Editorial

O elogio da ignorância

Há certamente terapias que nasceram no oriente que são aplicadas pela medicina, e estamos todos muito agradecidos por isso – mas a subtileza das palavras não nos pode distrair do essencial.

O governo decidiu viabilizar a criação de uma licenciatura em medicina tradicional chinesa, abrindo caminho ao reconhecimento de praticantes de uma “medicina” que dispensa o conhecimento científico e se baseia em crenças em vez de factos. A linguagem é essencial, como bem sabe o legislador. E por isso vale a pena citar a portaria que autoriza a aprendizagem das “terapêuticas não convencionais” para um “exercício de profissão”. Lá convidam-se, na prática, equiparados a médicos a promover teorias aleatórias graças a uma aprendizagem em que se discutem teorias como “Os seis níveis, as quatro camadas, os três aquecedores”. E é isto que vai concorrer com a prática médica do Sistema Nacional de Saúde.

Há certamente terapias que nasceram no oriente que são aplicadas pela medicina, e estamos todos muito agradecidos por isso – mas a subtileza das palavras não nos pode distrair do essencial. A saúde é e tem de continuar a ser feita por médicos devidamente credenciados, não por charlatães com boa (ou má) vontade que ganham a vida à conta da ignorância alheia. Nada contra o acumulado de sabedoria oriental que deriva para a verdadeira medicina e para a melhoria do bem estar individual, que deve até ser promovida junto dos actuais corpos clínicos para que chegue a mais cidadãos. Mas é importante estar contra todo o somatório de ignorantes e charlatães que promovem vigarices à conta dos incautos. Já agora, porque não uma licenciatura em astrologia? Certamente que a taróloga Maya e o professor Karamba teriam prazer em participar na definição do corpus científico destas matérias.

A sociedade é democrática e cada um é livre de acreditar no que quiser: nos anjos da guarda, nas terapias homeopáticas, nas cartomantes, na herança nigeriana que chega por email, nos extraterrestres que vivem debaixo da terra, nas regressões a vidas passadas, nos duendes, no chá de beterraba ou nos lobisomens. Cada um dos crentes nestas e noutras coisas do género tem todo o direito de gastar o seu dinheiro a consumir e promover estas ideias, desde que elas não contenham ilegalidades. Ou seja, numa sociedade livre cada um tem direito a fazer valer a sua própria irracionalidade, desde que não afecte os outros. O que não se pode esperar é que sejam as entidades oficiais a validar estas formas de exploração privada, porque isso põe em causa a superioridade do sistema científico no qual está construída a nossa civilização. E é tão grave ter Donald Trump a admitir que as vacinas provocam autismo como é ter o governo português a promover oficialmente a ciência as formas de medicina tradicional chinesa.

O maior inimigo de uma sociedade aberta é o legislador ignorante. Esta deriva anti-científica que se tem vindo a intensificar nos últimos anos não prenuncia nada de bom para o futuro. E continua a avolumar-se o paradoxo de vivermos numa sociedade do conhecimento, mas de forma voluntariamente ignorante.