Crítica

Uma guitarra a cantar o mistério do mundo

Ben Chasny mostrou em Lisboa muitos mundos: Six Organs of Admittance é um universo em expansão.
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Cada nota nasce como se tivesse mesmo que nascer: aquele fluxo melódico teria que acontecer assim, dedilhado suavemente por Ben Chasny, como uma planta destinada a cumprir-se ao ritmo das estações. Lisboa é do livro profano dos milagres e foi esta peça, do espantoso álbum de 2005 School of the Flower, que fechou o concerto de Six Organs of Admittance desta terça-feira no Teatro Maria Matos.

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“Escrevi esta canção em 2004 na janela da ZDB”, contou. O norte-americano, que se apresentou de frondosos barba e cabelo (disse estar a passar a perigosa “fase Kenny Loggins”), tem uma relação especial com Lisboa e Portugal. A sala do teatro lisboeta estava quase cheia “numa terça-feira”, observou, agradado. E ironizou: “Eu nem às sextas e aos sábados saio.”

Six Organs of Admittance, o projecto criado por Chasny no final dos anos 1990, nunca parou de alargar horizontes: pôs bateria free jazz a esticar as formas da folk, fez rock monástico, ruidoso e psicadélico, criou folk com as tradições da Terra e os sonhos de dela sair. No Maria Matos, ouvimos tudo isto transposto para uma ou duas guitarras e uma ou duas vozes – alguns temas tiveram a cúmplice de longa data Elisa Ambrogio (Magik Markers) na guitarra eléctrica e no canto.

St. Eustace abriu o concerto com as cordas de Chasny a ressoarem na madeira da guitarra enquanto desenhavam melodias circulares e encantatórias – todo o tema é vibração e exaltação rítmica, mesmo sem a bateria do original incluído em Burning the Threshold (2017), o álbum mais recente de Six Organs. Do mesmo disco, Things as they are, que teve Elisa a sublinhar a frase do refrão “angels are necessary”, e Adoration song, com acordes abertos a pedirem acção (“Rise up now!/ So Sun softly speaks”) e citações de filosofia francesa (“Our friend Gaston [Bachelard] says we’re made of lines”), provaram a mestria de Chasny no fabrico de canções em que a guitarra canta com ele o mistério do mundo. Taken by ascent conservou o balanço rock – mesmo sem bateria, a guitarra circular parecia querer chamar tempestades – e acabou com murmúrios de monge budista.

Burning the Threshold deu o pretexto, mas Ben Chasny quis mergulhar na sua já longa discografia (e ainda teve tempo para surpresas, como uma versão de It's a rainy day, sunshine girl, dos Faust). Num recuo a 2007, Shelter from the ash sobreviveu bem sem a vertigem amplificada da versão do disco – Chasny deixou a guitarra trepidar sem freio e Elisa forneceu doses mínimas de dissonância eléctrica. Em Bless your blood (do álbum eléctrico The Sun Awakens, de 2006), entoou palavras em trémulos falsetes, lembrando Robbie Basho, assumida inspiração. Enemies before the light, de Luminous Night (2009), trocou o manto noise por um dedilhar tenso, hiperactivo e nervoso.

Com 20 anos de percurso, Six Organs é o universo da guitarra em expansão: ela pode ser aventureira solitária, em registo fingerpicking como John Fahey, Basho e Jack Rose (amigo que lembrou na comovente Drinking with Jack) o praticaram; transportadora de interrogações (como na transformação de Fire of the mind, dos Coil: “Death is centrifugal/ Solar and logical/ Decadent and symmetrical/ Angels are mathematical/ Angels are bestial/ Man is the animal”); coleccionadora de exotismos e misticismos do Oriente (como se ouviu na “very old songHollow Light Severed Sun, de Dust and Chimes, editado em 2000); ou arma melódica apontada ao coração (Words for two, de School of the Flower, com a voz a seguir as voltas da guitarra, foi um dos momentos altos).

Todos estes mundos couberam na voz e guitarra de Ben Chasny, no palco do Maria Matos. Lisboa fez-lhe e faz-lhe bem, ele faz bem a Lisboa.