Camilo, ao anoitecer da vida

A Longa Noite de Camilo é uma co-produção do Teatro Nacional São João e do TEatroensaio, com texto e encenação de Pedro Estorninho, a revisitar as circunstâncias do suicídio do escritor. Abre um ciclo que inclui também dois recitais e o lançamento de um disco.

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Mário Moutinho é Camilo Nelson Garrido
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Pedro Estorninho, autor e encenador da peça Nelson Garrido
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Cena de A Longa Noite de Camilo Nelson Garrido
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Cena de A Longa Noite de Camilo Nelson Garrido
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Cena de A Longa Noite de Camilo Nelson Garrido
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Cena de A Longa Noite de Camilo Nelson Garrido

Ao longo das próximas três semanas, o Teatro Nacional São João (TNSJ) e o Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, vão acolher um conjunto de iniciativas que visam assinalar a importância do grande romancista, poeta e… dramaturgo Camilo Castelo Branco (1825-1890), sobre cujo nascimento passam 193 anos no próximo dia 16 de Março. 

O Ciclo Camilo Castelo Branco arranca esta quarta-feira com a estreia de A Longa de Noite de Camilo, uma co-produção do TNSJ e do TEatroensaio, que tem texto e encenação de Pedro Estorninho. O espectáculo contará, ainda, na sua última representação, a 3 de Março, com o lançamento de um CD e com um recital a cargo das sopranos Alexandra Bernardo e Tânia Valente e do pianista Bernardo Marques. Serão tocadas peças de Gustavo Romanoff Salvini, primeiro compositor a transpor a poesia de Camilo para a música.

No dia 16 de Março, no TNSJ, assinala-se a data de nascimento do autor com o recital Serões de Camilo, com a soprano Sara Braga Simões e o pianista Rui Martins. O mote será dado por obras que terão feito parte do acervo de leituras de Camilo. Textos da autoria de Almeida Garrett, Lamartine, Victor Hugo e Byron, musicados por Lopes-Graça, Bizet ou Liszt. O programa incluirá, igualmente, a execução de árias de óperas a que o escritor assistiu no Real Teatro de São João: Rigoletto, de Verdi; Os Puritanos, de Bellini; O Barbeiro de Sevilha, de Rossini.

Cegueira sem alívio

A Longa Noite de Camilo concentra-se nos últimos momentos do autor. Camilo começara a ter problemas de visão aos 40 anos. Aos 65, em 1890, o seu último ano, já cegara. Havia procurado cura, sem alívio, junto das maiores sumidades médicas do seu tempo. A sua última esperança seria o Dr. Edmundo de Magalhães Machado (desempenhado por José Topa), que acorreu ao desesperado chamamento de Camilo, numa carta que integra o espectáculo: “Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me?”

A peça de Pedro Estorninho recria, precisamente, esses momentos finais da agonia de Camilo: desde o apelo dirigido ao médico, até à visita deste, finda a qual o escritor se suicida. Ao longo da acção, o estampido de um revólver marca o ritmo, opera transições (de acção, lugar, ou do modo irónico para o sincero), sempre acompanhado de um forte clarão, que reforça esse corte, essa separação.

Nada se mostrará particularmente linear nesta peça. Desde logo, porque Camilo (Mário Moutinho), enquanto protagonista de A Longa Noite, actua como um espectro, no sentido em que está dentro da acção que o conduzirá ao suicídio, mas também se exclui dela, comentando-a, antevendo e rememorando. A personagem de Camilo é, por conseguinte, agente do enredo da peça, mas também constitui uma espécie de narrador e anotador do seu próprio drama, fazendo recuar e avançar a acção do “romance do romancista” (título de uma biografia clássica de Camilo), entrando e saindo dela, a seu bel-prazer. Ou de acordo com a pauta definida por Pedro Estorninho.

