André Gil Mata

A esculpir com a câmara desde 2009

Uma terceira longa-metragem aclamada em Berlim, Drvo, chamou a atenção da imprensa para um cineasta discreto que estudou sob Béla Tarr.

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40 anos. Viu a sua terceira longa-metragem, Drvo, ser alvo de descoberta no Festival de Berlim — para uma parte da cinefilia internacional, um primeiro e entusiasmado contacto Nuno Ferreira Santos

Há oito anos, André Gil Mata tinha uma curta-metragem em carteira — Arca d’Água (2009) — e estava a participar na Berlinale Talents, programa anual de ateliers e seminários para jovens cineastas organizado pelo festival de cinema de Berlim. Este ano, oito anos depois, a sua terceira longa-metragem, Drvo (A Árvore), viu estreia mundial no Forum, a secção paralela do festival que continua a ser um manancial de descobertas para os cinéfilos de todo o mundo e que aposta regularmente em cineastas nacionais. Em anos anteriores, o Forum mostrou Salomé Lamas, Filipa César ou Hugo Vieira da Silva; este ano Gil Mata partilhava espaço com Sandro Aguilar e João Viana.

Mas, do contingente luso em Berlim 2018, foi Drvo que mais chamou a atenção. Jean-Michel Frodon, antigo editor dos Cahiers du Cinéma e actual crítico da revista online Slate, descreveu-o como “um filme em apneia numa natureza nocturna saturada de imagens e de angústias, de uma perturbante potência sensorial”. O programador canadiano Adam Cook, escrevendo no site da plataforma de streaming MUBI, cita a expressão do russo Andrei Tarkovski, “esculpir com o tempo”, a propósito de um espantoso plano inicial que é um tour de force de 15 minutos. Mas pode-se falar disso a respeito de qualquer das três longas do realizador — não é por acaso, cremos, que os seus filmes têm perdido cada vez mais diálogo ou narração para se focarem exclusivamente num trabalho paciente, puramente sensorial, que cria uma redoma, um universo, que sugue o espectador para o seu interior. É claríssimo — sobretudo depois da conversa que tivemos com André Gil Mata antes de Berlim - que o cineasta se expressa com maior à vontade, e com uma enorme determinação, através das imagens que cria.

A experiência da guerra

Para muitos que viram Drvo em Berlim, no entanto, este foi certamente o primeiro contacto com Gil Mata, que veio da programação (do Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira) e da produção (foi um dos fundadores da Bando à Parte de Rodrigo Areias). Mas o realizador, nascido em 1978, tem já viajado um pouco por todo o mundo. A terceira das suas quatro curtas, O Coveiro (2013), foi nomeada pelo MOTELX para o Méliès d’Argent de 2013; a sua longa de estreia, o documentário na primeira pessoa Cativeiro (2012), valeu-lhe o prémio DocAlliance de 2013, e a segunda, Como me Apaixonei por Eva Ras (2016), teve estreia no festival FIDMarseille. Por entre estes projectos, foi a Sarajevo estudar sob Béla Tarr na sua utopia artística Film Factory – e ficou marcado pela sua experiência naquela cidade da antiga Jugoslávia, uma cidade ainda habitada pela presença das marcas dos conflitos à qual, nas palavras do realizador, “não há forma de escapar ainda”. É o “estado de guerra” que percorre, de maneira muito física, Drvo, como se não fosse já possível filmar Sarajevo sem referenciar essa ferida aberta no centro da Europa.

A verdade, no entanto, é que muito de Drvo já se adivinhava nas obras anteriores — a dimensão atmosférica do seu cinema, um lado miniatural, quase obsessivo, extremamente concentrado, uma solidão inescapável, fatalista. Cativeiro já projectava esse ensimesmamento de um modo muito mais pessoal: objecto encerrado nas próprias memórias familiares, era uma experiência tentativa entre o documentário e a autobiografia reflectindo sobre a relação do realizador com a avó moribunda, debatendo-se com o pudor de colocar no grande écrã algo de tão privado.

Rodada praticamente a solo, à imagem de Cativeiro, a segunda longa Como me Apaixonei por Eva Ras nunca sai do espaço de um cinema de Sarajevo que continua a exibir filmes do tempo da federação jugoslava, alternando entre o quotidiano banal da proprietária que vive na cabine de projecção e os filmes que vão sendo mostrados, interpretados pela actriz sérvia Eva Ras (que rodou com Dusan Makavejev ou Emir Kusturica). Objecto integrado na actual estética do “cinema do real”, preso entre ficção e documentário, mas também entre passado e presente, Eva Ras nasceu também da experiência de Sarajevo, mas aqui numa dimensão mais específica e directamente ligada ao cinema.

Com Drvo Gil Mata diz ter tentado um filme “mais universal”, nascido “intuitivamente da experiência de vida lá, do que eu ia sentindo”, e partindo da presença da guerra para filmar o que considera ser “a solidão tremenda" que sentiu nas pessoas que foi conhecendo. Para o realizador, esta terceira longa é também a primeira ficção abertamente construída, rodada com uma equipa mais tradicional — mas é aí que acaba o “convencionalismo” do filme. Em Drvo, apenas existe diálogo nos últimos 15 minutos, a música foi substituída por um cuidadíssimo trabalho de ambientação sonora, e a narrativa parece ter sido eliminada até apenas restar um esqueleto frágil que tanto está na cabeça do espectador como nas imagens de João Ribeiro. Gil Mata cita influências da pintura, do cinema mudo — é inevitável falar de Tarr, Antonioni, Tarkovski ou das experiências mais radicais de Gus van Sant, mas o realizador prefere falar de toda a vivência de cinema que foi absorvendo ao longo da sua vida, esculpida através da câmara.