Os Forced Entertainment estão apanhados numa armadilha

Real Magic marca o regresso de Tim Etchells a Lisboa, depois de ter sido o Artista na Cidade em 2014. Sexta e sábado, no Teatro Maria Matos, um concurso televisivo encurrala-o num loop.

Foto
Hugo Glendinning

Por estes dias, Tim Etchells e os seus Forced Entertainment preparam um novo espectáculo. Terá estreia no final de Abril, em Frankfurt, e vai chamar-se Out of Order. Mas não há muito mais que Etchells esteja pronto a partilhar com o PÚBLICO sobre essa criação. Não porque queira guardar segredo, preservando o potencial máximo de revelação para a assistência, ou por alguma lealdade para com o teatro que lhe abre as portas. Apenas porque, mesmo a menos de dois meses da primeira apresentação, o colectivo inglês ainda não sabe dizer grande coisa sobre o espectáculo. “Estamos a testar uma série de materiais diferentes, mas ainda não sei onde vai assentar”, admite Etchells.

Tudo isto seria irrelevante para falar de Real Magic (que sexta e sábado se apresenta no Teatro Maria Matos), não fosse o mais recente espectáculo do Artista na Cidade 2014, aquele com que regressa a Lisboa, ter sido construído segundo esse mesmo método, de resto familiar para os Forced Entertainment, de escavar no completo desconhecido. No caso de Real Magic, aconteceu que quatro meses antes da estreia em Essen, numa altura em que experimentavam “sem grandes certezas” vários pequenos loops de material, “atraídos por uma ideia de repetição”, Etchells se lembrou de pedir aos actores para improvisarem sobre uma cena “parecida com um concurso televisivo ou um número de cabaré, em que uma pessoa tentava adivinhar aquilo que outra estava a pensar”. “Uma tarefa obviamente impossível”, ri-se. Depois pediu-lhes que fizessem a cena de novo, trocando os papéis.

Desse fragmento acabaria por nascer Real Magic – caramba, quase se poderia até dizer que esse fragmento é Real Magic. Por mais tentativas que fizessem para partir noutras direcções, acabavam por voltar sempre àquela cena particular e “ao conjunto de problemas que ela trazia consigo”. “É uma daquelas peças que insiste em ser feita”, resume. “Tem-se uma ideia que talvez seja excessiva, assustadora ou até ridícula, mas que teima em voltar e nos obriga a lidar com ela. Foi mais ou menos isto que aconteceu.”

Não sendo recomendável ir muito além desta cena a três – a quatro, na verdade, uma vez que Tim Etchells, fora do palco, vai operando o desesperante som de risos e aplausos enlatados que assume um papel fundamental na peça –, para não desvendar o motor de Real Magic, podemos, ainda assim, reportar-nos a um efeito de repetição que traz à mente, mesmo que de forma algo longínqua, a memória de And on the Thousandth Night…, peça “duracional” dos Forced Entertainment, que vive, em parte, do boicote sistemático das histórias contadas em palco – que muitas vezes não terminam e chegam a ser interrompidas aos primeiros segundos.

Real Magic não se estende por várias horas. Para além de que, diz Etchells, “em And on the Thousandth Night… o espectador está sempre na posição de imaginar como a história continuaria ”. Ou seja, brinca-se e joga-se com a promessa e a esperança de cada relato, para logo a seguir promessa e esperança serem feitas em fanicos. Já em Real Magic, nunca se sabendo se A vai conseguir acertar na palavra em que B pensa, a situação torna-se tensa. “Há algo de muito atraente nesse momento de escolha”, diz Etchells. “Por vezes digo às pessoas que em todos os espectáculos dos Forced Entertainment nunca tivemos um momento dramático, que esse tipo de drama não faz parte das nossas criações. Aqui, é quase como se tendo encontrado um momento desses não conseguíssemos parar de o fazer.”

Um pequeno nada

É verdade que Real Magic remete, num primeiro instante, para o ambiente de um concurso televisivo. Mas não fica preso a essa ligação inicial – por muito que a repetição da fórmula, da tensão, da música e das perguntas concorra para uma arquitectura dramática que não é dissonante desse universo particular. Essa curta sequência do jogo, “que devia ter sido um momento insignificante, acaba por transformar-se numa coisa mais significativa e merecedora de atenção”. Num certo sentido, o espectáculo dos Forced Entertainment faz de um pequeno nada algo de muito maior.

Um pequeno nada que ganha uma importância desmesurada é, aliás, um mecanismo próprio dos nossos dias. "A televisão, a publicidade, a Internet e todas essas coisas estão muito afinadas” para “viciar-nos em pequeníssimos gestos e transacções, diz Tim Etchells. Exemplos? “Ver quem retweetou o teu tweet, quantas pessoas gostaram do que puseste no Facebook, passar o dia a consultar a primeira página de um jornal.” A tecnologia, argumenta, especializou-se em tirar partido de um maquinaria muito poderosa e muito viciante que cerca e encurrala cada um de nós.

Real Magic funciona, por isso, como uma armadilha em que os intérpretes se vêem metidos e da qual não conseguem escapar. Ainda que não haja pistas explícitas nesse sentido, Etchells reconhece que o facto de a peça ter sido criada enquanto o "Brexit" era confirmado nas urnas e Trump ascendia ao poder nos Estados Unidos acabou por dar-lhes uma presença fantasma no espectáculo. “Não é coincidência que essas duas coisas pairem sobre esta situação. Estamos metidos num sistema tão pesado, armadilhado e circular que é muito difícil alterar seja o que for.” Mais difícil, pelo menos, do que ir buscar o comando da televisão e mudar de canal.