Opinião

As Ciências da Vida são as mais competitivas em Portugal: efeito dos Programas Doutorais?

As bolsas do European Research Council mostram que as Ciências da Vida são claramente mais competitivas que as outras áreas da investigação em Portugal.

Vários jornais publicam regularmente artigos sobre as bolsas atribuídas a investigadores em Portugal pelo European Research Council (ERC). Nenhuma publicação, todavia, analisou a distribuição das bolsas ERC para Portugal nos grandes domínios de investigação. O ERC é a agência de financiamento mais competitiva na Europa, de resto explicitamente criada para a “excelência na ciência”, aprovando uns 11-13% de todos os pedidos. As bolsas do ERC estão agrupadas em três áreas — Ciências Físicas e Engenharia (FE), Ciências da Vida (CV), Ciências Sociais e Humanidades (SH), com uma distribuição global equilibrada. Ora, em Portugal, esta distribuição é claramente “anormal” e demonstra a superioridade competitiva das CV. Se percebermos porquê, será sempre possível replicar a “estratégia de sucesso” nas outras áreas.

Os leitores mais atentos terão ficado surpreendidos com a última “leva” de oito bolsas para investigadores em Portugal, das quais sete eram em CV, uma em FE e nenhuma em SH. Se exagerada neste caso, todavia, a predominância das CV não é excepcional: nestes dez anos, as CV receberam mais bolsas que a soma dos outros domínios científicos em Portugal (51 de 89, o que dá um pouco mais de 57% do total). Tal não se deve ao facto de haver simplesmente mais bolsas em CV no ERC. Assim, o website da agência informa que as “grants” em CV representam, naturalmente, cerca de um terço (35%) do total. As CV são, portanto, claramente mais competitivas que as outras áreas da investigação em Portugal.

A primeira hipótese plausível para explicar a situação seria que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) tem vindo a praticar em Portugal uma política de financiamento preferencial desta área. Os dados da FCT, todavia, excluem esta possibilidade: as “engenharias”/FE (e não as CV) são favorecidas nos financiamentos nacionais [1].

Uma análise dos recipiendários é mais fértil de indicações. Desde logo, 27 das 51 bolsas (53%) foram atribuídas a antigos alunos de Programas Doutorais (PDs) em CV, que existiram, com critérios de excelência e corpo docente internacional, desde 1993 [2]. Financiados graças a acordos pontuais com a FCT, os PDs educaram uma fracção reduzida de todos os estudantes portugueses na área, mas são estes que hoje asseguram a maioria da investigação de excelência nesta área. Por outras palavras, se excluirmos das contas os alumni dos PDs, as CV voltam ao nível “normal” em Portugal, recolhendo 38% de todos os financiamentos, equivalentes às áreas em que não existiram PDs. Assim, o apoio da FCT a PDs nas outras áreas foi apenas iniciado em 2013, agora em grande número.

Claro que não só em PDs se formam os melhores investigadores, mas estes resultados demonstram que uma formação estruturada, totalmente internacionalizada e de qualidade, prepara os jovens investigadores para os níveis de competitividade necessários ao “mercado internacional” de financiamentos. Os valores de “investimento estrangeiro” que os alumni dos PDs atraíram assim para Portugal (mais de 40 milhões de euros só do ERC) multiplicam várias vezes o que o Estado investira naqueles PDs, demonstrando a alta rentabilidade do investimento público na educação pós-graduada em PDs de excelência. Esperemos que o anúncio do fim dos PDs na FCT se tenha tratado de um exagero politiqueiro, comparável ao da morte de Mark Twain. Esperemos ainda que PDs em outras áreas possam mostrar a mesma visão estratégica de internacionalização e excelência, ao invés de servirem apenas para “garantir” umas bolsas de doutoramento e “ocupar” os professores das respectivas instituições.

Mais duas notas sobre a excepcional competitividade das CV em Portugal. Uma é o elevado número de estrangeiros entre os ERCs na área. Como nos países líderes, a excelência “local” atrai os melhores estrangeiros que reforçam, significativamente, o potencial nacional. Justo é ainda sublinhar o papel central das instituições na construção de excelência na investigação em Portugal. Se todas as instituições “de referência” nesta área estão representadas na lista do ERC, e se é difícil descrever fielmente a distribuição institucional em razão da alta mobilidade dos investigadores nesta área, é possível discernir o papel excepcional de duas delas: a Fundação Champalimaud (FC) e o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). A FC é a que acolheu mais bolsas ERC (14 só em CV, mais de um quarto do total), enquanto mais de metade do total das bolsas em CV (29/51) foram atribuídas a investigadores que estiveram (ou estão) no IGC, quer enquanto estudantes dos PDs, quer já como investigadores independentes. Estas coisas não acontecem por acaso [3]: uma das características comuns às duas instituições é a visão estratégica de criar e manter PDs de excelência, inovadores e internacionais (a maioria dos professores e muitos dos alunos são estrangeiros).

Em conclusão, como diria o Sr. de La Palisse, nem todos os investigadores podem ser “de excelência” e internacionalmente competitivos, mas, sem “excelência”, fica-nos apenas a mediocridade. Quando os dinheiros públicos são curtos — e oh se o são em Portugal para a Ciência —, há que os rentabilizar e investir preferencialmente na excelência que nos traz retornos.

[1] A análise comparativa das distribuições nacional e europeia é difícil, dadas as variações anuais e o facto de a “classificação” das áreas científicas não ser sobreponível à do ERC. Os últimos valores disponíveis (2013, idênticos aos de 2010) mostram que a área mais financiada é a das FE.
[2] O Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina foi lançado em 1993 pelo Instituto Gulbenkian de Ciência, co-financiado pela FCT e Fundação Gulbenkian. Seguiram-se, com formato semelhante, o Programa Graduado em Áreas da Biologia Básica e Aplicada, no Porto, em 1996, e o Programa em Biologia Experimental e Biomedicina, em Coimbra, em 2002, inicialmente também apoiados pela Gulbenkian. No seu conjunto, estes programas admitiram um total de 16-40 estudantes/ano, num universo de centenas de doutorandos nesta área. Os galardoados ERC são assim distribuídos: 11 no PGD, seis no GABBA e um no PDBEB.
[3] A análise da participação de Portugal em outros programas internacionais e altamente competitivos em CV (Howard Hughes Medical Institute e Human Frontiers Science Program) mostra enviesamentos semelhantes.