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Em Ghouta "não há tempo para contar ou enterrar mortos"

Desde domingo que o regime sírio conduz uma vaga de ataques contra as forças rebeldes, mas as vítimas principais acabam por ser os civis. Portugal emitiu um comunicado onde condena a violência das forças de Assad.

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LUSA/MOHAMMED BADRA
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Nos últimos dias, Ghouta Oriental — o último grande bastião controlado pela oposição a Bashar al-Assad — tem sido cenário de intensos bombardeamentos. Localizada perto de Damasco, capital do país, a região com cerca de 400 mil civis está a ser destruída pelos bombardeamentos das forças do Presidente sírio e seus aliados. É de lá que a médica Armani B. descreve ao diário espanhol El PaÍs o caos em que os serviços de assistência estão, sem electricidade, morgues ou “tempo para contar ou enterrar mortos”. Sem meios, os médicos recorrem a medicamentos fora da prazo.

Os dados da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras dizem que mais de 500 pessoas morreram nos últimos cinco dias, devido aos bombardeamentos. Destas, pelo menos cem são crianças. Há pelo menos 2300 feridos. No entanto, os números correctos podem ser superiores.

Os bombardeamentos com rockets e outros projectéis começaram no domingo passado, com uma ofensiva com que Bashar al-Assad tenta pôr fim a uma guerra que começou em 2011. Desde o início da semana que Armani B. e cerca de uma centena de médicos tentam responder aos milhares de pedidos de ajuda, contou por telefone ao El País.

A noite é o período mais calmo, quando a intensidade dos ataques aéreos diminui, disse Armani B.. É por essa altura que os familiares e voluntários de Ghouta Oriental vão até ao hospital, para que os mortos sejam enterrados. Os que não conseguem ser identificados são fotografados no sítio exacto onde são enterrados. As morgues estão lotadas e os corpos acabam por ser enterrados em valas comuns, que os voluntários e familiares cavam durante a noite, à luz de lanternas, nas imediações dos hospitais da cidade.

“Estamos a usar medicamentos fora do prazo, na esperança que tenham algum efeito, e a amputar membros que, noutros casos, podiam ser salvos”, disse outro médico ouvido pelo jornal espanhol. Há meses que os médicos não têm acesso a medicamentos a não ser através do mercado negro. A população tenta sobreviver num “estado permanente de terror”, sujeita a restrições alimentares e sem acesso a água potável, devido ao bloqueio das forças de Damasco. 

“Ghouta é um inferno debaixo e sobre a terra. Não se vê sol, nem o dia nem a noite”, conta um membro das forças da defesa civil síria, os Capacetes Brancos. Maher Hanin, responsável médico na cidade de Duma, garante que “a grande maioria das bombas e projécteis lançados acertaram em bairros civis; poucos bombardeamentos acertaram nas posições das forças armadas rebeldes”.

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Os aviões das forças do regime lançaram panfletos com uma mensagem dirigida “às nossas famílias de Ghouta”, onde Assad pede aos civis que “não colaborem com os grupos armados responsáveis por tantas mortes”. A mensagem convida os civis a abandonarem a zona através de rotas de fuga sugeridas num mapa enviado com a mensagem.

Organizações humanitárias internacionais como a Cruz Vermelha e o Programa Alimentar Mundial (PAM) apelaram quarta-feira a um cessar-fogo urgente. O Conselho de Segurança das Nações Unidas vota este sábado uma resolução para um cessar-fogo durante 30 dias, com o objectivo de garantir a entrada de ajuda humanitária e a retirada de mais de 700 pacientes em estado crítico.  

"Não há uma solução militar"

Nesta sexta-feira, e através de um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Portugal condenou a violência que afecta “de forma brutal” a população civil de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, apelando à cessação imediata das hostilidades.

“Os bombardeamentos levados a cabo pelas forças do regime de Bashar al-Assad que estão a matar inocentes e a destruir indiscriminadamente infra-estruturas civis devem cessar imediatamente e deve ser prestada a necessária ajuda humanitária à população civil”, diz o texto que apela “à contenção de todos os actores” envolvidos na guerra na Síria e sublinha que “não há uma solução militar para o conflito sírio”.

“O Governo português pede a todas as partes que se comprometam de forma séria e empenhada no processo de diálogo de Genebra, sob os auspícios das Nações Unidas, por forma a encontrar-se uma solução pacífica e duradoura que traga a paz a todos os sírios”.

Iniciado em Março de 2011 após a violenta repressão do regime de Bashar al-Assad das manifestações pacíficas, a guerra na Síria intensificou-se em várias frentes e ganhou dimensão com a intervenção de vários grupos extremistas e de vários intervinientes externos.

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