Paralelo a esse condão da personagem, está a própria cena, a propósito da qual o encenador nos falou de um “espaço que migra”, desde o concreto do encontro entre Camilo, Ana e o médico, até um “espaço mental” – lugar antinaturalista que concentra o mundo interior de Camilo. Assim, “para não distrair da palavra”, diz Pedro Estorninho, o palco surge sobriamente decorado, com a parcimónia de um simples conjunto de cadeiras brancas. Uma cor que, explica o encenador, permite estabelecer “uma relação de neutralidade”.

De resto, também Ana Plácido (Clara Nogueira), a futura viúva de Camilo – a “Aninhas” dos fugitivos momentos de afecto ou dos muitos tormentos do “Penitente”, como lhe chamou Teixeira de Pascoaes –, se afasta da acção da peça para a comentar, em algo mais do que simples apartes: verdadeiros momentos de desmontagem do tecido da peça. Esse descoser das linhas seguras da acção dramática conhece um puxão adicional noutro conjunto de segmentos da acção.

Três actores (Susana Sá, Ivo Luz, Tiago Regueiras) estão nos preparativos da montagem de um espectáculo em torno da vida e obra de Camilo Castelo Branco. Que é – e não é, ou ainda não é – aquele a que assistimos. Do cruzamento entre o mundo actual e o “espectro” de Camilo, que narra e comenta o seu padecimento “em diferido”, surgem alguns dos efeitos de comicidade e ironia da peça. É, aliás, uma das suas pedras de toque, a convocação desse lado da obra de Camilo.

Mais conhecido pelos seus enredos amorosos, pelo langor das suas considerações, pela melancolia de muito do seu traçado romanesco, Camilo foi um ironista e um praticante exímio da graça. Provam-no muitas das páginas que escreveu. Algumas das quais integram A Longa Noite de Camilo.

A peça de Pedro Estorninho recorre com frequência à vastíssima obra do escritor para lhe ilustrar um ponto de vista, ou simplesmente para lhe demonstrar a amplitude e o rasgo, as tiradas certeiras – “De fora tem a poesia, que pode dar-lhe a imaginação dos entes imaginativos, vulgarmente poetas, que são dessa moeda os mais liberais dissipadores.” (Duas Horas de Leitura)

Leitura de um camiliano

A Longa Noite de Camilo é o texto de um camiliano. E nem seria preciso o autor-encenador indicar-nos essa sua filiação. Bastaria assistir à sua peça e estar atento ao domínio que Pedro Estorninho demonstra ter das várias facetas da escrita (e da vida) de Camilo, um autor capaz de aliar o idealismo romântico à mais severa incapacidade de levar a sério os excessos do romantismo de que foi expoente. Mesmo quando tudo faria imaginar que o autor cederia ao sentimento (um dos cumes da sua sátira tinha por título geral História e Sentimentalismo), Camilo troca as voltas, como faz no Proémio das Noites de Insónia, que comparece em A Longa Noite: “Esta série de livrinhos há-de ser uma cadeia com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flamantes e quebradiços.”

Uma das técnicas de que Camilo mais lançava mão, para emular a “Ideia Nova” dos realistas, era fazer elencos concretos e pormenorizados. Não é por acaso que Eça de Queirós (1845-1900), sem nunca ser mencionado por nome, é designado ao longo da peça por “o outro”, ou “o afrancesado”, numa clara alusão à luta de Camilo pela pureza do idioma português contra as intromissões dos estrangeirismos.

Camilo Castelo Branco foi também dramaturgo, mas Pedro Estorninho afirma claramente: “Interessa-me trazer Camilo ao teatro e não o teatro de Camilo às tábuas. Interessa-me mais o relato jornalístico, a narrativa (se assim o posso dizer) autobiográfica.” É nesse sentido que o autor-encenador optou por convocar para a sua peça, não a dramaturgia de Camilo, mas o drama da sua vida. “Camilo per se”, defende Estorninho, “já é a tragicomédia, a peça. Basta estarmos atentos à sua leitura, ao seu humor, à sátira da sua prosa.”

A Longa Noite de Camilo vai ficar em cena no TeCA, de quarta a sexta-feira, às 21h00, e ao sábado, às 19h00.