Harvey Weinstein não está nos Óscares, mas eles nunca se livrarão dele

A 90.ª edição dos Óscares voa sobre um ninho de Weinsteins – a cerimónia decorre sob o signo do assédio e a temporada de prémios, das campanhas agressivas às novas regras da Academia, tem a sua marca nos últimos 30 anos.

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O produtor Harvey Weinstein, em 2012, na cerimónia da 84.ª edição dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Kevin Winter/Getty
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À direita, Casey Affleck. O vencedor do Óscar de Melhor Actor em 2017 não estará na cerimónia deste domingo à noite LUSA/PAUL BUCK
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Os preparativos da cerimónia LUSA/JOHN G. MABANGLO
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Esta noite, o grande ausente dos Óscares é a figura mais presente. Harvey Weinstein, o predador, moldou a temporada de prémios como catalisador da revelação da profundidade da violência sobre as mulheres em Hollywood, depois símbolo da desigualdade no mundo. Mas Harvey Weinstein, o produtor, mudou para sempre a forma como se luta por um prémio da Academia, das campanhas agressivas ao tipo de filmes que ganham prémios. Os resultados dos últimos 30 anos têm a sua marca e continuarão a tê-la. Tudo começou com telefones e cassetes VHS, tudo acabou com uma hashtag

Os Óscares são o clímax anual das tensões sociais na cultura – sempre tiveram momentos políticos, e nos últimos anos foram #BlackLivesMatter, #OscarsSoWhite e agora #MeToo. A cerimónia tem valor-espectáculo e valor-político, especialmente visível numa altura em que as duas arenas se cruzam na Casa Branca. E estes 90.ºs prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood carregam o peso de Harvey na sinfonia dos filmes nomeados e sua representação temática, mas também no silêncio dos ausentes devido ao efeito Weinstein e no ruído que, nas últimas décadas, as campanhas agressivas feitas de milhões, rumores e flashes introduziram no mérito dos produtos de uma poderosa indústria. Um rasto de sexo, mentiras e vídeo.

Na noite deste domingo em Los Angeles não é conhecido um código de vestuário (como o activismo de gala dos Globos de Ouro e seus vestidos pretos) ou um statement (como o elenco só de apresentadoras dos prémios do Sindicato dos Actores). O momento #MeToo e o projecto Time’s Up, assertivo no nome e no plano de, a partir de Hollywood, combater o assédio sexual, lá estará com as suas estrelas fundadoras, numa cerimónia que em Portugal é transmitida pela SIC e no canal 700 da Nos. Mas Casey Affleck, o vencedor do Óscar de Melhor Actor em 2017, não estará. Affleck quebra a tradição de entregar a estatueta à Melhor Actriz deste ano porque escolheu não confrontar o público com os seus dois acordos extra-judiciais quanto a acusações de assédio que datam de 2010.

Essa história ressurgiu em 2016, quando da sua nomeação por Manchester by the Sea. O mundo em que Scott Feinberg dizia que estas acusações de assédio “não têm nada a ver com a actuação” porque não são prémios humanitários - “é o Óscar de Melhor Actor”, separava o comentador -  já não existe. Esse tempo acabou. Mas o contexto em que Feinberg o dizia à ABC, há apenas um ano, sobre se o ressurgimento dessas histórias fazia parte de uma campanha de rumores típica dos Óscares, esse mantém-se. 

“Weinstein é o melhor activista de campanha de Óscares do mundo”, postulava o crítico Patrick Goldstein no Los Angeles Times em 2011. O mesmo colunista recordava como “em 2009, Quem quer ser bilionário? foi subitamente atingido por uma onda de histórias que sugeriam que tinham explorado crianças indianas”. Nesse ano, O Leitor, distribuído pela Weinstein Company, competia para Melhor Filme. Há muito que o produtor e distribuidor tinha a fama de montar campanhas de rumores ou de moldar a imagem de um dado concorrente para ganhar vantagem nos Óscares. 

