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Megafone

De “La Casa de Papel” às hormonas

Acabar um episódio, uma temporada ou uma série provoca em nós o sentimento de missão cumprida, a dopamina aumenta e incentiva a continuar a ver mais e mais, e a resposta hormonal da CRH motiva-nos a estar alerta de episódio em episódio

Casa da Moeda espanhola, oito ladrões, um professor, Berlin, Rio ou Tókyo. Palavras suficientes para muitos identificarem a série a que me refiro — La Casa de Papel. Em menos de nada tornou-se num caso de sucesso improvável de 2018. Será o sotaque espanhol, o professor, ou simplesmente as hormonas, que nos fazem ver cinco episódios seguidos?

Isso mesmo, as hormonas. Nada disto é novo, e este não é o primeiro, nem será o último, caso de série que se torna viral, e a resposta pode estar nas hormonas, essas comandantes das nossas respostas enquanto ser humano, até na decisão de clicar no play do próximo episódio ou do "Vá, só mais este", um episódio após o outro.

Os produtores de séries aprenderam muito bem esta fórmula secreta para tornar séries virais e sabem como nos manter viciados. Mas será que sabem ao certo como o fazem?

O que acontece é que, quando estamos a ver um episódio, a ansiedade de não saber o que vai acontecer a seguir provoca a produção em excesso de CRH — a hormona responsável pela libertação de corticotropina —, a grande moderadora de outras hormonas relacionadas com o stress e a ansiedade.

Segunda-feira à noite, 35 minutos passados de um episódio de La Casa de Papel (ou qualquer outra série), já estamos a acusar cansaço e sabemos que o dia seguinte é de trabalho, mas algo inesperado acontece: uma arma apontada àquela personagem super relevante — BINGO! —, a CRH actua e o nosso corpo fica alerta, pois teve uma ordem de "Atenção, vem aí algo importante". Como resposta a esta (falsa) situação de stress, ignora o sono e qualquer cansaço, o que nos faz acreditar ser capazes de ver mais quantos episódios venham a seguir.

Mas não é só! Existe ainda todo um sentimento de felicidade e compensação associado. Quantas vezes partilhamos e comparamos o episódio em que vamos com o colega trabalho, o amigo de longa data ou simplesmente pelas redes sociais dessa vida? É aqui que há o que chamamos de cascata neuroquímica, entre a serotonina, associada à saciedade, e a dopamina, a conhecida hormona do prazer.

Acabar um episódio, uma temporada ou uma série, provoca em nós o sentimento de missão cumprida, a dopamina aumenta e incentiva a continuar a ver mais e mais, e a resposta hormonal da CRH motiva-nos a estar alerta de episódio em episódio, criando este fascinante loop (ou então sou só eu que me fascino com o poder das hormonas) entre ansiedade, felicidade, recompensação, ansiedade, felicidade… Até ao final das mil e uma temporadas.

Claro que não somos todos iguais e as séries que a uns provocam estas reacções a outros podem simplesmente provocar ainda mais sono. Mas, no final das contas, pode ser este balanço entre hormonas, o gosto pessoal, desafio social e ainda, claro, a qualidade de produção de uma série que a torna um sucesso de noitadas por esses sofás fora.