Fantcha presta tributo a Cesária, “uma grande inspiração para todos”

Cabo-verdiana radicada em Nova Iorque, Fantcha apresenta ao vivo um novo disco. Tito Paris, Bau e Teófilo Chantre são os seus convidados. Este sábado no Lisboa Ao Vivo, às 21h30.

Foto
Fantcha, numa foto para a produção do disco Nos Caminhada Alexandre Conceição

O nome de Fantcha já é conhecido entre nós. Nascida no Mindelo, em 1965, radicou-se em Nova Iorque há trinta anos e a partir daí tem corrido mundo, a cantar Cabo Verde. “Cresci numa família de muitas músicas”, diz ela ao PÚBLICO. “A voz vem da minha mãe, que tinha uma voz linda. Não cheguei a conhecer a minha avó, mas também cantava e tocava guitarra.” À sua casa iam muitos tocadores de serenatas. “Ficavam lá horas e horas a cantar e a tocar. E eu em miúda já me metia a cantar com eles.” Ela e dois irmãos, mais velhos.

Foi no grupo carnavalesco Flores de Mindelo que o compositor Gregório Gonçalves, ou Ti Goy (1920-1991), a viu, aos 10 anos. “Foi ele que descobriu a minha voz no meio daquela criançada toda e me escolheu para ensaiar as músicas, gravar e ensinar as outras miúdas. E foi ele que me apresentou a Cesária pela primeira vez.” A partir desse dia, começou entre elas uma amizade que se estenderia pela vida de ambas. “Eu era muito jovem, devia ter por aí uns 12, 13 anos.” Aos 17 começou a cantar em restaurantes e no célebre Piano-Bar de Chico Serra, deambulando pelas noites boémias de Cabo Verde. Depois de gravar em 1987 um dos primeiros discos de Cesária (Tchintchiroti Na Figueira), Bana foi convencido por esta a gravar também um disco com Fantcha. E assim nasceu Boa Viagem (1988), no mesmo ano em que Cesária gravava o primeiro disco com José da Silva, Bia Lulucha.

Então Bana levou Fantcha a fazer uma digressão com ele pela Europa (“eu ainda era muito naif, só queria era estar ali a cantar”). E ele encontrou-se com Cesária Évora em França. “Fizemos espectáculos juntas, fomos para a Holanda e depois apareceu um convite para os Estados Unidos.” Viajaram as duas. Para Cesária foram três meses, mas para Fantcha foram 30 anos, pois decidiu já não voltar. “Fascinei-me com tudo aquilo, aquele mundo multicultural onde se encontra tudo e todos. Decidi aventurar-me e não estou arrependida.”

Fantcha tinha, nessa altura, dois filhos, que estavam com a mãe dela em Cabo Verde (estava separada do marido): uma menina de 4 anos e um menino de 1. Os filhos foram depois viver com ela para Nova Iorque, mal conseguiu a legalização. E teve outro “filho”, o disco Criolinha (1998), com bastante sucesso, vindo a soar na série The L Word.

Celebração de uma amizade

Sediada em Nova Iorque, correu mundo a cantar: Canadá, México, França, Alemanha, Portugal (“a minha segunda casa, a primeira é Cabo Verde”). Antes de Nos Caminhada (2017), Fantcha ainda gravou Viva Mindelo (2001) e Amor Mar e Música (2009). Mas Nos Caminhada tem uma característica especial. “Muito antes da passagem [morte] da Cesária, eu e o Bau já vínhamos a conversar sobre fazer um tributo à Cesária, por causa de nossa convivência e amizade. Essa música, Nos Caminhada, foi feita em 2011. Eu fui visitar a Cesária quando ela saiu do hospital, em França, passei o meu aniversário com ela.” Na despedida, Cesária olhou-a de um modo “tão profundo e tão triste” que ela começou a escrever a letra da canção no avião. Deu-a depois a Teófilo Chantre, para a musicar. Mas Cesária morreu antes. E isso levou Fantcha a decidir, junto com Bau (que produz o disco) que este seria um tributo a Cesária. “Sendo assim, quis gravar algumas clássicas dela, músicas que nos anos 80 cantávamos juntas, no Piano-Bar.” Estão, entre estas, Cinturão tem mel, Miss perfumado ou Estanhadinha, num disco que tem, nas autorias, nomes como Teófilo Chantre, Mário Lúcio, Betu, Frank Cavaquim, B.Leza ou Mendes Carvalho.

Princesa, de Mário Lúcio, escolhida por sugestão de Bau, surge como homenagem às mulheres cabo-verdianas e à própria Cesária. “A letra faz-me lembrar dela. Porque sendo uma pessoa com tanta fama, não ligava para isso. Tinha a porta da casa dela sempre aberta, ajudava muita gente. Como artista e como pessoa é uma grande inspiração para todos nós.”

Nos Caminhada, o disco, é apresentado ao vivo agora em Portugal, com Tito Paris, Bau e Teófilo Chantre por convidados. Este sábado, no Lisboa Ao Vivo, às 21h30.