“Quando se é o Billy the Kid, se alguém à nossa volta morre de causas naturais, toda a gente pensa que lhe demos um tiro”, respondia Weinstein em 2009, negando ter difamado o filme de Danny Boyle. Já negara ter espalhado a ideia de que O Resgate do Soldado Ryan só valia pelos seus primeiros 20 minutos, ou de ser responsável pelo aparecimento de militares a criticar Estado de Guerra para prejudicar as hipóteses de Kathryn Bigelow no ano em que promovia febrilmente Sacanas sem Lei, do seu fiel Quentin Tarantino. Não pôde desmentir a manipulação de Robert Wise, em 2003, quando assinou uma carta pré-escrita a elogiar o Gangues de Nova Iorque de Weinstein que depois apareceu sob a forma de anúncio no New York Times.

Quer na distribuidora e produtora Miramax (1979-2005, comprada pela Disney em 1993), quer na Weinstein Co. (2005-2017), ou seja, desde que distribuíram Sexo, Mentiras e Vídeo (1989), de Steven Soderbergh, que os irmãos Weinstein eram vistos como porta-estandartes do cinema independente. E, nos anos 1990, como figuras-chave da indústria e personagens principais dos Óscares. Os Weinstein têm 341 nomeações e 81 vitórias nos prémios da Academia e Harvey tem um Óscar de Melhor Filme como produtor de A Paixão de Shakespeare (1999), que bateu O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg.

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O Óscar por A Paixão de Shakespeare Mike Blake/Reuters

O livro Down and Dirty Pictures - Miramax, Sundance and the rise of independent film, de Peter Biskind, está cheio dessas histórias e, logo no prefácio, a palavra recorrente é “medo”. “Numa indústria que há muito acolheu o mito do tirano carismático, o seu mau comportamento era relativamente fácil de ignorar em prol do que ele conseguia, desde tornar filmes estrangeiros ou filmes independentes desafiantes em êxitos improváveis, até basicamente inventar a indústria multimilionária da temporada de prémios”, postulava Katey Rich em Dezembro na Vanity Fair. “O ecossistema de campanha de Óscares que Weinstein inventou continua mais forte do que nunca, espalhando milhões em gastos de publicidade e gerando crescimento de receitas de bilheteira em toda a indústria.”

Logo em 1931, um anúncio de página inteira aparecia na revista Variety, felicitando Norma Shearer pela sua vitória por A Divorciada e sugerindo, ao lado de uma estatueta do Óscar, que voltaria a ser nomeada pelo filme desse ano, Que Custa um Beijo?. O troféu deixou de poder ser usado, uma de poucas leves regras se foram impondo à medida que surgia a publicidade “à sua consideração” e as muitas formas de cortejar os membros da Academia. Mas 60 anos depois, os Weinstein, que começaram por distribuir filmes-concerto ou pequenos independentes, criavam novos expedientes. 

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Mandavam os filmes, gravados em VHS, a todos os membros da Academia que conseguissem identificar. Tentavam chegar a todos os votantes e mostrar os filmes onde estivessem – como uma sessão no Motion Picture Retirement Home, o lar onde alguns dos membros mais velhos viviam, contou o relações públicas Mark Urman a Biskind. Telefonavam repetidamente para casa dos votantes para lhes lembrar quem era Billy Bob Thornton, para elogiar um dado filme. Em 1994, Pulp Fiction perdeu o Óscar de Melhor Filme para Forrest Gump. Na festa pós-Óscares, Weinstein disse ao Observer que lhe apetecia ir para a frente da casa de Robert Zemeckis, realizador de Forrest Gump, e “ser medieval” – fazendo eco de uma famosa fala de Pulp Fiction

“Naqueles tempos, os estúdios tinham todo o poder sobre os Óscares, porque nenhum dos indies fazia campanha de forma agressiva. A única coisa que fizemos para mudar as regras foi, em vez de nos abstermos e sermos vencidos porque alguém tem mais dinheiro, mais poder, mais influência, montámos uma campanha de guerrilha”, disse Weinstein em Down and Dirty Pictures.

