Reportagem

“Cresce-lhes a cabeça e a barriga mas a carne é zero”

A seca extrema que se prolonga há quase três anos na planície alentejana está a extinguir o que resta do celeiro de Portugal. Em vez de searas de sequeiro surgem as plantações de regadio e hoje a cultura do trigo é apenas residual.

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O cereal, cultura associada ao sequeiro e um dos alimentos vitais para os efectivos pecuários, “está no limite” Rui Gaudêncio

É uma observação constrangedora aquela que se colhe da passagem da área de regadio nas terras férteis dos barros de Beja, para a extensa zona de sequeiro da região do Campo Branco, que abrange parte dos concelhos de Castro Verde, Mértola, Aljustrel, Ourique, Beja e Almodôvar. 

O contraste é “profundamente desolador” na área periférica do Alqueva, reconhece Francisco Palma, agricultor e presidente da Associação de Agricultores do Baixo Alentejo (AABA). Concentra a sua preocupação nos produtores pecuários que estão a esgotar as reservas de alimentos para os animais e também as suas capacidades financeiras para as suprir. “Há mais de seis meses que este é um cenário crítico” acrescenta o dirigente associativo.

O cereal, cultura associada ao sequeiro e um dos alimentos vitais para os efectivos pecuários, “está no limite”. E cada dia sem chuva representa uma “redução do produto final”, observa Francisco Palma. Mas em Alqueva as circunstâncias têm-se revelado magníficas para todo o tipo de plantações que ali se praticam. “Estamos no final de Fevereiro e ainda se observam azeitonas verdes nas oliveiras” assinala o presidente da AABA.

A cerca de 30 quilómetros da área regada, outro agricultor, Carlos Cerqueira, debate-se com a incerteza do que possa vir a colher de cereal nos 250 hectares que plantou em Outubro. O trigo, nesta altura do ano, “deveria estar pela cintura, mas não passa do tornozelo” explica ao PÚBLICO. “As plantas estão aflitas e adiantam o ciclo vegetativo para espigar” prossegue o jovem agricultor, 44 anos, engenheiro zootécnico, que muito deseja “2 ou 3 litros de chuva, por metro quadrado. Era uma boa ajuda” não para a produção de grão, mas para 550 ovelhas e 80 bovinos que nesta altura do ano deveriam consumir pasto natural. Os animais, com a escassez de alimento, “cresce-lhes a cabeça e a barriga mas a carne é zero” constata o agricultor, admitindo que se não chover entretanto, terá de se “desfazer de 300 cabeças de gado”.

Apela à providência divina para que ainda seja possível aproveitar da seara “alguma coisa” para alimentar os animais. Se não for possível obter grão, pelo menos palha e feno.

A cultura de trigo na região do Campo Branco, tornou-se problemática, pois “só em anos agrícolas bons é que vendemos algum grão” salienta Carlos Cerqueira que conduz o PÚBLICO a uma extensão de terra branca rodeada de matos rasteiros e azinheiras, também elas debilitadas pelo stress hídrico. “Aqui, plantei também em Outubro, ervilhas” para garantir parte do alimento dos animais quando chegasse o próximo mês de Agosto, assinalou o agricultor, convidando-nos a encontrar uma única planta na sementeira. Por mais aturada que fosse a observação, apenas se vislumbrava pó branco. 

Esta constatação conduziu a um raciocínio óbvio: “Se os animais comessem apenas o que a natureza dá no Campo Branco não sobreviveriam” afirma o agricultor. O aspecto do relevo na exploração é equivalente ao que surge em Setembro, no final do Verão.

No montado das azinheiras as folhas estão encarquilhadas, sinal de que precisam de água. Os efeitos da carência hídrica não são imediatos: dentro de dois ou três anos aparecem as viroses e as doenças que matam as árvores.

Perspectiva-se chuva para esta semana. “Deus queira que seja verdade”, apela Carlos Cerqueira, mas com pouca convicção extensiva às ajudas que o Governo tem anunciado para debelar os efeitos da seca: “Ficam muito aquém das expectativas”, acentua, garantindo que “não há apoio para alimentar o gado”. 

As ajudas que são prestadas aos agricultores do Campo Branco “incidem sobre as sementeiras que são feitas para alimentar a avifauna” uma contribuição pública para assegurar preservação da biodiversidade.  

Fazendo um paralelismo com a região de Beja, que recebe água do Alqueva, o agricultor ironiza com o contraste: “É um condomínio de luxo ao lado de um bairro de lata”. Mesmo assim, as práticas culturais no Campo Branco “são amigas do ambiente ao contrário do olival intensivo” que, na sua opinião, não trarão nada de bom, seja à preservação dos solos, ao meio ambiente e até à saúde pública, dado o uso maciço de fitofármacos (designação genérica para os vários produtos químicos usados na agricultura).

No espaço de uma década, a área subtraída aos cereais de sequeiro, na zona dos barros de Beja, cerca de 70 mil hectares, foi ocupada com olivais, amendoais e vinha. “É árvores por todo o lado” observa Francisco Palma, criticando a estratégia seguida na proliferação das monoculturas intensivas de regadio, elaborada “em função dos interesses dos empresários espanhóis” e assente em investimentos de grandes empresas “com base em negócios financeiros que descuram o equilíbrio ambiental”.

O dirigente da AABA disse ser difícil combater a fileira do azeite na zona do Alqueva, frisando que o rendimento da azeitona varia entre as 10 e as 15 toneladas por hectare que equivale a 6/7 mil euros de facturação, embora cerca de metade sejam custos.

O rendimento proporcionado pelas culturas arvenses não pode ser equiparado aos do olival. No cereal cada hectare pode render entre 3 a 4 toneladas, com um valor que pode variar entre 150 a 250 euros/tonelada.

As circunstâncias têm-se revelado “magníficas” para o olival. O azeite está em alta, as condições atmosféricas têm sido muito favoráveis e até a colheita está a ter sucesso pelos dias de sol que facilitam os trabalhos.

Mas a médio prazo até a garantia de água do Alqueva pode estar em causa. Do outro lado da fronteira, as 34 barragens na bacia do Guadiana apresentam uma reserva de 4,1 mil hectómetros cúbicos de água, 43% da capacidade máxima de armazenamento global, que é de 9,4 mil hectómetros cúbicos.

Em território português, as nove barragens na bacia do Guadiana armazenam 2,9 mil hectómetros cúbicos. Destes, cerca de mil hectómetros cúbicos são caudal morto e pelo menos 200 milhões de metros cúbicos perder-se-ão na evapotranspiração, sem contar com o caudal ecológico que tem de ser assegurado no rio em território português.