Uma espécie de "bloco ao centro” cantou a Grândola em São Tomé

Marcelo Rebelo de Sousa quis cumprir o desejo de um mecânico e pôs os deputados do PS, PSD, CDS e PCP a cantar o que sabiam daquele hino da revolução.

Cada um cantou o que sabia, como sabia. Presidente da República, ministro dos Negócios Estrangeiros e deputados do PS, PCP, PSD e CDS – o BE e Os Verdes não estavam presentes. No encontro com a comunidade portuguesa de quarta-feira à noite, ouviu-se a Grândola Vila Morena na Chancelaria portuguesa em São Tomé e Príncipe, com as vozes pouco afinadas de um coro improvável.

“Foi uma armadilha montada ao mais alto nível”, comentou o deputado social-democrata Duarte Marques, logo a seguir àquele momento. Foi Marcelo Rebelo de Sousa que quis cumprir o desejo de um mecânico a contar a história à RTP: “Um grupo de professoras propuseram-se cantar a Grândola Vila Morena, o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros foi portador dessa solicitação, faltaram apenas dois partidos que já tinham saído”, disse. “Eu ia dizer que foi um bloco ao centro, mas imagino que não seja boa ideia pela cara da deputada do PCP”, brincou.

Mas o chefe de Estado desdramatizou logo leituras políticas. “É uma evocação da liberdade e da democracia, que são inseparáveis do espírito da Constituição”. “E é património da humanidade, porque a Grândola é cante alentejano”, acrescentou Augusto Santos Silva, que tinha prometido às professoras pôr o Presidente da cantar a Grândola.

Foi o último momento público da visita na capital do país. Esta quinta-feira, a visita de Estado prosseguiu no Príncipe, que recebeu com ainda mais cor e alegria. A cidade foi toda arranjada, prédios pintados, sinais de trânsito e passadeiras novas, toda a gente na rua. À entrada da cidade, centenas de crianças esperavam a comitiva dos dois Presidentes com muita música e emoção. “Marcelo, que bom que você veio”; “Bem vindo à nossa linda ilha, espero que se sinta em casa”, “Portugal e São Tomé, vizinhos de longe, amigos de perto”, cantavam em ritmos tropicais.

Marcelo desceu do carro, arrastando toda a gente, e dirigiu-se à mutidão. Beijos, abraços e selfies também aqui, entre muitas bandeiras de papel de duas faces, com uma bandeira de cada lado.

A coluna seguiu cantando até ao palácio, não desmobilizou durante o encontro oficial, acrescentou danças típicas à entrada do Centro Cultural Português. Pelas estradas por onde a comitiva passava, fosse a caminho do Parque da Biodiversidade ou da Roça Sundy, pequenas multidões coloridas gritavam o nome de Marcelo, mais do que o de Evaristo, o seu próprio Presidente. Aqui, o chefe de Estado de Portugal é de casa e sente-se em casa. E promete voltar em breve.

* O PÚBLICO viajou num avião da Força Aérea Portuguesa

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