Entrevista

“Nunca vi tal quantidade regulatória como à que estamos a assistir”

Carlos Rodrigues, presidente do BIG, diz que em Portugal é difícil haver fusões e aquisições no sector. Mas esse cenário poderia ser diferente se as pessos tivessem uma melhor noção do que a sua contabilidade e valor dos activos reflectem.

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Rui Gaudêncio

Para Carlos Rodrigues, presidente do Banco de Investimento Global (BIG) o excesso de regulação que temos hoje em dia pode fazer afastar capital e pessoas do sector. Em entrevista, o responsável do banco não vê as Fintech como uma ameaça e critica a falta de concorrência resultante da solução que em 2014 se encontrou com a resolução aplicada ao Banco Espírito Santo e a consequente criação do Novo Banco.

Em Portugal, ao contrário de outros países, não temos assistido a fusões e aquisições na área da banca. Porquê?
É muito difícil pensar em fusões e aquisições no nosso mercado. Aqui ao lado, em Espanha, tem sido normal haver a absorção de bancos por outros bancos. Geralmente, quando os bancos têm fragilidades, o que acontece é que o sistema absorve ou junta outros porque há sempre sinergias. Em Portugal não tem sido essa a tradição, principalmente com instituições do mesmo país. A consolidação que há é com entidades estrangeiras e quando já estão em distress [dificuldades financeiras].

E isso é bom ou mau?
Podia ter corrido melhor.

Está a pensar no Novo Banco?
Não. Estou a pensar que temos bastantes instituições em Portugal. Há uma concorrência cerrada, mas talvez se as pessoas tivessem uma melhor noção do que a sua contabilidade reflecte, o valor dos activos que têm no balanço, teria levado a medidas de fusão ou outras medidas que tornassem mais fácil a junção de bancos.

No caso do Novo Banco teria sido possível integrar numa instituição portuguesa em vez da venda a um fundo?
Normalmente não falo de bancos concorrentes. Fiz uma excepção após a solução arranjada para o Novo Banco, agora são águas passadas. Mas na altura não achei que fosse das soluções mais felizes.

Em 2014 disse que a solução tinha sido mal desenhada e que os contribuintes iriam acabar por sofrer...
Só achei que havia outras soluções. Mas isso foi em 2014 - disse-o, mas agora já não é assunto.

Não é assunto? É recorrente ouvir os banqueiros a queixarem-se do impacto e do peso que o Novo Banco continua a ter...
Isso sem dúvida. Infelizmente algumas das coisas que achei que podiam acontecer, aconteceram. E neste momento há uma responsabilidade em cima do sistema bancário português que não era esperada por ninguém, nem mesmo nos cenários mais negativos. Temos o poder de opinar quando somos consultados e dar a nossa opinião. Quando não somos consultados ou quando se tomam decisões por quem tem o poder de as tomar, nós, que vivemos em Portugal como companhias sediadas em Portugal, sofremos esses efeitos. Numa economia de mercado, que é aquela em que penso estarmos, é muito difícil de entender quando a falência de concorrência acaba por ser posta na conta dos accionistas que não tiveram problemas. Para lhe dar um exemplo (só posso falar pelos meus): os meus accionistas, com as pessoas que escolheram para conduzir os destinos do banco, não tiveram nenhuma perda no BPN, nenhuma perda no BPP, nenhuma perda no BES e, portanto, obviamente, numa economia de mercado espera-se que as falhas de um concorrente não digam respeito aos outros concorrentes.

O Fundo de Resolução vai ter de assumir as garantias que deu ao Novo Banco.
Não faço ideia. O BIG, como os outros bancos, ao que sei, nunca foram consultados sobre a gestão do Fundo de Resolução, embora soframos os efeitos.

Mas essa actuação não revela falta de transparência e de boa condução, até por parte do regulador?
É a situação que temos. Foi a situação que foi legislada em Agosto de 2014 e portanto não interessa muito o que penso agora. Está feito. Sofremos todos os efeitos disso, vão ser de longa duração e é óbvio que vamos ter condições de concorrência muito mais difíceis do que teríamos se não existissem esses prejuízos no sistema. Outros sistemas europeus arranjaram outras soluções. Nós resolvemos desta forma, foi aquilo que os nossos legisladores determinaram, o resultado poderia ter sido mais feliz, condiciona o mercado português, mas não vale muito, neste momento chorar sobre o leite derramado.

O Montepio é um caso que preocupa o sistema bancário?
Não faço comentários sobre concorrentes.

Tivemos uma sucessão de problemas bancários em Portugal. Hoje temos condições para estar mais confiantes de que não se vão repetir erros e soluções menos felizes do passado? Por exemplo, não usámos os 12 mil milhões de euros da troika que se destinavam à banca...
Deveriam ter sido usados.

