Crítica

Há um mundo novo na velha Bracara

Entre o restaurante de moda e a pretensão de bar de vinhos, a cozinha é a mais-valia do Copo A Copo. Com vocação abrangente, técnicas e ingredientes de várias geografias, que ajusta à postura informal, divertida, descontraída e diversificada do espaço.

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Joana Gonçalves
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A fachada com as belas varandas em pedra trabalhada e o granito interior não deixam dúvidas quanto ao passado centenário do edifício, mas ficam-se por aqui as ligações com o património e história envolventes onde se destacam a velha Sé, as fachadas do Largo do Paço ou a biblioteca medieval e jardim de Santa Bárbara.

Uma vez transposta a porta de entrada, abre-se um mundo novo de arquitectura, design e decoração que convocam toda a modernidade e contemporaneidade. Um mundo novo que é também o da cozinha, com propostas que, sem deixarem de convocar a tradição culinária regional, a temperam com técnicas modernas, ingredientes e elementos de outras origens e latitudes.

Cozinha de fusão, há quem diga. Por nós, o juízo será bem menos afirmativo, apontando antes para uma conveniente conjugação entre técnicas e ingredientes, ajustada à postura informal, divertida, descontraída e diversificada do espaço. “Food, Wine-bar, Gourmet”, com “comida rápida e bares de tapas” que “serve almoço, jantar, bebidas e café” — assim se apresente este Copo A Copo, em cujo logótipo o “A” intermédio aparece em posição invertida.

Há um recanto em forma de garrafeira — com oferta diversificada —, um balcão/bar por detrás do qual se vislumbra a cozinha e quatro mesas que acompanham a parede lateral a compor o espaço de entrada. Mais para dentro — para lá do amplo arco granítico, um degrau abaixo e com vista para um pátio interior — está uma segunda salinha, com meia dúzia de mesas e a mesma decoração, moderna e jovial.

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Mesas com elegantes individuais em trança de palma, louças a imitar antiguidade e influências de várias geografias, com a clara preocupação de que não se repitam cores e motivos. Um estilo que está muito de moda e parece cativar!

Também a oferta gastronómica procura cativar com a diversidade e o espírito de convívio, com uma carta fixa que alinha propostas “Para Partilhar” (19), “Para Confortar” (9) e “Para Adoçar (5), a par da “Escolha de Queijos, Enchidos e Presunto” em tábua pequena (10€), média (15€) ou grande (20€).

O que não cativa mesmo nada é a carta de vinhos num impraticável tablet — disseram que está para impressão — de difícil consulta e sem possibilidade de confrontação de preços.

Depois das fatias de pão branco indiferenciado e um azeite (ruim!) com vinagre balsâmico, convocou-se para partilhar o “bacalhau salteado com presunto” (8€), o “Brás de farinheira” (8€) e o “tataki de atum” (10€), numa lista que inclui ainda coisa tão sugestivas como carpaccios (de gambas e de vitela), cogumelos salteados com ovo crocante, ovos rotos, fondant de galinha amarela recheada, escalopes de foie gras ou bochecha de porco preto. Os preços oscilam entre 8 e 18€.

Em porções que se mostraram sempre suficientes para uma degustação tripartida, o bacalhau em lascas saborosas com migas de broa, presunto (salgado) e pimento vermelho, apareceu coroado com um ovo frito e o elemento de elegância e técnica com duas folhas desidratadas de grelos. Nota alta, apesar da secura e excesso sal do presunto (a qualidade do produto conta).

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Já a farinheira que serviu de base ao Brás deixou nota de boa qualidade na conjugação bem conseguida com o ovo, azeitona preta em rodelas e os palitos de batata frita. E mesmo sendo a batata de pacote, o conjunto conseguia mesmo assim apresentar cremosidade e tendência aveludada, a demonstrar técnica e qualidade na execução culinária.

Apenas com produto de qualidade, o tataki de atum apareceu no ponto, combinado com molho agridoce e cebola rocha em vinagreta, e fechou em beleza o capítulo das partilhas.

Para confortar, “risotto de cogumelos com pintada recheada” (15€) e o “bacalhau Degusta à Copo A Copo” (15€), igualmente em doses confortáveis e a mostrar que há na casa uma cozinha que conhece os fundamentos.

Todo o protagonismo para a execução do risotto, com o grão gorduroso, al dente, cogumelo shitake e um toque de frescura (pareceu mais de vinagre que cítrico) que aguçava os sabores. Boa combinação com o rolo de pintada com recheio onde sobressaía a pele crocante. O bacalhau apresentou-se em posta de lombo confitada a decompor-se em lascas húmidas e saborosas, puré de grão, grelos salteados, e o complemento elegante das folhas de grelos e tiras de presunto desidratados. Muito bem (mesmo com o presunto magro e salgado de volta ao ataque).

No que toca a pratos de conforto, a oferta decompõe-se ainda em sugestões de polvo no forno, lombo de alcatra grelhado, jarret de porco assado, peito de frango com molho manteiga e amendoim ou linguini de trufa negra. O preços vão e 11 a 22€, com excepção de um extravagante “T-Bone maturado 740gr” que custa 45€.

Para adoçar, a “mousse de chocolate com After Eight” (4€) e a “tarte de lima merengada” (4€) não convocaram grande entusiasmo, num elenco que oferece também cheese cake de nutella e de caramelo salgado ou Romeu e Julieta com gelado de cabra.

Com um serviço simpático e atencioso, o Copo A Copo pode ter na cozinha uma clara mais-valia, assim cuide da selecção dos produtos e prescinda de soluções de pré-cozinhados facilitistas (ou mesmo preguiçosos). Com o copo meio cheio ou meio vazio entre a vocação de bar de vinhos e de restaurante, esta última parece levar clara vantagem — ou então há que cuidar da lista de vinhos, dos preços e do serviço a copo, por enquanto bem pouco convidativos.