Editorial

O silêncio do Governo sobre a seca é um perigo

A ameaça da seca é real e não se percebe por que razão o Governo não a traz para o primeiro plano das suas prioridades políticas.

Adivinhar o clima não é uma especialidade dos políticos. Mas, perante a seca que se agrava, o Governo comporta-se com a tranquilidade do feiticeiro após a dança da chuva. Em Janeiro, o ministro do Ambiente, José Pedro Matos Fernandes, dizia que a precipitação acumulada e a que havia de cair permitiriam ao país "chegar bem até Abril, sem sobressaltos". A sua falta de talento para a meteorologia deu no que deu. O problema agravou-se e quase um décimo do território nacional está em seca extrema numa época em que habitualmente costuma chover com abundância.  

O excesso de confiança do Governo é um perigo. Perante a incerteza, está mais do que na hora de fazer soar os alarmes. Os agricultores, que sentem antes de todos as agruras da falta de água, já vieram a público dar conta do drama com que se confrontam e o seu apelo devia bastar para que o Governo convocasse o país para a possibilidade de algo correr muito mal até ao Verão. Não estamos a falar apenas de incêndios. O risco de faltar água para abastecimento humano é real e a possibilidade de haver culturas condenadas a morrer por falta de água não pode ser descurada. O que está em causa é uma ameaça  gravíssima.

Para já, não faz sentido instaurar um alarmismo desnecessário. A expectativa do ministro do Ambiente, ainda pode ser concretizada. Mas face aos dados disponíveis e à realidade concreta de regiões como Trás-os-Montes ou o Baixo Alentejo, pergunta-se por que não se lançaram já campanhas de poupança de água. Ou porque não se discute legislação que restrinja o uso de água para regar jardins, lavar automóveis ou encher piscinas. E como não há tempo a perder, era bom que os partidos que agora discutem o próximo ciclo de fundos europeus definissem um plano de actuação para enfrentar as alterações climáticas que ameaçam transformar uma parte significativa do território nacional num deserto.

A seca coloca ao país um desafio que não pode mais ser adiado. Como se provou no desastre dos fogos no ano passado, o pior que pode fazer perante os problemas é acreditar que eles se resolvem por si próprios. Quanto mais cedo de atacar o problema, melhores resultados se poderão conseguir. O silêncio conformado do Governo perante o que se está a passar não é apenas um factor de preocupação: é também um indício de irresponsabilidade.