Rio negoceia com Costa fora da AR, os críticos não lhe vão dar paz

Primeira semana de Rui Rio acaba numa guerra de nervos interna. O líder não vai ceder em nada. Os opositores internos não lhe perdoam - e prometem não desarmar. Na quinta-feira há um novo teste

Rui Rio pôs-se em silêncio e mandou as segundas linhas responder à oposição interna que se mostrou na bancada parlamentar do PSD: Fernando Negrão foi eleito líder parlamentar apenas com 39,7% dos votos dos seus deputados e, ontem, foi André Coelho Lima, um vogal da direcção, a responder com palavras duras, falando numa tentativa de "golpe palaciano". 

A mensagem é clara: se o novo presidente do partido não quer entrar em choque directo com os seus críticos, também não está disponível para ceder um milímetro nas suas intenções para o partido: vai segurar Negrão, como segurou Elina Fraga, a outra frente da guerra interna que se abriu na primeira semana de liderança.

A ideia que Rio quer vincar é precisamente a de uma "não-cedência". Na nova direcção há quem tenha garantido ao PÚBLICO que a ideia do novo presidente do PSD é a de "fazer uma ruptura com o passado próximo", ou seja, com a liderança de Passos Coelho - e que "não se desvia do seu objectivo". Rui Rio "não teme, antes gosta, deste tipo de confrontos. Nem é a favor de consensos podres e não-clarificadores", diz outro membro da actual direcção do PSD.

Um outro membro da actual direcção garante que "Rui Rio vai cumprir a sua agenda e os seus objectivos". E, mostrando que é uma guerra de nervos que se vive dentro do partido, acrescenta: "Se for preciso, Rui Rio conduzirá a sua estratégia de entendimento com o PS para levar a cabo reformas no país fora do Parlamento, através dos grupos de trabalho que vão negociar com o PS a descentralização e fundos estruturais do Portugal 2030".

O mesmo dirigente afirmou ao PÚBLICO que o que os deputados estão a fazer "não reflecte o resultado do congresso que foi de unanimidade e consenso". Unanimidade relativa à moção de estratégia do líder; consenso é o estabelecido "com o outro candidato concorrente à liderança Pedro Santana Lopes". 

Na São Caetano o incómodo é crescente. O mesmo dirigente ouvido pelo PÚBLICO acusa os deputados rebeldes de estarem a pôr em risco o "interesse nacional" e dispara: "O dr. Fernando Negrão teve a unanimidade do grupo parlamentar para, há dois anos, ser o candidato do PSD à presidência da Assembleia da República e agora, que é escolhido pelo dr. Rui Rio, tendo sido porta-voz da campanha do dr. Santana Lopes, não serve? Há deputados que não perceberam a mensagem do congresso e que estão a inverter a máxima de Sá Carneiro, ao porem em primeiro lugar a sua circunstância pessoal, as suas raivas pessoais, e só depois o partido e o país." 

Mas o clima interno vai a exame já na quinta-feira: é o dia em que Negrão fará a sua primeira reunião da bancada, tendo pela frente os deputados que, secretamente, depositaram 32 votos em branco e mais 21 votos nulos na urna "laranja". O novo líder parlamentar quer envolver todos os deputados do PSD na nova estratégia do partido - e tentou dar esse sinal na quinta-feira à noite, numa entrevista à SIC Notícias, garantindo que não vai fazer uma caça às bruxas para descobrir quem foram os elementos da sua lista que não votaram nele.

Mas não foi de paz, o cachimbo de Negrão. Classificou de "ridícula" uma crítica do deputado Sérgio Azevedo, face ao seu desvalorizar dos votos de protesto; reduziu a opinião de Paula Teixeira da Cruz a que não teria legitimidade a "uma interpretação jurídica". E antes, em pleno choque com os números da votação, já tinha deixado um ataque à "falta de ética" de alguns, que estariam na sua lista e não teriam votado nele.

Riscos e "não" nos boletins

Entre os deputados que entraram na oposição interna, há quem garanta que o problema só agora começou. "[Fernando Negrão] aceitou as listas que o líder lhe impôs, reduziu o número de vice-presidências - o que é um desastre -, fez escolhas erradas e ainda começou a insultar os deputados", diz um dos que votaram contra. 

Mas o problema maior é mesmo com Rui Rio. E não faltam críticas ao novo líder, nesta sua primeira semana em funções: a forma como afastou Hugo Soares e nem o chamou ao palco do congresso; a "péssima" condução do congresso, afastando das listas as distritais (que têm muita gente na bancada); a polémica escolha de Elina Fraga para vice-presidente do partido, muito crítica da governação de Passos na Justiça.

Na quinta-feira, os 21 votos nulos reflectiam esse estado de espírito: havia riscos a tapar os nomes de Negrão e seus escolhidos, outros casos em que só alguns nomes eram riscados, alguns "não" escritos. E até um ou outro caso em que se lia o nome do antecessor de Negrão. "Foi um grito de autonomia, de liberdade", desabafa - "com orgulho" - um desses deputados ao PÚBLICO.  

A grande dúvida é se a guerra fica, agora, contida. Ou se segue para nova escalada. Ou, pior ainda, se a estratégia dos críticos é de tentar fragilizar Rio e pôr a sua liderança em causa antes das legislativas, ou esperar pelo final de 2019 para o fazer. "Depende de como ele aguentar isto tudo. A equipa dele já está partida, Lisboa vai cilindrá-lo, no Parlamento vai ser muito difícil", admite um dos "montenegristas", a ala que nasceu no PSD depois do congresso do último fim-de-semana.

E não faltarão pretextos pela frente, se os críticos quiserem ir por aí. Na quarta-feira, antes da eleição de Negrão, Luís Montenegro dava um mote. "Há um problema" que Rui Rio e a sua direcção "terão de clarificar nos próximos tempos", disse o ex-líder parlamentar de Passos Coelho na TSF: o facto de Elina Fraga "ter sido uma feroz opositora da política da área da justiça do último Governo (...); e qual é o projecto da direcção política do PSD na área da justiça". Poucos dias antes, no congresso, tinha avisado que não pediria licença se quisesse candidatar-se à liderança, mas também prometeu que só usaria da palavra para fazer "oposição ao PS".

A verdade é que o tema da Justiça é sensível no PSD, seja pela "independência" com que é visto o Ministério Público no mandato da actual procuradora-geral (tendo como pano de fundo a acusação a José Sócrates e Ricardo Salgado), seja pelas reformas lançadas por Teixeira da Cruz. Para já, Rui Rio nada adiantou de concreto sobre o que pretende mudar no sector, apenas deixou claro que acha que ele não vai bem.

A outra questão pendente é, no entanto, a que mais divide o "velho" partido da "nova" liderança: a procura de consensos com o Governo de António Costa - e que o levou à residência oficial ainda antes de se reunir a sua comissão política. "Até aqui, fala-se mais de consensos do que se fazem críticas ao PS", ouviu o PÚBLICO de um deputado. 

No passado, o tema da aproximação ao PS deu ao PSD algumas das suas maiores lutas internas. Agora, com negociadores nomeados, muitos "montenegristas" esperam para ver até onde vai a conversa.

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