos diferentes e alternativos, mas quem promove Portugal continua a promover os mesmos vinhos e os mesmos rostos de sempre.

Mais um exemplo: a maioria dos presidentes das comissões vitivinícolas regionais adora publicar estatísticas a anunciar aumentos vertiginosos nas vendas de vinho, mas oculta o essencial: o preço baixo e a existência de um negócio paralelo de tráfico de uvas e de vinhos. Nunca ninguém se interrogou sobre como é possível que todos os anos as anunciadas quebras de produção raramente se confirmam, pelo menos na dimensão esperada? Toda a gente do sector sabe que entra muito vinho espanhol em Portugal que acaba rotulado com o selo da respectiva denominação de origem. O vinho não fala. Se isso não acontecesse, como seria possível encontrar nas grandes superfícies vinhos tão baratos? 

E podia continuar, mas, se calhar, o melhor mesmo é só falar de coisas boas. A Primavera está mesmo à porta, o mundo é belo e nunca fez mal às costas ser prosmeiro (regionalismo transmontano para classificar um adulador). É muito mais saudável irmos trocando elogios uns com os outros. O que importa é haver muito vinho para bebermos e irmos levando a nossa vidinha da melhor forma que pudermos. Viva o vinho português, que é o melhor do mundo! Vivam as nossas castas, que são as melhores do mundo! Vivam todos os enólogos, produtores, dirigentes que trabalham diariamente para que as nossas castas e os nossos vinhos sejam os melhores do mundo! Viva Portugal! Heróis do mar, nobre povo, nação valente…