Mesmo que isso implicasse nacionalizações?
O Lloyds Bank foi intervencionado com dinheiro do Estado inglês e não veio mal ao mundo. O que é importante quando há problemas é resolvê-los depressa porque se não se resolvem depressa têm o condão de persistirem no tempo. Há muitas vezes a tendência de não sermos capazes de reconhecer as coisas por aquilo que elas são. Após 2008 se tivéssemos sido mais exigentes quanto à transparência das contas das instituições teríamos reconhecido que tínhamos problemas e que urgia resolvê-los. Quando não se reconhecem os problemas dificilmente se tem vontade ou coragem de os corrigir.

Esse nível de exigência dos supervisores já existe.
Acho que sim. Não só existe, como houve uma produção legislativa e regulatória desde aí brutal. 

Já é em excesso? Preocupa-o?
Claro, porque para ser cumprida e inteligível tem de ser humanamente entendida.

E não é?
Há muito regulação que é positiva e é muito bom que tivesse sido produzida, o pior é quando o pêndulo exagera para o outro lado. E hoje tem talvez um excesso de regulação. A verdade é que nunca vi uma tal quantidade regulatória como à que estamos a assistir. Que muitas vezes tem pontos com alguma contradição e por vezes interfere nos direitos de accionistas. E portanto, pode-se correr o risco de essa regulação afastar duas coisas absolutamente chave para o sistema bancário: o capital, que ou se cria ou se preserva ou se vai  buscar ao mercado, mas aí o custo é muito alto; e pode afectar a qualidade das pessoas que o sector financeiro é capaz de atrair. Se for a uma universidade, se fizer uma comparação com aquilo que era há dez anos, não acho que o sistema financeiro seja um sector muito atractivo para as pessoas trabalharem neste momento.

Mas não era necessária mais regulação?
Há muita regulação que era absolutamente necessária e fundamental. Muito embora, acredito enquanto profissional do sector, que o grande factor para o que aconteceu, tanto nos EUA, como na Europa, como em Portugal, não foi essencialmente falta de regulamentos.

Foi o quê?
A banca é um sector de acesso limitado e o acesso à actividade não foi tão limitado como devia ser. A importância das personalidades promotoras desses bancos levou a que muitas vezes fossem dadas licenças a quem não devia e fossem permitidas práticas que obviamente tinham muito pouco a ver com a idoneidade e com o interesse dos stakeholders e os clientes do banco.

Mas aí a responsabilidade é da supervisão. Em Portugal houve banqueiros que foram autorizados quando já estavam envolvidos em vários casos...
Isso não aconteceu só em Portugal, aconteceu noutros países, mas como deve imaginar não faço análise de regulação.

Enquanto gestor de um banco e perante o actual quadro regulatório e de regulação pode dizer aos seus accionistas com muito maior segurança que não se vão repetir os erros do passado?
Há medida que vamos envelhecendo e sabendo mais, há duas coisas que sei: uma é reconhecer que aquilo que não sei é sempre maior que no dia anterior, em relação àquilo que sei. E outra é não me dar garantias de nada, principalmente daquelas coisas que não controlamos. Agora, a regulação está muito mais profissionalizada, sinto-o como profissional da banca. Sinto que há um excesso de produção de regulação bancária que corre o risco de afastar capital e as melhores pessoas e pode ainda ter o efeito de matar este sistema que conhecemos e de fazer aparecer sucedâneos que não vão pedir licença para entrar nem vão pedir licenças porque, hoje, tecnologicamente é possível e é imparável.
Há pessoas que pensam que a principal defesa do sistema financeiro é haver mais regulamentos, eu não penso isso. Está na capacidade de entender que os activos que gerem não são dos accionistas nem deles, são de terceiros. E entender a responsabilidade que têm de protecção desses activos.
O importante não é esperar-se que se desenhe um sistema que tenha grandes bancos ou pequenos bancos, ou que seja um sistema mais fácil de regular, porque à partida vai sempre haver a possibilidade e a criatividade para quem quiser fazer coisas estúpidas o fazer. O importante é não matar um sistema sem sabermos exactamente o que vem aí. Mas acho que a maior parte do capital vai acorrer a áreas que não são aquelas que pertencem aos bancos que aceitam depósitos e que são as entidades reguladas hoje.

Não o preocupa o aparecimento das Fintech e a falta de regulação sobre estas?
Não me preocupa absolutamente nada, pelo menos as que conheço. Nós investimos, já temos sete ou oito investimentos nessa área. São basicamente soluções tecnológicas que nos nossos casos é gente que tem um grande pendor de desenvolvimento de tecnologia e que pensa que essa tecnologia pode tornar a nossa vida mais fácil e os produtos mais competitivos e mais acessíveis com maior facilidade para os consumidores finais. 

Vários banqueiros já levantaram a questão de as Fintech estarem a concorrer de uma forma desleal e sem supervisão e sem exigências de capital...
Talvez a diferença seja a de que, primeiro nunca fui banqueiro, fui sempre bancário e não vou deixar de ser até morrer. Mas a verdade é que na maior parte dos casos, aqueles que estão à nossa volta e com quem nos relacionamos apresentam soluções tecnológicas que, combinadas com algum saber financeiro, podem proporcionarnos aprendizagens e tornar muito mais fácil e cómoda a vida dos nossos clientes. Para nós é desenvolvimento e não o vemos como uma ameaça.