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Sei Miguel/Manuel Roberto
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Pormenor do Livro das Imagens, de Sei Miguel Manuel Roberto
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Pormenor do Livro das Imagens, de Sei Miguel Manuel Roberto

No jazz como no desenho, Sei Miguel erra sem errar

Antes do músico, já havia o desenhador. "Livro das Imagens" mostra uma outra faceta do trompetista de jazz Sei Miguel. Sem lápis ou borracha, sem correcções. Mais virão a caminho

Antes do Sei Miguel músico, do Sei Miguel do trompete, do Sei Miguel do jazz, existiu o Sei Miguel do desenho, um outro prodígio adolescente que aos 15 anos já tinha obra publicada. “Fazia ilustração, banda desenhada, trabalhava quase a nível profissional”, conta ao P3 o compositor nascido em 1961 em Paris, cidade para onde voltou depois da infância passada no Brasil.  

Corriam os anos 70 e Sei Miguel, regressado à capital francesa, estava longe de pensar que o aparo e a tinta da china ganhariam outro lugar na sua vida. E que, com a chegada a Portugal nos anos 80, o papel das duas artes na sua vida se iria inverter. “Eu realmente”, reforça, “comecei por desenhar muito a sério antes de achar que iria fazer música”.

Aterrado em Lisboa, já “resolvido” no desenho, atira-se, autodidacta, para a música, que sempre consumira, ávido ouvinte atento. “Nunca parei de desenhar, mas deixei de querer expor isso cá para fora”, conta. Até agora, pelo menos com a força de uma obra impressa como esta. Falamos do Livro das Imagens, uma antologia de desenhos de Sei Miguel que no final do ano passado chegou às nossas mãos por intermédio da editora O Homem do Saco em colaboração com a Marmita de Gigante.

O livro apresenta 72 desenhos feitos de 2012 a 2015 com “uma caneta extremamente banal”, a Uni-ball, uma ferramenta mais acessível do que a sua amada tinta da china. E é, no fundo, a “transposição para livro” dos caderninhos que o acompanharam durante esses anos. As ilustrações seguem a ordem cronológica com que foram feitos e, com excepção de quatro ou cinco pequenas destruições, representam exactamente o que saiu do pulso de Sei Miguel, que se atira para o papel em branco sempre com “uma má ideia”. “É o contrário da música”, explica. “Quando eu trabalho em música parto de uma boa ideia e depois é que começam os problemas; aqui, parto de uma ideia difusa que depois é que se torna clara.”

Assim surgem personagens, algumas de momentos biográficos, outras da nossa história (há Narciso, Leda, o diabo e típicos suburbanos), com títulos que dão pequenas pistas para o que vemos, tanto com referências gráficas à banda desenhada como ao mais absoluto minimalismo. E que convidam à imaginação. Na verdade, as razões das suas criações ultrapassam o desenhador. “O meu único propósito é fazer um bom desenho”, responde. E, para Sei Miguel, os dois poemas de Gastão Cruz que arrancam o livro dão o tom. “Eu queria alguém que indicasse numa introdução que o livro era para ter uma leiura poética. É para ser lido, como se fossem pequenas histórias ou poemas.”

Não há-de ficar por aqui. Incetivado pelo editor e pela companheira, a pintora e música Fala Mariam, mais livros virão, numa viagem até aos anos 70, quem sabe mais quatro ou cinco. Guardados tem mais de dois mil desenhos. “Isto não é um hobby, não ponho cá para fora por acaso”, ressalva Sei, para quem a cultura gráfica actual não é a melhor. “O meu grande medo, e se calhar por isso é que demorei tanto tempo, é que as pessoas pensassem que estou a pôr livros cá fora por desfastio, porque estou velho.”

É, conclui, um "trabalho sério", de "todos os dias", ou dos dias em que a música o deixa desenhar. “Por um lado”, diz, a meio da conversa a quem o escuta, “é pena não ver os originais porque são absolutamente idênticos”. Sim? “É vaidade minha: não há a mínima correcção, é preto no branco, o que implicou às vezes estar no mesmo desenho muitos, muitos dias.” E, de facto, folheando o livro, não se repara numa única correcção. O traço fino, negro, é preciso, resistente. “Não há lápis, não há borracha”, afiança Sei. Hoje, já não faz estudos, apenas ataca a folha e deixa-se falhar, sem nunca falhar, sem nunca se saber. Se há asneira, há asneira — há que aproveitá-la, ser errante. Herança da vida musical? “Estou habituado a lidar com o erro, sou trompetista de jazz.”