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Putin impõe trégua diária que permita tirar civis de Ghouta

Quando surgem novos relatos do uso de armas químicas pelo regime de Assad, a Rússia cede à pressão internacional e impõe uma trégua na região que tem estado a ser esmagada por uma ofensiva impiedosa.

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Crianças que terão sido vítimas de armas químicas na vila de Al-Shifunieh, na região de Ghouta Oriental MOHAMMED BADRA/EPA
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Pelo menos uma criança terá morrido vítima de ataques químicos MOHAMMED BADRA/EPA

O Presidente russo, Vladimir Putin, ordenou a aplicação imediata de um cessar-fogo diário a partir de terça-feira na região de Ghouta e a criação de “um corredor humanitário” que permita “a saída de civis”, anunciou o ministro da Defesa de Moscovo. Sergei Shoigu assegurou que o exército de Bashar Al-Assad vai suspender os ataques durante estas cinco horas diárias.

Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, está a ser alvo de uma intensa ofensiva das forças do regime de Bashar al-Assad, apoiado pelos seus aliados russos, há cerca de uma semana, em que já morreram bem mais do que 500 pessoas. Esta segunda-feira surgiram denúncias de que estarão a ser usadas armadas químicas – apareceram várias pessoas com sintomas de terem sido expostas a bombas com cloro. 

Pelo menos seis mulheres e quatro crianças têm sintomas de exposição a cloro, diz a Sociedade Médica Síria-Americana. “Este ataque marca o 197.º uso de armas químicas na Síria desde 2011 e o sétimo em 2018”, diz esta organização, presente em Ghouta.

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— António Guterres (@antonioguterres) February 26, 2018 ">

Os sintomas de exposição ao cloro incluem dificuldade em respiração, grande irritação das membranas mucosas, irritação dos olhos e tonturas. Várias pessoas, muitas delas crianças e mulheres, sentiram dificuldades respiratórias, dizem os Capacetes Brancos – a defesa civil síria, que está a ser alvo de uma campanha de desacreditação, nas redes sociais e na televisão RT (televisão por cabo internacional russa), em que é posta em causa a sua independência por receberem financiamento de governos ocidentais e por actuarem em áreas da oposição armada a Assad, alegadamente nas mãos de “terroristas”.

Apesar de, no sábado, ter sido aprovada uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas que impõe um cessar-fogo de 30 dias em toda a Síria, para permitir a retiradas dos feridos e doentes das zonas cercadas pelas forças do Presidente sírio Bashar Al-Assad e a entrada de apoio humanitário, os bombardeamentos continuaram.

Isto acontece porque o texto aprovado dá ao regime de Damasco o direito a continuar a atacar zonas controladas por “terroristas” ligados à Al-Qaeda e ao Daesh. Várias forças da oposição armada têm hoje em dia inspiração islamista e ligações a grupos como a Al-Qaeda.

O cessar-fogo ordenado agora por Putin deve começar na terça-feira e vigorar entre as 9h e as 14h locais, anunciou Shoigu, citado pela agência RIA. A ONU diz ter uma coluna humanitária pronta a avançar, logo que estejam reunidas as condições de segurança necessárias. "As Nações Unidas estão mobilizadas para enviar ajuda para várias áreas de Ghouta Oriental, e a fazer centenas de evacuações médicas", assegurou Linda Tom, porta-voz dos serviços humanitários em Damasco, citada pela Reuters. Há pelo menos 750 pessoas em Ghouta a precisarem de ser de lá retiradas urgentemente.

O ministro russo da Defesa russo não entrou em pormenores sobre a opinião dos seus aliados neste conflito – Assad, o Irão e a milícia xiita libanesa Hezbollah – sobre o cessar-fogo e o corredor humanitário. Parece antes ter imposto a sua vontade.

Antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, tinha protestado contra as acusações do uso de armas químicas em Ghouta, dizendo que eram falsas e não passavam de “provocações”, destinadas a sabotar o cessar-fogo.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, estará em Moscovo na terça-feira. E o Presidente francês, Emmanuel Macron, atacou outra frente: telefonou ao seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, para lhe recordar que a resolução aprovada pelo Conselho de Segurança se aplica a toda a Síria e, por isso, também a Afrin, a região curda que forças turcas estão a atacar desde Janeiro.

António Guterres tentou usar o seu poder de influência a partir de Genebra: “Ghouta Oriental não pode esperar, é mais do que tempo de parar este Inferno na Terra”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, numa reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, apelando a que o cessar-fogo seja posto em prática. 

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