ETA anuncia que vai acabar até ao Verão: “Concluiu o seu ciclo e função”

A direcção do grupo terrorista basco propôs aos seus membros que dê por terminada a luta armada, ao fim de 60 anos, para se empenharem no processo político.

Grupo terrorista começou a entregar armas há dois anos
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Grupo terrorista começou a entregar armas há dois anos EPA/ALFREDO ALDAI/HANDOUT

Nos últimos anos várias foram as notícias sobre o fim da acção armada do grupo terrorista basco — ETA. O grupo tem vindo a enfraquecer desde o fim dos atentados em 2011, a prisão dos principais elementos em 2015 e o desarmamento que arrancou no ano passado. Nos últimos meses tem circulado uma proposta da direcção do grupo a defender o fim do "ciclo" para a ETA até ao Verão, apostando tudo no processo político.

A proposta, citada pelo jornal basco Gara, está a ser debatida e tem de ser votada, e nela a direcção da ETA defende que se dê por concluído "o seu ciclo e a sua função", tendo em conta todas as decisões que tem tomado nos últimos anos de redução da luta armada.

"O final do ciclo é cada vez mais evidente e a consequência das decisões tomadas já se realizaram em grande parte. O final da estratégia político-militar marcou o início do final do ciclo da organização", escreve a Euskadi Ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade).

De acordo com o Gara, que não disponibiliza a proposta por inteiro, esta é uma das ideias mais importantes do conjunto de três documentos que circulam entre os membros e que terá sido escrita em Abril do ano passado, quando terminou o desarmamento — um documento de contexto histórico, outro de análise do período entre 2009 e a actualidade e este terceiro que contém a proposta política. "É preciso fortalecer o processo político em todos os âmbitos, e neste contexto a nossa decisão é um elemento necessário para criar novas situações (...). Cabe-nos fechar o tempo do conflito armado e das situações relacionadas, para oferecer todas as nossas forças e potenciar o processo político (...). E a única forma de o fazer é tomarmos directamente a iniciativa, sem esperar por nada nem ninguém", escreve a direcção do grupo.

A ETA teve sempre um pé na política. Desde que o Batasuna, o seu braço político, foi ilegalizado em 2013, os nacionalistas bascos reuniram-se em torno do movimento esquerda "abertzale" e é nesse movimento que a direcção da organização aposta para futuro. "Desde há muito que o projecto da organização não é apenas a ETA. Além disso, o movimento político que denominamos de izquierda abertzale, que demonstrou suficiente maturidade e capacidade de luta, é muito mais eficaz para concretizarmos o desafio que enfrentamos hoje em dia".

Se a proposta for aprovada, garante a direcção, a decisão será dada a conhecer publicamente, para que a ETA desapareça de facto e não possa ser reactivada ou o seu nome venha a ser usado posteriormente de forma "mal intencionada". Se tal acontecer será o fim de uma organização terrorista que esteve activa durante os últimos 60 anos e que matou mais de 800 pessoas.

Este "fim" da ETA não é, no entanto, o fim da defesa do nacionalismo basco. Impulsionados com o referendo na Catalunha, os nacionalistas da ETA acreditam que este é o tempo de mudar de armas: "Não é o momento de irmos para casa. Pelo contrário, a presente fase política necessitará de força e impulso de todos e de todas como nunca".