Brandon Wong/Unsplash
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Megafone

Só tens um mês de vida. E agora?

Vivemos de tal forma que somamos pequenos problemas. A vida é tão rápida e é tudo tão aparentemente intenso que as emoções são passageiras e, pelo caminho, vamos deixando partes de nós e dos que fizeram parte de nós

A doença, tal como a morte, não pede licença para entrar.

Podemos prever o aparecimento de ambas com mais ou menos exactidão ou, pelo menos, é o que a ciência e a medicina prometem e estudam todos os dias. Uma pode ser, aliás, consequência da outra.

A cada minuto desenvolvem-se novos algoritmos, que prometem contar a história de cada um de nós sem que a vivamos: que doenças vamos ter, quando, como e em que dia vamos morrer. Pelo menos o objectivo desta ficção ainda científica da vida real é esse e está na génese daquilo que é a medicina personalizada — e que promete revolucionar a medicina tal como a conhecemos.

A doença mete medo a qualquer um de nós e a verdade é que não necessita ser terminal, ou ter o cunho da temível palavra "cancro", para que fiquemos apreensivos. Mas até conhecermos esta realidade vivemos naturalmente, sem pensarmos nisso.

Ao dia 31 de Dezembro de cada ano lembramo-nos de colocar a saúde nos nossos desejos quando nos restantes dias do ano só nos lembramos dela quando recebemos a SMS daquela consulta anual ou temos que marcar presença na medicina do trabalho.

Até que um dia a doença bate à porta sem pedir licença.

Foi o que aconteceu com Holly Butcher, a australiana que faleceu em Janeiro, vítima de sarcoma de Ewing, e que nos deixou uma carta que se tornou viral em todo o mundo.

"Compreender e aceitar a morte aos 26 anos é algo estranho", começou por escrever. "Os dias passam e nós esperamos que eles continuem vindo. Eu sempre imaginei que envelheceria com muitas rugas, provavelmente causadas pelos meus filhos. Planeava construir a minha família com o amor da minha vida. Esta é uma coisa da vida: é frágil, preciosa e imprevisível. Só quero que as pessoas parem de se preocupar com as tensões insignificantes na vida e tentem lembrar-se que todos nós temos o mesmo destino depois disso tudo. Neste momento, se está a reclamar por um problema pequeno, pense que alguém está efectivamente a enfrentar um problema. Agradeça o seu pequeno problema."

Tal como Holly, vimos no mês de Fevereiro outra jovem casar-se nos últimos suspiros daevida.

Isto dá que pensar. Se nos anunciassem que temos pouco tempo de vida, o que faríamos? Que problemas iríamos querer solucionar? O que seria mais importante?

E é aqui que a humanidade e a fé num Deus maior, mesmo aquele Deus no qual nunca acreditamos durante uma vida inteira, vem ao de cima. Isso junto do desejo de paz com aqueles que amamos.

Deve ser muito duro saber que o tempo está a terminar e vivemos uma vida inteira sem olhar para o essencial.

Vivemos de tal forma que somamos pequenos problemas. A vida é tão rápida e é tudo tão aparentemente intenso que as emoções são passageiras e, pelo caminho, vamos deixando partes de nós e dos que fizeram parte de nós, até que um dia vemos que o nosso tempo já não chega para solucionar as partes que perdemos porque o comando das nossas vidas, cada vez menos, tem o botão pausa.

Não paramos para resolver os grandes problemas que fomos acumulando porque o nosso foco é estimulado para o acessório, não para o essencial. Não paramos, nem sequer, para dizer "amo-te" aos que são os verdadeiros pilares da nossa vida e, no fim, vão ser tudo o que queremos ter do nosso lado.