De repente era possível conhecer os actores e os realizadores, havia sessões de perguntas e respostas, festas, leituras de poesia, o reverendo e activista negro Jesse Jackson a elogiar o filme Chocolate. Roberto Benigni (A Vida é Bela) ou Jim Sheridan (O Meu Pé Esquerdo) mudavam-se temporariamente para Los Angeles para estarem disponíveis para conhecer os votantes. Várias publicações, como o New York Times ou a revista New York, começaram a dar conta dos gastos extravagantes dos Weinstein - 4 milhões de euros só na campanha para a vitória de A Paixão de Shakespeare, por exemplo. As netas de Chaplin recebiam os espectadores numa sessão de O Artista. Cerca de 40% das 200 páginas de anúncios sobre os Óscares na Variety eram da Miramax. 

Pouco depois, os estúdios acompanhavam-no. Anos mais tarde, gastavam-se cada vez mais milhões, actores e realizadores passam a estar disponíveis para semanas de entrevistas, festas, jantares e eventos promocionais. As ruas e os media enchem-se de anúncios “for your consideration”. Leonardo DiCaprio foi conhecer o Papa e visitar Obama à Casa Branca.

“Harvey Weinstein mudou o jogo dos prémios de cinema. Ele revolucionou a forma como a indústria promove os seus filmes para prémios – e revolucionou a cobertura mediática da temporada de prémios. Alterou-a completamente com a sua forma de fazer campanha agressiva e eficaz”, resumia o crítico americano Armond White em 2013 na BBC. Hoje, segundo a Variety, uma campanha para os Óscares pode custar entre 2,5 e 8 milhões de euros, faz-se de uma “narrativa” em torno do filme  e a campanha rumo aos Óscares promove “o poder da persuasão acima do poder da história”, como resumiu Spielberg na Hollywood Reporter

Weinstein venceu com O Discurso do Rei e com O Artista em anos consecutivos, tendo estrategos e especialistas externos a trabalhar nessas campanhas - e uma delas era Cheryl Boone Isaacs, que viria a ser presidente da Academia até 2017. Esse organismo, cujos 7258 membros votaram os vencedores desta noite, que depois caminharão para receitas de bilheteira inflacionadas e para melhores salários no futuro, está até hoje a tentar lidar com as mudanças - imprimidas pelos Weinstein, mas também pelos tempos. 

Depois das polémicas dos últimos anos, está a remodelar a sua demografia mas ainda só há 28% de mulheres e 13% não-brancos na Academia. Que adoptou dois códigos de conduta com a marca Weinstein. Em Dezembro de 2017 aprovou novos “Standards of Conduct” que criam condições para expulsões como a de Weinstein, após o escândalo, fixando que “não há lugar na Academia para pessoas que abusam do seu estatuto, poder ou influência de uma forma que viole os padrões reconhecidos de decência” e que “a Academia se opõe firmemente a qualquer forma de abuso, assédio ou discriminação”. O caso Weinstein foi apenas o primeiro de muitos que enfrentaram o tribunal da opinião pública como prelúdio do judicial, e os nomes de outros membros da Academia, como Kevin Spacey, Roman Polanski, Bill Cosby ou Woody Allen ainda pairam sobre ela.

O outro código de conduta remonta a 2003, recomendando contenção na promoção da temporada de prémios e nos eventos em que os membros poderiam estar. Foi visto como resposta à campanha de Harvey por Gangues de Nova Iorque. Visava no fundo, descrevia o New York Times, “evitar que a temporada de Óscares caia ainda mais numa orgia fétida e onerosa de tácticas de lobbying”. 

Dos nomeados deste ano até aos ausentes desta e de cerimónias futuras, o nome mais tóxico de Hollywood deixou uma marca nos comportamentos criminosos e discriminatórios que promove e na forma como a própria indústria se promove. Harvey Weinstein estava a perder fulgor na indústria nos últimos anos, mas como escreveu Katey Rich, “não há nenhuma outra pessoa que paire tanto sobre a temporada de prémios, e provavelmente nunca haverá”.