Opinião

A “geringonça” abalada pelo ciúme

Com Rui Rio a servir de musa provocadora na triangulação amorosa, o primeiro-ministro reduziu os protestos ou as exigências dos seus parceiros à esquerda em humores dignos do banal remoque.

As tão badaladas negociações entre o PSD e o PS para chegarem a acordos em matérias de “relevante interesse para o país” não passam de conversa mole, mas trouxeram uma importante novidade para a compreensão da situação política. Mostraram um excitado ciúme por parte do PCP e uma reveladora onda de altivez face ao Governo por parte do Bloco. Ao manifestarem estes trejeitos típicos das namoradinhas despeitadas, Bloco e PCP sublinharam o domínio da inteligência táctica (ou o controlo emocional) por parte do galã António Costa. Com Rui Rio a servir de musa provocadora na triangulação amorosa, o primeiro-ministro reduziu os protestos ou as exigências dos seus parceiros à esquerda em humores dignos do banal remoque. O jogo reequilibrou-se a seu favor. Ou a esquerda se porta como deve ou o Governo e o PS podem transformar estes encontros à porta de casa com o PSD em aventuras relacionais mais intensas e comprometidas. O drama anda pois no ar.

Poderá haver quem considere esta leitura cínica e insista na boa nova segundo a qual os dois principais partidos do arco do poder decidiram pôr de lado os seus interesses imediatos e dedicaram-se a resolver os males do país. Seria bom que assim fosse. Mas não é. Independentemente da seriedade dos negociadores do PSD (Álvaro Amaro e Manuel Castro Almeida) e muito para lá da prometida abertura do Governo desenha-se no horizonte um fórum condenado a discutir o sexo dos anjos. Como dizia Rui Rio depois do seu segundo encontro com o Presidente-Rei, a discussão em torno do pacote da descentralização limitar-se-á a abordar a transferência de competências para as autarquias, que no essencial estão desenhadas e aprovadas pela mão do ministro Eduardo Cabrita. Ao lado desta inglória tarefa, discute-se o próximo ciclo de fundos estruturais, onde os dois partidos hão-de concordar que Portugal não pode perder verbas, que a competitividade é essencial ou que a valorização do território não pode ser esquecida.

Temos por isso um cenário de pechisbeque – bom era vê-los discutir a sustentabilidade da Segurança Social, a Justiça ou até uma descentralização mais ambiciosa que trouxesse de volta a palavra proibida (Regionalização). Um cenário que interessa a Costa para se fazer difícil com a esquerda, que interessa a Rui Rio porque lhe permite respirar no inacreditável conflito com os seus deputados ou no dúbio filme da escolha de Elina Fraga, que interessa ao Presidente-Rei porque lhe permite encontrar um novo território para reinar. Não interessa ao Bloco e ao PCP, mas dá direito a um entretenimento colectivo que, ao criar as tais cenas de ciúme e de despeito, pode ter consequências. Para muita gente, mesmo que em causa esteja a discussão de amendoins, o encontro entre António Costa e Rui Rio mostra o papel de pivot do PS em todo o sistema político. Mostra que os partidos de esquerda podem ser trocados. E mostra que, em questões que vão para lá da distribuição de cheques aos funcionários públicos ou aos pensionistas, Francisco Assis sempre teve razão: em matérias cruciais e sensíveis, o PS prefere o aconchego do PSD do que o de qualquer outro partido.

A confirmação desta verdade chega insuspeita num comunicado do PCP. Para os comunistas, a “chamada ‘descentralização’” não passa de “uma transferência de encargos e desresponsabilização do Estado” (embora o partido tenha uma posição favorável à regionalização) e o desenho do próximo ciclo de fundos estruturais uma mera inventariação de grupos ou entidades para deles beneficiarem. Fica assim “confirmado” que, nestas negociações, o PS e o Governo agem “seguindo as suas opções de classe ao serviço do grande capital” em vez de avançarem nas políticas patrióticas e de esquerda, como “recentemente” se provou com “a rejeição do projecto do PCP sobre a reposição do valor do trabalho extraordinário”. Com esta declaração inflamada, o PCP constata que o seu amado está a redescobrir nos encontros com o PSD a sua verdadeira natureza passional. Parece já não querer mais abraçar as posições conjuntas que os unem, dá sinais de procurar novos devaneios que ameaçam criar o risco da separação.

Mais grave para o PCP e para o Bloco é que esta nova frente anunciada pelo PSD como “um novo relacionamento com o Governo” ameniza a agenda de protestos e de lutas laborais que estavam a emergir. O Bloco mantém as suas exigências sobre a integração dos trabalhadores precários e os sindicatos da órbita do PCP foram particularmente duros nos ataques justificados ao Governo pelos atrasos no pagamento das progressões nas carreiras da função pública. Mas o Governo vai gerindo os processos ao ritmo a que bem entende e dá-se ao luxo de testar no terreno a eventualidade de deixar cair o agravamento da Taxa Social Única para as empresas que abusem da contratação de precários. Depois do barulho do Bloco, o Governo recuou e diz que tudo está em aberto. Não haja dúvidas porém sobre esta certeza: António Costa começa a pensar cada vez mais pela sua própria cabeça e cada vez menos com os espartilhos dos parceiros ao lado. 

É por isso que, mesmo construídas em cima de um castelo de areia, mesmo que condenadas a dar em “pizza”, como dizem os brasileiros, as ditas “negociações” entre o PSD e o Governo abrem uma nova fase no precário jogo de equilíbrios da “geringonça”. Nesta dança em que várias damas espreitam os passos do marialva, António Costa é um peixe dentro da água. Ele vai jurando amor eterno ao Bloco e ao PCP dizendo-lhes que “reformas só a quatro”, ele vai alimentando o ego do PSD abrindo as portas a ociosas conversas de cavalheiros, ele vai criando no ar a ideia de que o Presidente-Rei afinal tem razão e que fazem falta consensos, ele vai semeando na opinião pública a tese que o define como o homem providencial para gerir e equilibrar o poder. Na sua cabeça, e na cabeça dos socialistas, o sonho de reconquistar uma maioria absoluta como a de 2005 tem cada vez mais fundamento.

E os outros, o que lhes acontece? O Bloco e o PCP seguirão as suas vidas sem constrangimentos de maior – a contaminação pela partilha do poder com um partido burguês já terá feito os danos que havia a fazer. Mas o PSD arrisca-se a ficar atado ao papel de droga de substituição. Dividido e dilacerado por dentro, o partido de Rui Rio tenta encontrar no entretenimento dos acordos a sublimação das suas dores. Está pois a perder tempo e a enredar-se na genial encenação de António Costa, que acabará por deixá-lo irreversivelmente nas suas mãos. Mesmo que, no final do dia, haja uma declaração circunstancial de consenso, António Costa ficará sempre a ganhar. Ele ficará sempre na pose de Rudolfo Valentino, o Bloco e o PCP serão casamentos jamais consumados e Rui Rio apenas um dos seus affaires.