Os "miúdos" de Parkland pedem mais controlo de armas aos seus representantes

Numa discussão televisionada pela CNN, os sobreviventes do ataque à Escola Secundária Marjorie Stoneman Douglas perguntaram aos seus representantes o que iam fazer para reformar a legislação sobre armas.

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A Escola Secundária Marjorie Stoneman Douglas, palco de um tiroteio no dia 14 de Fevereiro, pede o fim da violência de armas Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS
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A Escola Secundária Marjorie Stoneman Douglas, palco de um tiroteio no dia 14 de Fevereiro, pede o fim da violência de armas Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS
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Estudantes numa manifestação na Casa Branca, na passada quarta-feira, uma semana depois do ataque LUSA/MICHAEL REYNOLDS

Os estudantes e sobreviventes do tiroteio na Escola Secundária Marjorie Stoneman Douglas, palco de um dos mais mortíferos tiroteios desde o ataque de VirginiaTech, tiveram oportunidade de questionar alguns dos seus representantes e senadores – como o republicano Marco Rubio – ao longo da discussão promovida e televisionada pela CNN durante a noite de quarta-feira. As mais de 7000 pessoas que se juntaram na audiência foram bastante explícitas nos seus pedidos: querem uma reforma na legislação sobre as armas. 

“Senador Rubio, pode dizer-me que não vai aceitar uma única doação da NRA [National Riffle Association, associação norte-americana de armas]?”, perguntou Cameron Kasky, um dos sobreviventes tornado activista depois do ataque de Parkland da semana passada, que está a planear a marcha de Washington do próximo mês.

O senador republicano não se quis comprometer. Disse apenas que apoia a segunda emenda mas que quer mais segurança nas escolas: “A minha opinião sobre a segunda emenda é a mesma desde o dia em que fui eleito”, afirmou Marco Rubio, durante o directo da CNN. “São as pessoas que compram a minha agenda, não sou eu que compro a delas”, reforçou o senador, que recebeu mais de um milhão de dólares da NRA da última vez que concorreu ao Senado.

O republicano aproveitou o tempo de antena para divulgar as propostas concretas que vão contar com o seu apoio. Uma delas, a do aumento da idade legal para a compra de armas (de 18 para 21 anos), respondendo aos que criticavam o facto de se poder comprar uma arma semi-automática, mas não beber. “Vou apoiar a lei que retira esse direito”, afirma Rubio, peremptório. O republicano também declarou o seu apoio à criação de uma lei que dê aos membros da família e aos agentes da autoridade a capacidade de pedir ao tribunal que sejam retiradas as armas a uma pessoa tida como perigosa. Uma espécie de "ordem judicial" para portadores de armas, como explicou.

O senador afirmou também estar a “reconsiderar” o seu apoio à proibição da utilização de bump stocks, dispositivos que aumentam o poder de fogo de uma arma legal, como a semi-automática AR-15, usada no tiroteio, mas mostra-se inflexível quanto à proibição total de um “sub-tipo” de armas, as semi-automáticas: “Teria que se banir todas as espingardas semi-automáticas vendidas na América”, disse, antes de ser interrompido pelos apupos da audiência.

“Se eu acreditasse que essa lei [de proibição] podia ter evitado isto, apoiá-la-ia", disse Rubio

Rubio foi o co-protagonista de um dos momentos mais emotivos da noite, juntamente com Fred Guttenberg, pai de uma jovem de 14 anos que morreu no tiroteio. “Senador Rubio, eu quero gostar de si. Mas há um problema… os seus comentários ao longo desta semana e os do nosso Presidente têm sido pateticamente fracos”, atirou Guttenberg. “Olhe para mim e diga-me que as armas foram o factor [determinante] na caça que aconteceu aos nossos filhos, diga que vai fazer alguma coisa em relação a isso”, pediu.

Como resposta, Rubio disse que não acreditava na proibição. “Se eu acreditasse que essa lei podia ter evitado isto, apoiá-la-ia. Mas quero explicar porque não o vou fazer.” Foi apupado pela audiência e interrompido pelo pai: “Senador Rubio, ao andar pelos corredores da Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas a minha filha foi alvejada nas costas com uma arma. Uma arma demasiado fácil de conseguir. Uma arma de guerra.”

Rubio continuou inflexível. Explicou que mantinha a sua opinião porque a proibição se a aplicava apenas a um pequeno segmento de 220 armas semi-automáticas, com cosmética militar, mas não cobre duas centenas de outras armas que funcionam da mesma maneira.

“Está a dizer que vai começar com 200 e continuar a subir?”, perguntou Guttenberg. “Acredito que devemos impedir que criminosos perigosos comprem armas”, respondeu Rubio, em vez de "andar a perseguir as falhas da legislação".

As críticas não foram só para Rubio. Ted Deutch, representante democrático que também estava em palco a responder às perguntas da audiência, deu uma resposta vaga quando questionado sobre a sua posição quanto à proibição de armas semi-automáticas. Disse opor-se às armas que “disparam 150 balas” em “sete ou oito minutos”, mas não falou especificamente em armas automáticas (que recarregam automaticamente mas não disparam continuamente). Para a audiência, a hesitação deu a entender que há uma diferença entre aquilo que estão a pedir (a total proibição) e aquilo que os democratas estão a defender.

Há um assunto, no entanto, em que os dois senadores (Marco Rubio e Bill Nelson, democrata) e o representante Ted Deutch concordaram: todos repudiam a ideia de Trump de armar os professores, dada a conhecer na quarta-feira. “Acho uma péssima ideia”, disse Nelson. Rubio e Deutch concordaram.

"Este monstro louco nunca deveria ter conseguido uma arma". NRA defende-se.

Emma González, estudante que aproveitou o seu tempo de antena, no sábado passado, para denunciar o lobby das armas e a influência política da NRA, esteve num frente a frente com Dana Loesch, representante dos “cinco milhões de membros” da associação. Loesch começou por elogiar o activismo da estudante: “Acho que ninguém devia tentar silenciar-te só por seres jovem.” Quando questionada sobre a facilidade em arranjar armas semi-automáticas, Loesch afirmou que o sistema de compra de armas tem falhas graves – falhas estatais e não da NRA, como salientou – e que muitas pessoas que compram armas não deveriam poder fazê-lo: “Este monstro louco nunca deveria ter conseguido uma arma”, disse, antes de ser interrompida pela audiência, que lhe chamava “assassina”.

A estudante aproveitou a ocasião para perguntar a sua opinião sobre os bump stocks. Loesch respondeu apenas que estava à espera da decisão do Departamento de Justiça norte-americano.

A noite acabou com um tributo em poesia – um poema escrito por uma das vítimas do ataque e interpretado pelo seu pai – e uma canção escrita durante a semana passada pelo Clube de Teatro de Marjorie Stoneman Douglas. “Recusamos ser ignorados pelos que não ouvem. Há muitas coisas que podem ser feitas para mostrar envolvimento”, ouviu-se nos últimos momentos da discussão.