Crítica

Uma noite inesquecível com a Orquestra do Concertgebouw

O ponto alto do concerto foi porém a extraordinária interpretação da Sinfonia nº5, de Chostakovich, na segunda parte.

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O maestro Semyon Bychkov dr

A Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão iniciou em Agosto de 2016 uma digressão intitulada RCO meets Europe que prevê, ao longo de duas temporadas e meia, a visita aos 28 estados membros da União Europeia e a colaboração com jovens músicos de cada país na interpretação de uma obra por concerto. Com o patrocínio da UNESCO, da Comissão Europeia e de entidades privadas, este projecto pretende “destacar as ideias e os ideais fundamentais que constituem a Europa e que a mantêm unida” através da prática musical. Em Lisboa, a digressão foi acolhida pela Gulbenkian e contou com a participação de 40 jovens instrumentistas da Orquestra Estágio Gulbenkian, uma iniciativa com direcção artística de Joana Carneiro criada em 2013 com o intuito de  promover a experiência orquestral entre a fase final da vida académica e o ingresso nas orquestras profissionais.

A possibilidade de tocar com uma das melhores orquestras do mundo, sob a direção de um maestro da craveira de Semyon Bychkov, constituiu uma oportunidade de ouro para os membros da Orquestra Estágio Gulbenkian que partilharam o palco com a Orquestra do Concertgebouw na interpretação do Prelúdio da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga, de Wagner, no concerto da passada quarta-feira. Foi notório o entusiasmo e o empenho destes jovens músicos, com consistente preparação técnica e artística, em corresponder aos altos padrões impostos pelos instrumentistas do Concertgebouw.

O resultado foi uma versão imponente, do Prelúdio de Wagner, uma peça que apresenta alguns dos emblemáticos motivos condutores (leitmotiv) do drama musical e permite fazer brilhar os vários naipes da orquestra. Não se chegou a atingir o grau de subtileza que a Orquestra do Concertgebouw demonstrou nas restantes obras em programa, mas a interpretação distinguiu-se pela solidez e por uma grande vitalidade, energia e pujança sonora.

A obra seguinte teve como solistas Katia e Marielle Labèque, mediático duo que ao longo de várias décadas tem dado a conhecer um eclético repertório para dois pianos. Interpretaram o Concerto para dois Pianos op. 88a, de Max Bruch, uma obra que gravaram com a Philharmonia Orchestra, sob a direcção do mesmo maestro (Semyon Bychkov).

O concerto foi escrito para as irmãs Rose Laura Sutro e Ottilie Sutro, um duo de pianistas americanas que atingiu considerável notoriedade nos finais do século XIX, e resulta do reaproveitamento de uma suite orquestral composta por Bruch anteriormente. 

As próprias irmãs Sutro fizeram ao longo do tempo várias intervenções na partitura desta obra que combina elementos heterogéneos da linguagem e estética dos finais dos Romantismo. Várias passagens são bastante apelativas para o ouvinte e tiram hábil partido da interacção com a orquestra, mas no seu todo a composição é algo irregular. No entanto, graças ao seu habitual carisma, musicalidade e destreza técnica, as irmãs Labèque conferiram permanente interesse ao discurso, contando com a cumplicidade do maestro e da orquestra. Como encore brilharam ainda em Four Movements for Two Pianos, de Philip Glass, despertando grande entusiasmo do público.

O ponto alto do concerto foi porém a extraordinária interpretação da Sinfonia nº5, de Chostakovich, na segunda parte. Com admirável precisão e profundo entendimento da obra e dos seus contrastes, o maestro Semyon Bychkov dirigiu uma orquestra que demonstra um apurado entrosamento dentro de cada naipe e no seu conjunto, uma sonoridade de enorme beleza, cambiantes de colorido e uma paleta dinâmica surpreendentes: da  precisão dos mais subtis pianíssimos à sonoridade redonda e pujante dos fortíssimos.

Cada fraseado e cada articulação são meticulosamente desenhados, ao mesmo tempo que não se perde o sentido da arquitectura da obra. Mas o virtuosismo polido não impediu a caracterização incisiva das secções mais sarcásticas, grotescas e dissonantes da partitura de Chostakovich, nem dos seus ritmos desenfreados. Um concerto que deixou saudades do antigo ciclo Grandes Orquestra Mundiais, entretanto abandonado pela Gulbenkian, no qual desfilavam em cada temporada com bastante mais assiduidade formações de topo como a Orquestra do Concertgebouw.

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