Opinião

As eleições italianas

O que as declarações de Monti demonstram é que a Europa está hoje muito mais forte e isso acaba por influenciar a própria vida política italiana.

1. Sempre que a Itália vota, a União Europeia treme um pouco. Assim sucederá de novo no próximo domingo. Os transalpinos são politicamente dados à instabilidade e têm-se revelado nos últimos anos eleitoralmente volúveis. Passados os tempos fascistas, os italianos experimentaram uma singular equação político-social marcada pela hegemonia da democracia cristã, que estava simultaneamente ligada ao Vaticano e a várias organizações mafiosas, pelo poderio de um partido comunista com uma pujança eleitoral sem paralelo no Ocidente e pela existência de um Estado permeável a todas as formas de clientelismo e corrupção. Apesar de tal cenário, aparentemente dantesco, a economia do Norte do país revelava uma extraordinária robustez e a criatividade cultural nunca deixou de ser notável. É verdade que pelo meio se viveram os chamados “anos de chumbo”, período negro dominado por guerrilhas urbanas de extrema-esquerda e de extrema-direita responsáveis pela morte de milhares de pessoas.

Essa época terminou com o advento da chamada República dos Juízes, contemporânea da dissolução da utopia comunista no plano internacional, abrindo as portas para um novo regime, o qual deixaria de contar com a presença das duas forças até então dominantes, a Democracia Cristã e o PCI. Os primeiros dividiram-se profundamente, sendo que uma parte significativa do seu eleitorado se deixou seduzir pelo projecto político de inspiração empresarial protagonizado por Sílvio Berlusconi; os segundos encetaram um processo de refundação ideológica profunda que os encaminhou para uma espécie de social-democracia aberta ao contributo do catolicismo progressista e de alguns dos sectores mais pró-europeístas.

O novo quadro político não correspondia, contudo, à tradicional bipolarização entre o centro-esquerda e o centro-direita prevalecente noutros países, já que Berlusconi não se enquadrava em qualquer modelo clássico da direita liberal e conservadora europeia. Personagem dificilmente classificável, o líder da Forza Italia simbolizava e concretizava o triunfo de um projecto singular, onde conviviam o elogio do liberalismo económico, a adopção de mecanismos de sedução telepopulistas, as práticas mais arcaicas de clientelismo e o recurso à corrupção. Sucedia ainda que “Il cavaliere” governava com o apoio de um partido neofascista e de um outro, proveniente do Norte, dotado de um discurso xenófobo, racista e inicialmente secessionista. Era óbvio que estava criada a receita para o desastre. Este acabou por acontecer, ainda que pelo meio a nova esquerda corporizada pelo Partido Democrata tivesse tido oportunidade de governar com um rigor e uma consistência bastante raros na história contemporânea da Itália. Quer com Romano Prodi, quer com Massimo d’Alema, o Partido Democrata agiu com uma moderação extraordinária e motivado pela preocupação de reforçar o compromisso europeu no interior da sociedade italiana. Só que Berlusconi voltou, com a sua feérica demagogia, e, por pressão das instâncias europeias, viu-se a dado passo obrigado a abandonar a chefia do governo. Foi quando surgiu o executivo apartidário liderado por Mario Monti.

Monti é uma figura superior no actual panorama político europeu. Esta semana deu uma entrevista a um órgão de comunicação social francês onde uma vez mais deu provas da sua imensa lucidez analítica. A jornalista que o entrevistou perguntou-lhe, a dada altura, como interpretava ele o facto de num país com uma dívida pública correspondente a 132% do PIB os vários programas eleitorais em confronto apresentassem propostas irrealistas sem que os mercados financeiros especulassem contra a Itália. Monti respondeu de forma clara, enunciando quatro razões para que tal não acontecesse, todas elas ligadas à Europa: 1 - os mercados financeiros sabem que o quantitative easing vai continuar durante pelo menos alguns meses e não será interrompido abruptamente; 2 - os partidos radicais anti-europeus perceberam que deveriam desistir da proposta de abandonar o Euro; 3 - apesar de alguma flexibilidade na aplicação do Pacto de Estabilidade, é sabido que o próximo governo terá de respeitar as regras europeias; 4 - após o Brexit agitou-se o fantasma de uma grave crise do sistema bancário italiano, o que felizmente não veio a acontecer, em grande parte devido à acção do governo dirigido por Gentiloni.

O que estas declarações de Monti demonstram é que a Europa está hoje muito mais forte do que estava há uns anos atrás e isso acaba por influenciar a própria vida política italiana. Na realidade as sondagens apontam para resultados que noutras circunstâncias se considerariam catastróficos: uma vitória da coligação que une o partido de Berlusconi à Liga Norte, a afirmação do movimento Cinco Estrelas como o maior partido político e a derrota do Partido Democrata sob a liderança do pró-europeísta Renzi. O processo europeu evoluiu de tal forma que acaba por diluir o efeito potencialmente trágico de soluções governativas alicerçadas num populismo retórico que acaba por se ver fortemente limitado na prática. Não é só em Itália que isso acontece. Estou, como é óbvio, a lembrar-me do caso grego.

2. É possível termos estima e respeito por personalidades políticas de quem discordamos e em devido tempo combatemos. Pedro Passos Coelho abandonou ontem o Parlamento. Quero tornar público aquilo que já lhe disse em privado. Que o tenho por um homem sério, corajoso e profundamente digno. Registei com agrado as palavras que António Costa lhe dirigiu e os aplausos que os deputados socialistas lhe concederam.