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Corbyn defende união aduaneira com a UE e encosta May à parede

Líder trabalhista diz que o Reino Unido deve estabelecer uma união aduaneira permanente com Bruxelas depois de consumado o "Brexit". Posição coloca trabalhistas ao lado dos conservadores rebeldes.

Corbyn proferiu discurso em Coventry onde clarificou a sua posição relativamente ao "Brexit"
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Corbyn proferiu discurso em Coventry onde clarificou a sua posição relativamente ao "Brexit" LUSA/WILL OLIVER

Jeremy Corbyn defende o estabelecimento de uma união aduaneira permanente entre o Reino Unido e a União Europeia depois de consumado o “Brexit”, a partir de Março de 2019 - embora apenas se Londres puder ter "uma palavra a dizer" nos acordos de comércio estabelecidos pela UE.

Esta nova posição do líder trabalhista está a ser vista como mais um obstáculo político que a primeira-ministra britânica, Theresa May, terá de ultrapassar no que resta das negociações para a saída do Reino Unido do bloco europeu.

Nesta segunda-feira, Corbyn proferiu um discurso na cidade de Coventry onde clarificou a posição dos trabalhistas sobre o “Brexit” e onde traçou as linhas que separam a sua visão com a do Governo britânico. Foi a primeira vez que discursou sobre o "Brexit" no último ano, e o que disse coloca o Labour ao lado dos conservadores que se opõem à estratégia de May. 

“O Partido Trabalhista tentará negociar uma nova união aduaneira completa entre o Reino Unido e a União Europeia para garantir que não serão cobradas taxas no comércio com a Europa e para evitar uma fronteira rígida com a Irlanda do Norte”, afirmou Corbyn. Anteriormente, os trabalhistas defenderam este tipo de acordo mas só durante o período de transição que se seguirá ao final das negociações no próximo ano.

Esta intenção marca uma clara diferença com May relativamente à questão. A primeira-ministra tinha já descartado qualquer acordo sobre uma união aduaneira pois isso impediria Londres de alcançar acordos comerciais com outros países fora da UE - como a China e Índia.

“O Governo não se vai juntar a uma união aduaneira. Queremos ter liberdade para assinar os nossos próprios acordos comerciais”, disse um porta-voz do Governo britânico à Reuters em reacção à intervenção de Corbyn.  

Esta viragem do líder trabalhista coloca a primeira-ministra em terreno ainda mais instável dentro de casa. No Reino Unido já se prevê uma nova fase nas negociações sobre o “Brexit” e fala-se mesmo numa possível queda do Governo liderado por May.

Isto porque Corbyn lançou no discurso em Coventry uma clara indicação aos deputados trabalhistas para se aliarem aos conservadores rebeldes nas votações no Parlamento sobre o acordo com Bruxelas. O cenário de novas derrotas para May tornou-se mais plausível.

“Apelo aos deputados de todos os partidos que estejam preparados para colocar o interesse das pessoas antes das fantasias ideológicas”, afirmou Corbyn, acusando os tories de não terem “nenhum plano económico nem para o ‘Brexit’”.  

Por outro lado, Corbyn deixou a indicação de que, tal como May, não defende a continuidade no mercado único, o que pode deixar alguns dos seus próprios colegas de partido insatisfeitos – no domingo, 80 figuras trabalhistas apelaram a que o país se mantenha no mercado único.

“O Partido Trabalhista vai procurar um acordo final que garanta acesso completo aos mercados europeus e que mantenha os benefícios do mercado único e da união aduaneira, sem novos impedimentos ao comércio nem redução nos direitos, padrões e protecções”, defendeu Corbyn. Esta proposta de cooperação próxima de Londres com a UE mantendo todos os benefícios também não deverá ser bem recebida em Bruxelas.

Sexta-feira Theresa May deverá explicar a sua estratégia para o “Brexit”. É possível que utilize o discurso para reagir à tomada de posição de Corbyn.

Porém, os conservadores começaram imediatamente a criticar o discurso do líder trabalhista, acusando-o de “trair” os milhões de eleitores que votaram pela saída do Reino Unido da UE.

“A política confusa do Labour será má para os empregos e salários, vai impedir-nos de assinar acordos comerciais completos, e não respeita o resultado do referendo”, disse o secretário de Estado para o Comércio Internacional, Liam Fox, citado pela BBC

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