Crítica

Senhor Zé, bem-vindo à casa de partida

Quase quatro décadas depois, Maria da Soledade e José Canelas voltaram ao ponto de partida para abrir um restaurante que honra a memória e os pergaminhos da célebre “Mamuda” e da Casa Nanda. Com cozinha tripeira, cortesia e carinho.

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Maria da Soledade e José Canelas regressaram à Baixa do Porto com o restaurante Senhor Zé Nelson Garrido
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Nelson Garrido

Sim, o senhor Zé é o anfitrião e mestre cerimónias, mas o segredo está por detrás dos fogões, onde quem mais ordena é a mulher, Maria da Soledade. E embora o restaurante seja de abertura recente, os dois protagonistas carregam consigo um longo historial que se cruza com casas de justificada fama e reconhecimento no panorama local da restauração.

Tanto assim que esta abertura do Senhor Zé foi quase como que o devolver à Baixa do Porto de uma certa cozinha de tradição que, com honrosas excepções, parece querer escapar-se por entre os dedos aos portuenses de alma tripeira. Uma cozinha saborosa, farta e generosa, com base na qualidade dos produtos e à qual acresce um serviço cortês, carinhoso e familiar, que faz com que o cliente se sinta como em casa.

E, tal como na moderna localização por georreferenciação, recorramos a uma triangulação para melhor nos localizarmos. No início era o restaurante Montenegro, que ficou célebre como a “Mamuda”, pela figura da cozinheira e a qualidade da sua cozinha, que comandava com o apoio da sobrinha.

Foi esta, juntamente com o homem da sala (já então seu marido) e outra colaboradora que, em 1980, saíram para fundar a Casa Nanda. O novo restaurante rapidamente haveria de ganhar fama e acabou por assumir todo o protagonismo com o posterior desaparecimento da “Mamuda”. Mas nada é eterno e, ao fim de quase 37 anos e com a chegada de uma nova geração, as coisas começaram a azedar e deu-se a ruptura.

É assim que a sobrinha e o marido — Maria da Soledade e José Canelas — voltam ao ponto de partida. Ou seja, abriram agora o Senhor Zé, que fica na porta em frente ao local onde existiu a “Mamuda”, trazendo consigo um historial e um tipo de cozinha de muito boa memória. É caso para dizer, bem-vindos à casa de partida.

O espaço, que fica na zona da Praça dos Poveiros a caminho da Batalha, é o mesmo onde durante décadas funcionou o restaurante Irmãos Unidos, agora recuperado e aperaltado com ares de modernidade para acolher o Senhor Zé.

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Cozinha ao fundo, à vista de quem entra, duas salas paralelas com capacidade para acolher umas 90 pessoas de forma ampla e desafogada, havendo ainda uma outra no andar superior mas apenas para funcionar em caso de necessidade. Tectos altos, boa luminosidade, toalhas e guardanapos em algodão e baixela comum.

A oferta é ampla, cobrindo as mais apreciadas especialidades regionais, das tripas à moda do Porto ao cabrito assado no forno, da cabeça de pescada ao bacalhau à Zé do Pipo, da vitela à costela mendinha assada no forno. Todos os dias há ainda um alargado menu do dia, com peixes e carnes da oferta de mercado a proporcionarem cozinhados de tacho, grelhados e assados no forno.

Por estes dias há também o sável (em postas fritas ou em escabeche) e a lampreia em arroz sanguíneo ou em aveludado à bordalesa (19€ a dose).

Numa caixinha de madeira forrada com guardanapo branco, elegantes pãezinhos de trigo e pedaços de uma broa escura de milho e centeio.

A entrada individual (2€) é composta por croquete, rissol e bolinho de bacalhau, uma unidade de cada e todos de sabor apurado e muito boa execução culinária. Crocante, ainda quente e com bacalhau esfiado, o bolinho, picado com vitela de evidente qualidade no croquete e rissol com recheio de camarão e creme de mariscos de confecção primorosa.

Nos peixes, os filetes de pescada são já quase uma lenda associada à cozinheira, mas nem assim deixam de impressionar. Pela confecção e sabor, de textura firme e húmida e a separar-se em lascas deslizantes. Envolvente de ovo e farinha de boa fritura e sem resquícios de gorduras. Meia dose (10,50€) que chega à mesa em travessa branca forrada com um pano de linho que ajuda a absorver as gorduras, tanto dos filetes (dois) como das gulosas batatas fritas em rodelas. Tem ainda o complemento de um arroz caldoso de berbigão, de aspecto, sabor e aroma irresistíveis. Como único senão o grão duro, de textura seca e quase plástica, do arroz que resiste à absorção do caldo. Com tão boa cozinha, é mesmo uma pena não usar o nosso carolino!

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O mesmo serviço com as duas postas de peixe-galo (meia dose 13€) repousadas em pano de linho, fritura exímia, textura e sabores no ponto óptimo. Acompanhou, neste caso, com especiosa açorda com ovas do peixe.

À falta do cabrito assado no forno, que tinha já acabado mas cujos odores faziam cobiçar mesa alheia, convocou-se o costeletão de boi (26€/duas pessoas), que se revelou um hino às boas carnes e ao cuidado trato culinário. Peça de dimensão mais que generosa (não devia andar longe de 1kg) de carne minhota de boi de trabalho e pasto natural, rosada, húmida e suculenta e a desfazer-se na boca com textura aveludada de iogurte. Aroma inebriante e sabor interminável. Um achado!

Quanto às sobremesas, desdobram-se no tradicional creme queimado, aletria de ovos, pão-de-ló húmido ou uma tarte de maracujá (3,50€) que provámos com agrado.

Na abundante carta de vinhos predominam os do Douro e do Alentejo, com alguns Verde à mistura e evidente escassez de alternativas como Dão e Bairrada, que bem adequados se podem mostrar à oferta da cozinha da casa. De notar a preocupação com preços sensatos — mesmo com muitos vinhos das categorias superiores —, e sempre com indicação de datas.

Num estilo cortês e carinhoso, sem que isso implique submissão ou mordomia, o serviço é ágil e funcional. E com o senhor Zé como anfitrião e mordomo, há justificada expectativa de que estejam de volta os tempos de glória gastronómica.