Crítica

Uma vida em pinturas

Romance onde se misturam pinturas, a vida de pintores, a crónica de uma família, e a descrição da aprendizagem sentimental de uma mulher que busca refúgio nos museus.

Cada um dos onze capítulos que acabam por compôr o romance  é um olhar sobre a história da pintura
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Cada um dos onze capítulos que acabam por compôr o romance é um olhar sobre a história da pintura

Curiosamente, e em menos de dois meses, foram publicados (traduzidos do castelhano) dois romances que têm a criação plástica como tema — e ambos recorrem a materiais insólitos, aparentemente díspares, para contarem uma história: Irmão de Gelo (Alfaguara), da catalã Alicia Kopf, e este O Nervo Ótico, da argentina María Gainza (n. 1975). A obra de arte, pictórica ou outra, não surge nestes romances como cenário ou como objecto a ser descrito, mas como caminho de procura de um método (o artístico) que leve as protagonistas a encontrar um sentido para as suas vidas, pois como refere a narradora de O Nervo Ótico: “escrevemos uma coisa para contar outra”.

A escritora argentina fez de O Nervo Ótico um exercício literário em forma de romance onde se misturam pinturas, episódios da vida de pintores, a crónica íntima da família da narradora (que em tempos foi bastante rica), e a descrição de um percurso de aprendizagem sentimental de uma jovem mulher que usa os museus de Bueno Aires como uma espécie de refúgio existencial: “o meu instinto de sobrevivência leva-me sempre aos museus, como na guerra as pessoas corriam para os abrigos anti-bombas”. María Gainza parte dessas pinturas que a narradora visita amiúde, e transforma-as em textos, o que de certa forma as liberta de uma presença algo redutora das imagens — mas ao fazê-lo, reconstrói-as; é esse aproveitamento da possibilidade da poética que faz com que, no seu romance, a ‘arte de museu’ se veja transformada em arte literária. Esta porosidade da literatura às artes plásticas não é, obviamente, inédita nas letras argentinas, já o tinha feito (e muito bem) César Aira e também Alan Pauls, por exemplo; o que talvez surpreenda neste romance de estreia é o uso de materiais diferentes que, de certa forma e a um primeiro olhar, se afastam da pintura, como as referências ao diário do aventureiro e explorador Richard Francis Burton, que em 1867 subiu o rio Paraguai.

María Gainza — que é crítica de arte em várias publicações argentinas, e que durante anos foi colaboradora do The New York Times — faz para o leitor uma espécie de ‘visita guiada’ aos quadros favoritos da narradora: mas não os explica, não ensina, apenas dirige o nosso olhar e relaciona-os com episódios da vida dos seus autores. Cada um desses onze capítulos que acabam por compôr o romance (eles poderiam também funcionar como contos, histórias independentes), é um olhar sobre a história da pintura, mas ao mesmo tempo é um olhar sobre a história pessoal da protagonista: histórias que tecem a relação entre uma vida e as pinturas que a marcam. Aqueles pontos que a princípio parecem desconexos, como se não houvesse relação possível entre eles, começam aos poucos a fazer sentido. É assim, por exemplo, que a história de Rothko, que no auge da sua carreira se recusou a entregar ao luxuoso hotel Four Seasons, em Nova Iorque, os quadros de uma encomenda milionária, se relaciona com a estada do marido da narradora num hospital onde faz quimioterapia, e onde durante a noite uma prostituta passeia de quarto em quarto. “Talvez olhar para um Rothko tenha algo de experiência espiritual, mas de um tipo que não admite palavras. É como visitar os glaciares ou atravessar um deserto. Poucas vezes o inadequado da linguagem se torna tão óbvio.”

Depois há ainda as histórias de pintores como Hubert Robert e o fascínio por ruínas, Toulouse-Lautrec e a sua doença genética, Courbet e o mar, Alfred de Deux e os cavalos, um banquete oferecido por Picasso, Cézanne, um passeio de El Greco, Fujita, e outros. Sem artifícios literários, María Gainza liga tudo isto com o fio da fruição da experiência estética. Pelo meio há também uma espécie de crónica social (muitas vezes irónica) da decadência da família da narradora: as referência ao antigo palácio da avó, e aos pais que “viviam estagnados pela lassidão neurótica de se verem refletidos no passado, em cada palacete, em cada estátua de bronze, em cada serviço de prata próprio ou alheio”.